esquina

Um conde no Rio

Como renunciar a Dior e batucar Martinho da Vila

Fernanda Mena
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Vizinho de um pai-de-santo, entre o morro do Vidigal e a favela Chácara do Céu, no Rio, mora um aristocrata. Calçando chinelos de palha, ele atravessa o pátio onde guarda o seu Fusca 1970 e sobe quatro lances de escada até chegar a uma casa avarandada escondida no mato. Passa por um gato rajado na soleira e entra na sala, cuja parede do fundo é a própria encosta de pedra úmida do morro, exposta como uma caverna. Aciona o toca-discos, dedilha a coleção de vinis e põe para rodar o elepê Rosa do Povo, de Martinho da Vila. Aumenta o volume e vai à cozinha, onde acompanha com talheres o batuque de Coisa Louca. Ressurge com um prato fundo nas mãos, no qual se amontoa uma farta porção de espaguete ao ketchup, e se acomoda no sofá de dois lugares, sobre uma manta quadriculada do Ceará. No pescoço, traz um pequeno mapa do Brasil preso a um colar de prata, presente do melhor amigo, um africano que carrega um enfeite igual, mas do continente onde nasceu.

Só que o aristocrata de pingente do Brasil não é brasileiro: nasceu em Paris e tem ascendência russa. E não uma ascendência qualquer. Ele é o conde Vassia Tolstoi, tataraneto do autor de Guerra e Paz e Anna Karenina, Lev Tolstoi.

A linhagem nobiliárquica do rapaz de 31 anos, dois deles vividos no Brasil, teve início com a primeira czarina russa, Catarina, cuja ascensão ao trono contou com o apoio de um Tolstoi. Para expressar sua gratidão pelos serviços prestados, Catarina concedeu ao súdito o título de conde. De geração em geração, o título passou para o escritor e, dele, para o filho Nicolas, bisavô do Tolstoi que gosta de espaguete com ketchup. Nicolas, poeta e músico, teve um filho médico, Serge, que fugiu para a França durante a revolução bolchevique. Em Paris, nasceria o pai do moço que mora no Rio.

No começo de março, Vassia casou-se com Daniela Veríssimo Reis Costa. “Agora eu também sou condessa, tá, meu bem”, brinca Daniela, com um sorriso de lua-de-mel prolongada. E como é ser nobre? “É nada”, devolve Vassia, em português fluente e carregado de sotaque francês. “Sei que agora quem manda no mundo é a burguesia, são os novos-ricos. E eles só querem saber de si e do que é seu.” A frase não soaria mal em 1917.

Vez por outra, nos tempos de Paris, Vassia recebia convites para as festas oferecidas por seus pares de sangue azul. Mas ele nunca foi de trocar a companhia dos amigos plebeus pelo que restou da aristocracia européia. No Brasil, manteve o padrão: “Curto mais ir a uma festa de samba em Madureira do que ficar bebendo champanhe numa mansão do Leblon.” Qualquer semelhança com o tataravô, que saiu de uma profunda crise existencial quando se meteu no meio dos camponeses, talvez não seja acaso. “Acho que essa herança nunca vai me deixar em paz”, graceja.

Foi assim desde cedo. Aos 5 anos, Vassia começou a aprender russo com o avô. As aulas vinham acompanhadas de toneladas de histórias e tradições familiares, sumariamente despejadas sobre o Tolstoizinho. Foi um trauma. “Ele não tinha a menor paciência comigo”, lembra Vassia. A mãe, uma uruguaia que estudara línguas orientais e traduzia romances e canções russas para o francês, chamou para si a tarefa de educar o filho. A sua vida melhorou.

Vassia tomou consciência de sua origem num dia em que fez bagunça na aula de geografia. Como não parasse de conversar com os colegas, a professora o puniu: “Já que você gosta tanto de falar, na próxima aula fará um seminário sobre a sua família.” Sem saída, fuçou a biblioteca de casa e interrogou o avô. Ele conta: “Aí a ficha caiu.” Tinha 14 anos.

