carta da Noruega

Um de nós

Anders Breivik, que matou a tiros 69 jovens na ilha de Utøya, em 2011, tinha o nome e a aparência de um norueguês comum

Karl Ove Knausgård
Uma das vítimas do terrorista morreu com um tiro na boca sem que os lábios sofressem qualquer lesão, o que indica que ele atirou de muito perto, enquanto ela gritava; na cadeia, Anders Breivik exige que atualizem o seu Playstation 2
Uma das vítimas do terrorista morreu com um tiro na boca sem que os lábios sofressem qualquer lesão, o que indica que ele atirou de muito perto, enquanto ela gritava; na cadeia, Anders Breivik exige que atualizem o seu Playstation 2 FOTO: JONATHAN NACKSTRAND_AFP

Com 5 milhões de habitantes, a Noruega é um país pequeno. É também um país relativamente homogêneo e igualitário. Na prática, isso significa que as distâncias entre as classes sociais são pequenas e que as grandes tragédias afetam toda a população. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que morreu quando a plataforma de petróleo Alexander Kielland a fundou em 1980, por exemplo – lembro que um colega de escola do meu irmão perdeu o pai nesse acidente –, ou quando o navio Scandinavian Star pegou fogo e 158 passageiros morreram em 1990.

A Noruega também é um país inocente – o grande sucesso da tevê no verão de 2011 foi uma transmissão ao vivo feita a partir do Hurtigruten, que não trazia nada além de imagens da viagem que o navio empreendeu ao longo da costa durante os vários dias necessários para sair de Bergen e chegar a Kirkenes. O fenômeno se espalhou como uma epidemia, e as declarações de amor ao país começaram a surgir uma após a outra nas redes sociais. As pessoas acompanharam a chegada do navio a uma pequena cidade em Lofoten, uma banda marcial tocou, as bandeiras tremularam, o cais estava cheio de gente e os locais acompanharam tudo com lágrimas nos olhos. É curioso que esse tipo de manifestação possa ter vindo à tona em 2011, e tudo pareceu ao mesmo tempo comovente e quase provocador justamente por ter revelado aspectos egocêntricos e quase totalmente inofensivos do país.

Foi desse mesmo mundo que, semanas mais tarde, surgiu Anders Behring Breivik. Na manhã do dia 22 de julho, ele saiu da casa da mãe na parte oeste de Oslo,vestiu um uniforme da polícia, estacionou o carro com uma bomba (que ele construíra ao longo da primavera e do verão) no Regjeringskvartalet,[1] acendeu o pavio e foi embora. Enquanto as imagens catastróficas do atentado, que resultou na morte de oito pessoas, eram transmitidas no mundo inteiro, ele foi a Utøya. A juventude do Arbeiderpartiet (Partido Trabalhista) fazia seu acampamento anual nessa ilha, onde Breivik alvejou e matou 69 participantes em um massacre que durou mais de uma hora.

O ataque tinha motivações políticas, o responsável disse que estávamos em guerra, que ele lutava contra a dissolução de valores tradicionais como o papel do homem e o do Estado, que os inimigos eram os muçulmanos e o multiculturalismo, e que a carnificina dos jovens que participavam do acampamento devia servir como sinal de alerta. Ele queria salvar a Noruega. Poucas horas antes que a bomba explodisse, Breivik enviou a mais de mil destinatários um manifesto – com mais de 1 500 páginas – com explicações detalhadas sobre sua visão de mundo e a posição que defendia. Também havia postado no YouTube um filme de doze minutos que, com simplicidade propagandística e a linguagem rebuscada dos anos 40, mostrava o que estava acontecendo na Europa: uma invasão muçulmana.

O choque na Noruega foi total. O país não estava preparado para nada parecido, uma possibilidade dessas simplesmente não existia no pensamento das pessoas: depois da Segunda Guerra Mundial, o atentado político mais grave no país haviam sido os assassinatos de Hadeland, quando foram executados dois jovens membros de um pequeno grupo neonazista chamado Norges Germanske Armé. O crime aconteceu em 1981 e foi um caso muito debatido na época. Mas dessa vez tudo era radicalmente diferente. As transmissões da tevê sobre a catástrofe eram caóticas, os jornalistas e apresentadores estavam tão abalados pelos fatos quanto as pessoas que entrevistavam; era possível ver incredulidade, choque e confusão nos olhos e na linguagem corporal de todos. A distância que em geral nos separa das notícias deixou de existir. Tudo era muito próximo para todos. Era como se o mundo estivesse completamente aberto durante aqueles dias.

