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Um ministério de desimportância enciclopédica

Na Wikipédia, o ministro da Previdência vira dublador de Fred Flintstone, Hitler e Drácula

Marcos Sá Corrêa
Dilma Roussef, da Casa Civil, tem verbete com 228 palavras na Wikipédia, 44 a menos que a lista dos discos de Gilberto Gil, e o ministro dos Esportes tem uma linha só. O que isso significa? Que a política está por baixo nos labirintos da internet e de brasília
Dilma Roussef, da Casa Civil, tem verbete com 228 palavras na Wikipédia, 44 a menos que a lista dos discos de Gilberto Gil, e o ministro dos Esportes tem uma linha só. O que isso significa? Que a política está por baixo nos labirintos da internet e de brasília ILUSTRAÇÃO: SCIENCE FACTION_GETTY IMAGES

No mês em que o presidente Lula anunciava, com rios de tinta na imprensa especializada, sua mais recente reforma ministerial, a Wikipédia, a enciclopédia livre da internet, foi a melhor fonte de informações sobre o que não acontece no ministério do presidente Lula. Esse pendor negativo da Wikipédia pode ser resumido no verbete sobre Nelson Machado, o ministro interino da Previdência Social. O verbete, como o ministro, é dos grandes: tem 571 palavras.

É mais do que o dobro do da ministra Dilma Roussef, chefe da Casa Civil. Tudo o que ela fez na vida pública, da luta-armada ao cargo de manda-chuva no Palácio do Planalto, teve que caber em 228 palavras, 44 a menos do que a lista dos discos gravados pelo ministro da Cultura Gilberto Gil. Publicado ao pé de seu currículo, esse rol de títulos e datas de lançamento ocupa 272 palavras. Nelas caberiam, com folga, os ministros Dilma Roussef e Orlando Silva Júnior, dos Esportes, que se espreme numa linha da enciclopédia.

Uma linhazinha pode até ser muito. A página sobre “Ministros do Brasil” da Wikipédia parecia, no fim da reforma, o panteão do ilustre desconhecido. Nomes como Sérgio Machado Rezende, ministro da Ciência e Tecnologia, Márcio Fortes, ministro das Cidades, Silas Rondeau, ministro de Minas e Energia, Luiz Marinho, ministro do Trabalho, e Paulo Barreto, ministro do Planejamento, remetiam todos ao mesmo aviso: “O artigo ainda não existe”.

E havia quem não existisse duplamente. Altemir Gregolin era citado como ministro da Agricultura e, para valer, como secretário especial de Aqüicultura e Pesca. Aparentemente, faltaram-lhe biógrafos capazes de distinguir Aqüicultura de Agricultura na incubadora de nomeações. Pior para Gregolin, que, acumulando virtualmente as duas pastas, levou em dobro o título de irrelevância ministerial. Ele “ainda não existe” na Aqüicultura e na Agricultura.



Se fosse “nada consta”, ainda valeria alguma coisa em Brasília, onde cada vez o passado trama contra o futuro dos políticos. Mas, como está redigida, serve apenas para destacar o músico Gilberto Gil. O ministro da Cultura não tem nada a esconder. Seu verbete se esparrama por 2 498 palavras, num placar em que o chanceler Celso Amorim não passa de 77. Registra que, com “Realce”, nos anos 70, ele emplacou nas paradas de sucesso, sob os quepes do governo militar, uma canção que soava como “ode ao uso de cocaína”. E não omite que, em 2003, sua escolha para comandar o ministério da Cultura foi saudada por “severas críticas” dos colegas de palco.

O segredo de tão bons antecedentes é passar de fininho pela política. A vida pública de Gil mal cobre, na Wikipédia, cinco linhas e meia. O mesmo critério poderia valer para o ministro Nelson Machado. Ele fez carreira em vários estúdios de São Paulo, como “dublador brasileiro”. Já emprestou a voz, nas telas, a Fred Flintstone, Adolf Hitler, Jerry Lewis, Drácula, Paul McCartney e o Senhor Siriguejo, dono do restaurante da Fenda do Biquíni, no fundo do Pacífico, em Nickelodeon.

