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Um legume na mão e uma ideia na cabeça

Polêmica no 1º Campeonato de Escultura em Melancias

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A promotora de eventos Elizabeth Tachibana veio de Curitiba com duas melancias na bagagem e um sonho: sagrar-se campeã brasileira de entalhe em frutas e legumes. A contenda ocorreu na tarde de 13 de setembro, durante a feira de hotelaria e gastronomia Equipotel, no Pavilhão do Anhembi, em São Paulo. Foi o 1o Campeonato Nacional de Escultura em “Melâncias”, como dizia o folheto.

O evento foi idealizado pelo chef tcheco Charlie Carving, único representante no Brasil da escola tailandesa de entalhamento hortifrúti. O estilo opõe-se às escolas filipina, chinesa e japonesa, que defendem a utilização de ferramentas elétricas e a escolha de temas mundanos, como dragões e samurais. Já o entalhe tailandês privilegia a paciência, as armas brancas (facas comuns) e dá preferência a motivos bucólicos.

A competição contava com uma série de regras, nem todas compreensíveis. A primeira dizia que “todo cidadão brasileiro pode participar da competição”. A segunda, que “podem participar da competição também pessoas do exterior”. Beneficiado pela falta de sentido da legislação, o chef cubano Eduardo Díaz Toledo, do Senac do Paraná, pôde se inscrever.

Segundo o edital, não seriam permitidos dispositivos de motor, como facas elétricas, motosserras e furadeiras. E todos deveriam trazer sua respectiva melancia – máximo de duas peças –, regra que foi levianamente quebrada pela organização do concurso, que dispôs, na entrada, uma pilha de lustrosas cucurbitáceas à disposição dos competidores.



Com duas melancias acondicionadas numa mala de rodinhas, Elizabeth achou errado e protestou, invocando o trabalho que tivera ao transportar sua matéria-prima desde o Paraná. Alheio a tudo e a todos, o paulistano Mitsuo Inaba limpava meticulosamente as quarenta banquetas e as duas compridas mesas de trabalho com seu indefectível pano multiuso. Depois, lustrou e alinhou simetricamente os instrumentos de cutelaria, entre os quais se encontravam boleadores, descascadores, facas tailandesas, facas retas, facas “carvadas”, floreadores, agulhas, borrifadores de antioxidante, formões, palitos de churrasco, alicates e estiletes. Nas maletas dos participantes também havia sachês de ketchup e mostarda, cola tipo Super Bonder e durex.

Enquanto isso, o goianiense Geovanio Carvalho tentava criar vínculos com a fruta que lhe cabia, abraçando-a com ternura. O colega Dogival Alves Freire, de Brasília, analisava a consistência de sua redonda. Já a campineira Suzana Ishizaki apalpava discretamente o umbigo de sua “melância”, na tentativa de conhecê-la melhor.

No total, eram nove participantes, todos com jaquetões brancos de chef. Às duas e cinco da tarde, começou o torneio. O primeiro a apunhalar sua matéria bruta foi Eduardo Díaz, o cubano especialista em cisnes de tomate, leques de pepino, flores de batata, patos de nabo e buquês de alho-poró.

Quem logo assumiu a dianteira foi o paulistano José Adriano Cordeiro, que descascou o hemisfério ocidental de sua musa esférica com poucos e bons talhos. O mais calmo era Mitsuo, que analisava um esboço do desenho pretendido: uma abelha (feita com a casca da fruta) polinizando uma flor branca sobre um recheio de melancia. Um trabalho em diversos níveis, portanto.

Passada meia hora, José já havia burilado uma flor funda, de interior avermelhado. Dogival revelou um pendor especial para a finalização de pétalas, enquanto Shigemi Matsumoto, de Jundiaí, destacou-se por trabalhar o topo de sua melancia, a menor entre as presentes. Com o tempo, uma flor foi surgindo de dentro da fruta, de modo que só faltou à artista tocá-la com um cinzel e pedir: “Parla!”

 

Pouco antes das três da tarde, acabou a luz no recinto. Ainda havia iluminação parcial numa das bancadas e foi para lá que todos transferiram suas melancias. Lá fora, os visitantes da feira acompanhavam a movimentação grudados no vidro, tentando entender por que diabos havia nove pessoas de branco cavucando melancias no escuro.

Em dez minutos a energia voltou e, às 15h40, o primeiro escultor deu por concluída sua arte. Era José, que talhou uma extensa flor em dégradé. Dez minutos depois, Geovanio também terminou, satisfeito: “Eu sou apaixonado pela minha obra”, confessou, apreciando-a por uns minutos. Ambos os trabalhos tinham técnica semelhante e consistiam em flores profundas e coloridas, sendo que a de Geovanio trazia um detalhe de borboleta em casca verde. “Estou gostando também de pássaros”, ressaltou, explicando o redirecionamento temático.

Encerradas as três horas de competição, os juízes se reuniram para deliberar. Avaliaram quesitos como concepção (limpeza, regularidade, nitidez e energia de corte), dificuldade (quantidade de motivos, plasticidade), desenvoltura, técnica, impressão artística e pluralidade de temas.

Ao analisarem a obra de Eduardo Díaz, porém, a situação ficou tensa. Ele era responsável pela criação mais original do recinto: um barco talhado no interior da melancia, com vasta matéria-prima do miolo. As demais esculturas tinham maior ênfase na superfície da fruta, no jogo entre casca, parte branca e miolo. Eduardo Díaz era um insider.

Inflexíveis, os juízes elogiaram sua noção de profundidade, mas disseram que o trabalho “teria ficado esteticamente melhor numa abóbora”. Grande ofensa. Armou-se uma confusão. O artista discordou, disse que deviam examinar a técnica e não o material, e falou que não se importava com o fato de a melancia ter sementes que se evidenciavam num trabalho como aquele. “É uma crítica construtiva!”, apelou uma das juízas. Díaz se afastou, irritado. Era como se dissessem a Rodin que O Pensador ficaria melhor em plástico bolha, e não em bronze. No fim, o artista incompreendido levou uma menção honrosa pela “noção de tridimensionalidade em frutas”, que ficou mais parecendo um prêmio de consolação pelo infeliz comentário da abóbora.

O campeão da noite foi Milton Nisti, um chef de 47 anos, de Santos, que usa aparelho dentário e trouxe dois tipos de óculos para enxergar. Milton esculpiu um rosto de mulher com cabelo de casca verde, nariz à Karl Malden e flores entalhadas ao redor.

Antes mesmo de poder gozar dos privilégios de ser campeão brasileiro, Milton foi ofuscado por um acontecimento ainda mais importante para a comunidade: Charlie Carving resolveu esculpir em melancias o rosto dos presidenciáveis e comunicou sua decisão à imprensa. Fôssemos juízes, diríamos, com óbvio intuito construtivo, que a ideia talvez se materializasse melhor em bananas.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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