Chorei quando soube o que tinha acontecido, e chorei também nos dias seguintes. Bem como muitos outros noruegueses. Foi um acontecimento que venceu todas as nossas defesas, porque a morte midiática a que estávamos habituados se desenrolava sempre em outros lugares, em cidades e países estranhos, e agora ocorria em nossa casa, junto a um fiorde norueguês num dia chuvoso de julho. Todas as imagens que chegavam eram familiares: os pinheiros verde-escuros que crescem à beira d’água, os escolhos branco-acinzentados e o mar pesado e plácido, também cinza. E lá, no meio dessa paisagem familiar, havia cadáveres cobertos por sacos plásticos. Também mostraram imagens dos sobreviventes em terra. Uns estavam deitados no chão, recebendo tratamento, outros entravam em ônibus, às vezes enrolados em cobertores de lã. Uns se abraçavam de pé. Uns gritavam, outros choravam. Eram jovens noruegueses comuns. As ambulâncias eram ambulâncias norueguesas comuns. As viaturas eram viaturas norueguesas comuns. E quando as imagens do homem que tinha andado pela ilha matando um jovem atrás do outro foram transmitidas, eram também as imagens de um rosto norueguês comum, com um nome norueguês comum.

O 22 de julho foi uma tragédia nacional. Mas não foi como outras tragédias nacionais com as quais sofremos. Não foi como o desastre da Alexander Kielland. Não foi como o desastre do Scandinavian Star. Não era uma catástrofe que pudesse ser atribuída à fadiga de material ou a um incêndio, tampouco se tratava de uma catástrofe natural. Era uma catástrofe humana.

 

Hoje, quase não dá para acreditar. Passado o choque dos primeiros dias e as tristes consequências das semanas seguintes, os acontecimentos de 22 de julho foram encerrados. O mais interessante do julgamento – que ocorreu um ano depois e durou dez semanas, ao longo das quais pudemos finalmente ver o rosto de Breivik e tomar conhecimento de sua vida e dos ambientes por onde circulava, tudo documentado e analisado – foi perceber que tanto o atentado como o homem responsável pelo massacre receberam um tratamento normalizador, dentro dos conformes.

O fato de que ele era uma pessoa como todos nós, que argumentava em defesa das próprias ideias, trouxe consigo um elemento incompreensível: de repente a medida passou a ser Breivik, o homem, e não mais a atrocidade que havia cometido. Uma das vítimas chegou a chamar Breivik de “imbecil” no jornal; vários comentadores descreveram-no como um homem de estatura baixa, pequeno, um coitado. Uns tentavam demonstrar os furos de sua argumentação, outros escreviam sobre os erros em que havia incorrido e os equívocos que havia cometido, e é compreensível esse tratamento inofensivo e condescendente do homem responsável pelo massacre, afinal as pessoas são pequenas em si mesmas, mas essa constatação não explica como esse ato de terror foi possível. Pelo contrário: quando o julgamento chegou ao fim, era como se essas duas grandezas, o horror do atentado e o homem que o perpetrou, fossem absolutamente irreconciliáveis.

Como podemos entender o que aconteceu? O que leva uma pessoa razoavelmente funcional a fazer uma coisa dessas? Ainda mais num país estável, rico e ordeiro? O que leva uma pessoa a tomar essa atitude? Será realmente possível compreender?

Considerando a retórica política e a percepção que Breivik tinha de si mesmo, e considerando os alvos que escolheu – o Regjeringskvartalet e a juventude do partido que governava o país –, seria natural comparar essa ação com o atentado no estado norte-americano de Oklahoma em 1995, quando Timothy McVeigh estacionou um carro-bomba em frente ao prédio do governo do Estado e matou 168 compatriotas, em protesto contra o poder estatal. Breivik usou o atentado de Oklahoma como modelo para a primeira parte do plano. Mas quase todo o resto aponta para um sentido contrário à política e à ideologia, para o sentido da personalidade.

