despedida

Último conforto

Uma estudante de medicina perde seu primeiro paciente numa enfermaria de Covid

Maria Luiza Zentgraf
ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_2020

Sexta-feira, dia 15 de maio, 19h40, recebo a seguinte mensagem no telefone celular: “Malu, o Seu João morreu.” Chorei como se tivesse perdido alguém da minha família, embora o tivesse conhecido naquele dia. Foi o meu primeiro paciente que veio a óbito.

O Seu João – vou chamá-lo assim, para preservar sua privacidade – tinha 88 anos e fora internado no Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, onde faço meu internato voluntário durante a pandemia. Ele apresentava um quadro de comorbidades: era hipertenso, diabético, tinha insuficiência venosa e uma história de câncer de próstata. Foi infectado com o novo coronavírus durante uma internação para investigar uma possível metástase. Veio a óbito por causa das complicações respiratórias.

Meu contato com o Seu João foi muito breve. Ainda assim, fiquei mais abalada do que eu esperava, talvez porque eu tenha sido uma das últimas pessoas com quem ele conversou antes de ser intubado, ou talvez porque foi o primeiro paciente cujo processo de deterioração e morte eu acompanhei tão de perto.

Tenho 25 anos e estou no último ano da faculdade de medicina na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Meu contato inicial com a morte aconteceu no primeiro ano de estudo, quando fui apresentada aos tanques de formol, onde repousam os corpos usados nas aulas de anatomia. Eufórica por estar na faculdade com a qual eu sonhara, não me dei conta, na época, de que aquelas “peças” (é assim que as chamamos) simbolizavam uma espécie de rito de passagem.



Nos dois últimos anos da faculdade, a morte ficou mais presente. Além do plantão geral que comecei a fazer no Pedro Ernesto, passei a acompanhar alguns colegas que trabalhavam em hospitais maiores, como o Miguel Couto e o Salgado Filho, especializados em tratamento emergencial. Nesses hospitais se vê de tudo: politraumatismo, acidente doméstico, bala perdida, briga de bar, afogamento. Como os casos são urgentes, o vínculo com os pacientes tende a ser menor.

Ser médico é saber que em algum momento você terá de lidar com a morte, mesmo que isso não nos seja ensinado. Passamos anos aprendendo a fisiopatologia das doenças, mas não aprendemos como contar a uma pessoa que seu ente querido faleceu. Imagino que, em algum momento, todo médico arque com uma possível culpa, pela sensação de que poderia ter feito mais pelo paciente. Não acho que a medicina seja a profissão mais importante do mundo, mas é inegável que ela carrega um fardo. Um dia ruim no trabalho é um dia em que perdemos uma vida. Quando o Seu João faleceu, me remoí imaginando se eu poderia ter feito algo mais por ele. Sigo sem resposta.

 

Conheci Seu João no meu primeiro dia na enfermaria dos pacientes com Covid-19. Ele estava deitado em um leito, logo na entrada, com um cateter nasal para suporte de oxigênio. Tinha boa oxigenação, apesar das extremidades frias por causa da insuficiência venosa. Cheguei perto da sua cama, dei bom-dia e sorri, mesmo sabendo que ele não conseguiria me ver debaixo de toda aquela parafernália de máscara, óculos de proteção, escudo facial, capote. Ele me cumprimentou de volta, sonolento. Seu discurso não era lúcido: ele achava que estava em casa e dizia não aguentar aquele vaivém de pessoas no seu quarto. Voltava a cochilar e acordava de repente, como num susto, quando eu o chamava. Segurou minha mão nos vinte minutos em que estive ao seu lado. Perguntou se eu voltaria mais tarde. Eu disse que sim.

Da enfermaria, segui para a sala dos residentes, onde cada um relata o caso do seu paciente, para que isso seja anotado no prontuário e passado ao responsável pelo turno seguinte. Àquela altura, eu já tinha lido e relido o prontuário do Seu João, e anotado tudo o que eu avaliara sobre seu estado de saúde. Interno não quer fazer feio na frente dos superiores. Discutimos se valeria a pena reduzir seu aporte de oxigênio, que já não era alto, para tentar diminuir a necessidade do cateter, visto que sua oxigenação arterial estava boa. Decidimos que sim.

Voltei à enfermaria na parte da tarde para rever Seu João. Reduzi o volume de oxigênio do cateter nasal e aguardei um pouco para colher um novo exame de sangue. “É só uma picadinha, prometo que vai ser rápido”, eu disse. Ele provavelmente já não aguentava mais as várias “só uma picadinha”, mas não emitiu qualquer som em desacordo. Reclamou, no entanto, de falta de ar. Uma médica residente me orientou a aumentar o aporte de oxigênio, para deixá-lo mais confortável. Novamente, ele ficou segurando minha mão. Seu estado geral já não era como o da manhã.

Avisei a Seu João que eu precisaria levar aquele exame ao laboratório e que retornaria mais tarde. Ele segurou minha mão com mais força e disse: “Não me abandona.” E voltou a cochilar. Não acho que tenha sido uma súplica direcionada especificamente a mim, e sim uma necessidade instintiva de algum conforto num momento como aquele. De toda forma, aquilo me cortou o coração. Eu sabia que o prognóstico não era dos melhores, dadas as suas comorbidades.

O exame do Seu João mostrava uma clara piora dos parâmetros respiratórios, o que não chegou a ser uma surpresa. Conversando com a médica responsável pela supervisão dos residentes, optamos por aumentar ainda mais o fluxo de oxigênio. Não foi suficiente: algum tempo depois, a enfermagem veio nos avisar que o quadro piorara. Eu sabia o que isso significava. Pouco tardou para que o time de resposta rápida estivesse na porta da enfermaria, com os instrumentos e aparelhos para intubação. “Quanto está o potássio dele?”, perguntou um dos anestesistas, enquanto uma residente olhava o resultado do laboratório. Por instrução deles, nos retiramos da enfermaria, já que a intubação pode fazer o paciente tossir, expelindo aerossóis. Fiquei observando por detrás do vidro do posto de enfermagem. O procedimento foi feito de forma rápida, e o Seu João foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva. Foi só então, por volta das 19 horas que deixei o hospital, já bem depois do fim do meu turno obrigatório.

Cheguei em casa cansada. Logo recebi a mensagem de um amigo também interno, que passara o dia comigo: após vinte minutos de tentativas de reanimação, o Seu João havia falecido. Chorei muito. Pensei em tudo que eu poderia ter feito de diferente, se é que havia algo. Questionei mil vezes se eu havia cometido algum erro, forcei a cabeça para relembrar todos os meus passos. Acionei minha rede de apoio: família, amigos, meu namorado. Fui convencida de que o curso da história teria sido o mesmo, com ou sem minha presença, ou apesar dela.

Acho que eu nunca vou me acostumar com a morte, ainda que essa sensação venha a ser amenizada com os anos de profissão. Por ora, não consigo pensar que o Seu João foi só mais um número a entrar na triste estatística da Covid-19 no Brasil. Ele era marido de alguém, pai de alguém, avô de alguém. Provavelmente era querido por essas pessoas. Um dos princípios da medicina diz assim, em latim: Primum non nocere – ou “Primeiro, não prejudicar”. Não sei se eu fiz diferença para o Seu João naquele dia, mas gosto de pensar que consegui, ao menos, oferecer algum tipo de conforto nos seus últimos momentos.

Sinto que ele fez por mim mais do que eu pude fazer por ele.

Maria Luiza Zentgraf

É estudante de medicina na Uerj

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