Em política, só consta que o pai de Nelson Machado foi vereador em Santos. Filho de dublador com dubladora, afirmou-se no metiê como “um profissional de destaque em sua área”, tornando-se o intérprete oficial do ator mexicano Carlos Villagrán, que só admite falar português através de suas cordas vocais. É autor do livro Versão Brasileira, sobre os bastidores do ofício no reino da dublagem nacional.

Pena que não se possa tomar posse de verbete como se toma de ministério. Na vida real, Nelson Machado continua advogado, ex-fiscal de rendas e veterano de reformas ministeriais no governo Lula. Tudo isso, no sítio oficial do ministério da Previdência, não vale mais de 135 palavras. Machado tem experiência no ramo, pois já tocou o ministério de 2004 a 2005. E, há dois anos, ao encerrar sua primeira interinidade, ouviu o presidente Lula agradecer-lhe “os relevantes serviços prestados ao país”.

O fim da interinidade pode ser um tombo sério no serviço público. Quase mata, logo nas primeiras páginas do romance Dom Casmurro, o Pádua, que foi interino por 22 meses numa repartição do ministério da Guerra. Quando o titular voltou de uma viagem ao Norte, Pádua caiu em depressão. Curado, viveu para sempre embalado no “sabor póstumo das glórias interinas”, segundo Machado de Assis. Sem falar que passou à posteridade como pai de Capitu.

A dispensa de Nelson Machado durou pouco. Ele voltou à interinidade em julho de 2005, quatro meses depois de Lula substituí-lo na Previdência, com uma nota oficial em que a secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto, invocando a Constituição, declarava “a competência privativa do presidente da República”, quando se trata de nomear ministros. Do alto de sua competência exclusiva, Lula pôs em seu lugar o senador Romero Jucá que, infelizmente, usando de outra competência também exclusiva, o Tribunal de Contas da União investigava “por ação criminosa e fraudulenta”. Machado reassumiu o ministério, dizendo no discurso (isso mesmo: posse de interino inclui discurso) “ter em mente que nós estamos olhando e atuando num governo que é temporário, e no Estado, que é permanente”.

Nelson Machado ficou tanto na interinidade, que a Wikipédia não reconheceu que o dublador e o interino, embora homônimos, são pessoas diferentes. Erro essencial? Nem tanto. A Wikipédia, como o governo Lula, existe para provar que administrações anárquicas podem ser mais eficientes do que as rigidamente hierárquicas. E, na internet, deu certo. Essa enciclopédia sai de uma oficina eletrônica que gerou, em seis anos, 5,3 milhões de verbetes, escritos em 280 línguas e dialetos pelo trabalho voluntário de 280 mil colaboradores, todos trabalhando anonimamente, sem salário e direitos autorais.

A fórmula brotou há seis anos na cabeça de Jimmy Wales, um ex-corretor de Wall Street que, depois de enriquecer, tornou-se um campeão da prodigalidade on line, confiando o invento a uma fundação sem fins lucrativos. À sua volta, mutiplicam-se negócios bilionários, quase todos com o prefixo “Wiki” que, em dialeto havaiano, quer dizer “rápido”.

O segredo da Wikipédia é que qualquer pessoa pode melhorá-la. Ou corrigi-la, se um gaiato resolver piorá-la. Em suma, atualizá-la permanentemente, com acréscimos e retoques instantâneos. Um belo dia, meses atrás, o verbete “Maomé” levava a uma hilariante paródia do Islamismo. Sumiu sem deixar traços, em poucas horas. Em 2005, quando a socialista Michelle Bachelet venceu as eleições no Chile, sua biografia de presidente chegou à enciclopédia antes que aparecesse nos jornais do dia seguinte.

Mas, para que a pressa seja amiga da perfeição na Wikipédia, é preciso haver, no mundo, pelo menos uma pessoa interessada em cada assunto que ela contém. Senão, o verbete seca no ar, deixando o dublador Nelson Machado pendurado na vaga do ministro Nelson Machado. O que não deixa de ser uma informação politicamente correta e esclarecedora, tendo em vista que a importância do ministério, feitas as contas, é nenhuma.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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