Breivik mandou fazer um uniforme de capitão, que usou num retrato tirado antes do atentado, e se referia constantemente ao fato de integrar uma grande organização, que no entanto não existe; no manifesto, entrevista a si mesmo como um herói, e a impressão que se tem é a de um homem que construiu um mundo de fantasia, uma realidade de faz de conta, na qual sua importância é indiscutível.

A maneira como fez o que fez e como planejou tudo guarda mais semelhanças com a interpretação de um papel do que com o terrorismo político. A solidão nisso tudo é enorme, e o desejo de exaltar a si mesmo também. O mais razoável é encarar os atos de Breivik como uma variante dos vários massacres perpetrados durante a última década em escolas nos Estados Unidos, e também na Finlândia e na Alemanha: um jovem desajustado, excluído do grupo de colegas, leva tantos quanto pode junto consigo para nos ensinar uma lição.

Poucos dias antes do atentado, Breivik havia visitado a ex-madrasta e lhe dissera que em breve faria uma coisa que deixaria o pai cheio de orgulho.

Breivik queria ser visto, foi essa a motivação dele, e nenhuma outra.

Olhem para mim. Olhem para mim. Olhem para mim.

 

Agora Breivik está preso. Depois de receber uma cobertura midiática gigantesca, sem precedentes na sociedade norueguesa, tudo ao redor dele está mais ou menos quieto. Segundo as últimas notícias que circularam, ele havia declarado que processaria o Estado pelas condições em que estava cumprindo a pena. Essa foi apenas uma das queixas na extensa lista que formulou durante o tempo passado na prisão, na qual constam desde reclamações sobre a impossibilidade de trocar o PlayStation 2que tem na cela por um PlayStation 3, até reclamações sobre a caneta de borracha que tem à disposição, supostamente pouco ergonômica e causadora de dores nas mãos. “Se fosse possível desenvolver reumatismo, tenho certeza de que essa caneta de borracha seria capaz de provocar a doença. Trata-se de uma ferramenta digna de pesadelo, e usá-la é uma frustração enorme”, ele escreveu. Os instrumentos de escrita são muito importantes porque Breivik se vê como escritor e tem pretensões literárias para as próximas décadas. “Por esse motivo, prevejo um futuro em que não vou dispor de nada além dessa caneta disfuncional, o que caracteriza uma manifestação quase indescritível de sadismo.”

Quando recordamos o que Breivik fez naquele dia de verão há quatro anos, enquanto caminhava por uma ilha cheia de adolescentes, atirando em todos aqueles que via, muitas vezes cara a cara – muitos se recordam do relatório apresentado durante o julgamento sobre a autópsia da garota que foi morta com um tiro na boca sem que os lábios sofressem qualquer tipo de lesão, o que indica que Breivik atirou de muito perto, enquanto ela gritava pedindo ajuda ou clemência –, e quando pensamos nas consequências do atentado para as famílias envolvidas, na tristeza avassaladora de perder um filho, um irmão, um neto, essa lista de queixas é uma leitura quase insuportável em função da trivialidade. É como se o conceito da banalidade do mal formulado por Hannah Arendt tivesse sido levado às últimas consequências.

Adolf Eichmann, o homem sobre quem Arendt escreveu, pertencia a uma organização, a uma burocracia e a uma estrutura para as quais trabalhava com absoluta lealdade, que em troca o protegiam de uma compreensão definitiva das consequências de seus atos. Desde o primeiro instante Breivik fez tudo sozinho, e o que tem de pequeno e de vazio, que por causa das ações que praticou ganhou proporções grotescas, torna ainda mais difícil aceitar esse atentado, que todos os meios de comunicação afirmaram ser o maior ataque terrorista em solo norueguês desde a Segunda Guerra Mundial.