 

Com a queda do Muro de Berlim, Vassia viajou pela primeira vez à Rússia, onde visitou Moscou e São Petersburgo. “Saiu até no jornal que eu estava no país, foi um choque”, lembra. Apesar do orgulho, ele prefere não alardear o sobrenome. “Se te vêem apenas como um descendente de Lev Tolstoi, você não é ninguém”, diz. “Quero existir independentemente do meu nome.”

Na busca dessa identidade, experimentou bastante. Aos 17 anos, começou a promover festas em que fazia o papel de DJ. Em vez da dance music então em voga, preferia hip-hop, funk, salsa e samba. Passada a fase, virou fotógrafo. Tirou a sorte grande quando uma foto sua para uma campanha internacional da Dior ganhou o mundo. As portas do mercado de luxo se abriram para o jovem conde. Ele não gostou. “Trabalhei com pessoas histéricas e estúpidas, com modelos anoréxicas que eram tratadas como lixo”, explica. “Tudo era um drama, e só para vender roupas.” Preferiu largar tudo.

Os amigos acharam que ele tinha endoidecido. Onde já se viu, dizer não à dinheirama, às belas mulheres, ao circuito da moda? Para Vassia, entretanto, a renúncia foi um ato político, que poderia ser sintetizado da seguinte forma: “O dinheiro representa uma nova forma de escravidão impessoal, em lugar da antiga escravidão pessoal.” A frase está num conto do tataravô, “O dinheiro”. “Não sigo uma ‘cartilha Tolstoi’, mas algumas das minhas posturas devem ser fruto de valores que herdei da família”, esclarece.

No ano 2000, Vassia conheceu Iasnaia Poliana, a propriedade da família onde Lev Tolstoi nasceu e passou a segunda metade da vida. A casa foi transformada em museu pouco depois da morte do escritor – hoje, é um dos mais visitados da Rússia. Um tio de Vassia, administrador do museu, convocara parte dos mais de 380 descendentes diretos de Tolstoi espalhados pelo mundo. Com o exército familiar, pretendia levantar fundos para que a instituição se mantivesse autonomamente, sem verbas do governo nem dinheiro da máfia russa. O tal tio entrara em atrito com incorporadores de maus bofes que planejavam construir um complexo turístico – com cassino e tudo – na entrada de Iasnaia Poliana. Acabou ganhando a briga, mas perdeu a simpatia dos plutocratas.

Das obras do tataravô, Vassia leu as principais. Há quatro anos, encerrou a lista com Guerra e Paz. “Não gostei da parte em que ele fala de estratégia militar e descreve as batalhas, mas fiquei impressionado com a descrição sociológica do poder, que é muito atual”, comenta. Suas preferências vão mesmo para os contos populares: “As imagens são simples, todo mundo entende, mas traduzem idéias muito poderosas.” E ele dá o laço: “É como a música brasileira.”

O gosto pelo samba abriu as portas para o Brasil. “Eu estava cheio da Europa, de trabalhar que nem louco”, conta. “Minha mãe morreu e mal vivi o luto, de tão ocupado que estava. Resolvi tirar um ano sabático.” Viajou primeiro ao Uruguai, para visitar os parentes maternos. Depois, para o Rio, onde enganchou: “Foi um caso de amor instantâneo.” Durante um ano e meio, Vassia fotografou para a revista francesa Paris Match. Conseguiu conciliar a fotografia profissional com um projeto próprio que sonha ver publicado: 700 retratos de freqüentadores do Posto 9, em Ipanema, clicados num estúdio improvisado na praia, dentro da barraca de um vendedor de cerveja.

Não foi na areia que ele conheceu a carioca Daniela. Foi na Pizzaria Guanabara, às cinco da manhã – o fim da raspa do tacho no que diz respeito a noitadas da Zona Sul. Agora, de sua varanda entre o Vidigal e a Chácara do Céu, vizinho de pai-de-santo, comendo macarrão com ketchup ao som de Coisa Louca, Vassia pensa numa das mais famosas primeiras frases da literatura mundial – “Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”, de Anna Karenina – e, com Daniela, sonha ser feliz como todos os casais felizes do mundo.

Fernanda Mena

Fernanda Mena foi repórter de piauí.

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