E, ao contrário do que se poderia imaginar, não é o isolamento na prisão que propiciou a manifestação desses traços de personalidade. Em En Av Oss [Um de Nós], o melhor e mais detalhado livro publicado sobre o massacre de Utøya, a escritora Åsne Seierstad descreve o que aconteceu nas horas que sucederam a captura de Breivik. Enquanto os cadáveres permaneciam espalhados pela ilha em poças de sangue, antes que todos os feridos tivessem sido recolhidos, Breivik foi interrogado. Para a polícia, a situação era totalmente imprevisível, e o essencial era determinar se Breivik estava sozinho ou se havia mais terroristas à solta. Breivik disse que temia morrer de desidratação, já que tomara várias substâncias químicas antes do ataque. Deram-lhe refrigerante antes do interrogatório. Depois de uma hora, ele se mostrou preocupado com um corte que tinha no dedo. Seierstad escreve:

“Veja, eu estou ferido”, ele disse. “Preciso de um curativo. Já perdi muito sangue.”

“De mim você não vai receber curativo nenhum”, resmungou o policial que corria de um lado para o outro levando notícias da sala do interrogatório para a sala ao lado, onde mantinha contato com o escritório em Oslo.

“Eu não vou resistir a uma perda de sangue tão grande”, disse Breivik. “A essa altura já perdi meio litro.” Breivik acreditava que podia desmaiar devido à perda de sangue. O policial foi providenciar um curativo.

Enquanto recebia cuidados médicos, Breivik tentou lembrar por que estava sangrando. Lembrava que havia sentido um impacto no dedo ao efetuar um disparo à queima-roupa. Alguma coisa havia ricocheteado no dedo. Deve ter sido uma lasca de crânio, ele disse aos policiais.

Segundo o registro, o corte media 5 milímetros. O interrogatório pôde continuar.

 

A preocupação de Breivik com esse minúsculo corte no dedo, manifestada poucos minutos após acabar com quase setenta vidas, e a notável indiferença que revelou talvez pudessem ser atribuídas ao efeito dos vários medicamentos que havia tomado e também ao efeito do próprio massacre, que talvez o tivesse deixado em uma situação de contato precário com a realidade, não fosse o fato de que essa situação não teve fim, e de que hoje, quatro anos depois, continua em vigor.

Ele é assim, uma pessoa ocupada somente consigo mesma. E talvez o mais doloroso de tudo seja perceber que todo esse massacre terrível, todas essas vidas que se apagaram foram resultado da necessidade demonstrada por um jovem que não conseguiu se tornar o centro das atenções.

Mais tarde, quando o interrogatório chegava ao fim, pediram a ele que tirasse a roupa. Seierstad descreve a cena nas seguintes palavras:

De repente Breivik estava só de cueca numa sala cheia de homens uniformizados. Ele começou a se pavonear, quis parecer másculo. Queria que batessem fotos dele. Com o rosto voltado para a câmera, estufou o peito. As mãos ficaram enlaçadas junto à lateral do quadril enquanto ele enrijecia o corpo na postura clássica de um fisiculturista, para que os músculos aparecessem o máximo possível.

Por um instante os policiais ficaram totalmente perplexos. Em outro contexto, no caso de um outro crime, talvez a cena parecesse apenas ridícula, mas naquela situação… era grotesco, era absolutamente incompreensível. Com que tipo de pessoa estavam lidando?

 

Escrever sobre Anders Behring Breivik me repugna de várias maneiras. Toda vez que esse nome é mencionado em público, Breivik se torna aquilo que gostaria de ser, enquanto as pessoas que matou, que usou para se promover, não apenas perderam a vida, mas também o nome. Falamos sobre o que aconteceu com uma expressão curta, dizemos “o 22 de julho” ou “Utøya”, e para todas as pessoas isso tem um significado terrível. Mesmo assim, o único nome que relacionamos ao que aconteceu é o nome de Breivik. Também foi assim com o atentado em Oklahoma.

Conhecemos o nome de Timothy McVeigh, o homem que praticou o atentado, e sabemos que matou 168 pessoas, mas não sabemos o nome de uma vítima sequer. Essas pessoas foram transformadas em um número. O mesmo vale para todas as grandes tragédias do século passado. Conhecemos o nome de todos os nazistas importantes e sabemos quantos judeus eles mataram, mas não sabemos o nome dos mortos. Sabemos quem estava por trás do massacre de Srebrenica, mas não sabemos o nome das pessoas que foram executadas. Os carrascos são nomes, as vítimas são números.

E não há nada que possamos aprender com Breivik: a vida dele não passa de um amontoado de circunstâncias infelizes, e o que fez foi uma anomalia monstruosa e indefensável. Sabemos que Breivik cresceu com um pai ausente e uma mãe que o negligenciava de tal modo que acabou por destruí-lo num nível tão profundo que ele jamais teria uma chance. Ainda que a própria mãe nem suspeitasse – porque uma das características fundamentais no caráter dela era a incapacidade de se ver em relação aos outros, inclusive em relação aos próprios filhos.

Ela também sofreu maus-tratos na infância e apresentou os mesmos traços narcisistas do filho. Mas o mundo é repleto de infâncias difíceis – uns se deixam vencer, outros dão a volta por cima, e mesmo assim ninguém mata 69 pessoas com as próprias mãos. O mundo é repleto de pessoas com personalidade narcisista – eu mesmo sou uma delas –, e também repleto de pessoas que não sentem empatia pelos outros. E o mundo é repleto de pessoas que compartilham as convicções políticas extremas de Breivik sem que por esse motivo saiam matando crianças e adolescentes. A vida de Breivik não explica nada, o caráter de Breivik não explica nada, as convicções políticas de Breivik não explicam nada.

Precisa existir um sistema de segurança social que torne impossível fazer o que Breivik fez, ou o que fazem os adolescentes que abatem os colegas a tiros nas escolas. E não penso nos órgãos de proteção à criança e ao adolescente, nem nos órgãos de educação, tampouco nas autoridades sociais, e muito menos na polícia. Refiro-me aos laços que existem entre as pessoas, à presença do outro em nós, à predisposição ao redor da qual todas as sociedades e culturas se constroem e que se revela na ordem dada pelo rosto dos outros: “Não matarás.”

O que precisamos analisar é o colapso da humanidade que esses acontecimentos representam e as causas que os tornam possíveis. Matar outra pessoa exige um distanciamento enorme, e mesmo que esse colapso ocorra em certos indivíduos, que naturalmente precisam assumir toda a responsabilidade pelos próprios atos, o espaço que possibilita esse distanciamento surgiu no meio da nossa cultura. Surgiu em meio a nós, e hoje está aqui, agora mesmo.

 

O livro que Åsne Seierstad escreveu a respeito de Breivik – En Av Oss [Um de Nós] – tem esse título porque as vítimas, o responsável pelo atentado e a autora pertencem todos a uma mesma cultura, a cultura norueguesa, mas também porque Breivik, antes de tomar a decisão que tomou, parece ter sido o tipo de sujeito absolutamente normal que vemos por toda parte. É verdade que teve uma infância e uma adolescência complicadas, mas isso é mais comum do que se imagina, e também é verdade que não conseguiu o que queria na vida, não chegou aonde pretendia, mas esse também é um acontecimento relativamente comum. Os grandes conflitos internos que o afligiam permaneceram escondidos, inclusive para ele próprio. Somente no instante em que tomou a decisão de praticar um atentado terrorista e o levou às últimas consequências ele se diferencia de nós. Quando leio a respeito de Breivik, consigo segui-lo até esse ponto, é até onde chega minha capacidade de ver as coisas pelos olhos dos outros – mas não vou mais além. Um abismo nos separa do assassinato.

O que é necessário para matar outra pessoa?

Ou, formulado de outra maneira: o que nos impede de matar?

A consciência, a lei, o castigo, a vergonha. A percepção de que as outras pessoas valem tanto quanto nós.

Mas vamos supor que todos esses parâmetros fossem suspensos. Vamos supor não apenas que matar fosse legítimo, mas também que recebêssemos incentivo para agir dessa forma. Vamos supor que estivéssemos convencidos de que as pessoas que matamos valem menos do que nós, e de que matá-las é fazer o bem.

No Exército é assim. Lá, e somente lá, o assassinato é aceitável. Essa constatação basta para concluir que, em determinadas circunstâncias, o assassinato é possível para a maioria das pessoas, desde que seja socialmente aceito. Em determinadas circunstâncias, a consciência e a vergonha podem ser postas de lado, bem como a percepção de que as outras pessoas valem tanto quanto nós.

Esse argumento parece pouco razoável porque a guerra é uma situação de exceção, que tem por objetivo um bem maior, a segurança da sociedade como um todo. Mas no fundo trata-se de uma constatação bem mais simples: de fato existem situações em que a maioria das pessoas é capaz de matar. E a história nos ensina que essas situações surgem de vez em quando, e que nem sempre estão relacionadas ao bem de todos. Em Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt escreve a respeito do que aconteceu na Alemanha durante as décadas de 30 e 40:

Em países civilizados, a lei parte do pressuposto de que a voz da consciência diz a todos “Não matarás”, mesmo que as pessoas às vezes possam manifestar impulsos homicidas. Da mesma forma, a lei na Alemanha de Hitler dizia a todos: “Matarás”, mesmo que os responsáveis pela organização dos massacres no fundo soubessem muito bem que o homicídio ia contra os impulsos naturais do homem.

Em outras palavras: matar é contrário à natureza humana, mas em casos extremos essa resistência pode ser vencida na esfera social quando a comunidade exige ou encoraja esse tipo de comportamento. O que hoje acontece na Síria e no Iraque, com as carnificinas brutais promovidas pelo Estado Islâmico, não se deve a uma súbita transformação dos responsáveis pelos assassinatos em pessoas más, mas ao fato de que os mecanismos da sociedade civil que em geral impedem a população de promover a violência e o assassinato sofreram uma dissolução total, e uma cultura bélica e homicida surgiu para ocupar o vazio deixado. Foi o que aconteceu em Ruanda, foi o que aconteceu nos Bálcãs. Essa é uma das possibilidades que os seres humanos trazem consigo. Mas tudo isso acontece a uma distância tão grande da nossa sociedade que é impossível sentir qualquer tipo de identificação. Essas pessoas queimam reféns vivos em jaulas. E o desprezo, a indiferença pela vida que essa atitude demonstra é incompreensível, estamos separados disso por um abismo.

No entanto, o que Breivik fez ao matar com as próprias mãos 69 pessoas, todas desarmadas, todas apavoradas, uma após a outra, muitas vezes cara a cara, não aconteceu numa sociedade em situação de guerra, na qual todas as normas e regras foram suspensas e todas as instituições encontram-se falidas; muito pelo contrário, aconteceu num país pequeno, harmônico, funcional e rico em tempos de paz. Todas as normas e regras foram suspensas para ele, e uma cultura bélica havia surgido para ele, e por isso Breivik foi totalmente indiferente à vida humana e totalmente implacável.

Como é possível? Como isso pôde acontecer?

 

As forças mais poderosas da humanidade são aquelas relacionadas ao rosto e ao olhar. É graças a essas forças que nos tornamos reais uns para os outros. É no olhar dos outros que passamos a existir, e é no nosso olhar que os outros passam a existir. Mas também podemos ser destruídos nesse olhar.

Não ser visto é destruidor, e não ver também.

Foi isso o que deu errado na vida de Breivik. Ele não era visto, o que acabou por destruir a ele próprio; e ele também desviava o olhar, escondia os olhos e o rosto, o que acabou por destruir o outro para ele. Tudo isso deve ser entendido de forma literal. Dois anos antes do atentado, Breivik se isolou num quarto na casa da mãe, não via praticamente ninguém, não recebia visitas e quase não saía, mas passava o tempo inteiro em casa jogando no computador, principalmente World of Warcraft, hora após hora, dia após dia, semana após semana, mês após mês.

A certa altura esse universo de fantasia se afastou da realidade, não sob a forma de uma psicose ou de uma perda de contato patológica com o mundo ao redor, mas como se Breivik estivesse à procura de modelos de realidade simples e controláveis, como o universo dos jogos, e assim, impulsionado pela força dessas fantasias, e também por aquilo em que elas o transformavam – um cavaleiro, um capitão, um herói –, resolveu colocá-las em prática na vida real. Ele não era ninguém, ou seja, era como se estivesse morto, mas de repente foi para o outro lado e deixou de ser ninguém, porque ao fazer o inconcebível, que a partir de então se tornou concebível, ele queria se transformar em alguém.

E não havia ninguém para repreendê-lo, ele desviava o olhar.

 

Um momento notável durante o julgamento foi quando Breivik descreveu o encontro com um grupo de jovens encurralados contra uma parede em uma das casas da ilha pouco antes de matá-los. Ele parou e pensou que era muito estranho que não se mexessem, não fugissem, mas ficassem simplesmente parados – foi uma cena nunca vista em filme nenhum. Sim, porque Breivik se movimentava pela ilha como se estivesse num filme ou num jogo, mas o heroísmo que trazia nos olhos e as mortes que provocou não pertenciam ao mundo das imagens, não eram abstratas e sem consequências, não estavam alhures, afastadas do tempo e do lugar onde o corpo dele estava; eram mortes reais, concretas, absolutas. Cada um dos tiros penetrou na carne, cada um dos olhos que se apagou era um olho real, que pertencia a uma pessoa com uma vida real. Com a capacidade que tinha para reprimir os sentimentos, com a capacidade que tinha para recriar o mundo à própria imagem, Breivik nem ao menos ergueu a sobrancelha ao narrar os próprios feitos no tribunal, mesmo que todos os membros da audiência – juízes, jornalistas e parentes – estivessem chorando ao ouvi-lo. Para ele, as vítimas continuavam a ser imagens.

Breivik sabe o que fez, é totalmente imputável, mas assim mesmo é incapaz de compreender, porque não sente nada em relação ao que aconteceu. É necessário um eu para ter sentimentos em relação aos outros, e Breivik não tem mais nada parecido, o eu dele morreu. A identidade que assumiu, construída minuciosamente, com um novo corpo, uma nova mentalidade, dessensibilizada e implacável, é a identidade de um soldado, a identidade de um herói, que entra em conflito e combate tudo que ele tinha sido antes, como se ele tivesse corporificado uma imagem e transformado o relativo em absoluto, em carne e sangue, enquanto o verdadeiro absoluto, os corpos daqueles jovens, era transformado em imagens, pixels, números.

 

Tudo que existe na história de Anders Behring Breivik até a hora do atentado existe em maior ou menor grau na vida de todos, ele era e continua sendo um de nós. O fato de que tenha feito o que fez e o fato de que os outros jovens desajustados que atiraram em multidões de pessoas tenham feito o que fizeram significam que o distanciamento necessário em relação ao outro se encontra acessível em nossa cultura, provavelmente mais acessível do que se encontrava duas gerações atrás. Mas vivemos todos na mesma cultura, movimentamo-nos todos no espaço entre a ficção e a realidade, entre as imagens e a materialidade, e nem o distanciamento em relação ao outro nem o ato de virar as costas para o mundo são grandezas absolutas.

Para ver a cultura é necessário estar fora dela, para ver uma pessoa é necessário estar fora dela – e essa ambiguidade é a marca do livro de Åsne Seierstad, em especial no que diz respeito aos assassinatos cometidos na ilha, descritos de maneira precisa, detalhada e técnica, sem nenhum sentimento e com um grande distanciamento em relação a tudo, salvo em relação à trajetória das balas e à posição dos corpos, de maneira que “Utøya” e “o 22 de julho” mais uma vez ganham novos significados quando leio o livro. O que resta é algo concreto, não um fenômeno, não um caso policial, não um argumento em uma discussão política, mas um corpo inerte caído em cima de uma pedra junto à margem. E eu choro outra vez. Porque esse corpo tem um nome, era um menino chamado Simon. Ele tinha um pai, uma mãe e um irmão mais novo. Os três vão sentir falta dele pelo resto da vida.


[1] Zona de edifícios governamentais.

Karl Ove Knausgård

Karl Ove Knausgård, escritor norueguês, é autor da série autobiográfica Minha Luta, publicada no Brasil pela Companhia das Letras

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