cartas

Um rapaz que atraía muitas mulheres

ALCKMIN

O excelente texto de Julia Duailibi (“O paulista Ge-ral-do”, piauí_99, dezembro) revela, aqui e ali, bem mais do que meros acasos na trajetória do atual governador do maior estado da federação. Não sou partidário do PSDB, mas Geraldo Alckmin tem potencial para disputar as eleições de 2018 como oponente de respeito ao governo federal.

WASHINGTON FAZOLATO BARBOSA_DUQUE DE CAXIAS/RJ

 

É muito interessante que o estado que produz 33% do Produto Interno Bruto do país concentra as melhores universidades, os melhores hospitais, os melhores índices de eficiência técnica, os menores índices de homicídio etc., tenha um governador que, conduzido ao cargo pela terceira vez (só perdeu em um único município, Hortolândia), seja “medíocre”. O título da reportagem deveria ser “O grande mágico”. Ou somos todos estúpidos, e também medíocres, ou a reportagem é que o é.

MOACYR GERALDO GABRIELLI_SÃO PAULO/SP

PSI

Foi uma surpresa para mim ler na primeira edição como assinante da piauí um texto que traz vivências que costumo ouvir de meus pacientes (“Velocidade máxima”, piauí_99, dezembro). A experiência de um transtorno mental crônico como o transtorno bipolar do humor é singular: uma trajetória de episódios cíclicos de fases depressivas e maníacas/hipomaníacas, períodos de estabilidade, remissão e recidivas, em que a regra é a necessidade de suporte psicossocial para se reconfigurar um “novo andar da vida”.

Certamente é um texto que encoraja pacientes e as equipes psi em relação ao papel terapêutico das narrativas de vida e suas contribuições à promoção do cuidado de si. Tenho incentivado pacientes psicóticos (com outros transtornos além dos afetivos, inclusive) a produzirem suas histórias de vida. Textos como o de Helena Gayer possibilitam debates menos fadados ao ditame de “especialistas”, abrem passagens à escuta e à construção de projetos terapêuticos compartilhados, dão visibilidade aos avanços e desafios da reforma psiquiátrica brasileira, além de reduzirem o estigma ou a banalização de diagnósticos no campo da saúde mental.

FABRÍCIO DONIZETE DA COSTA_CAMPINAS/SP

MATEMÁTICO

Na edição do mês passado publicamos uma linda fotografia do matemático Alexander Grothendieck quando jovem. Como fora tirada por Paulo Ribenboim, matemático brasileiro radicado no Canadá, escrevemos para o autor perguntando se seria possível publicá-la. Passaram-se uns dias e recebemos uma carta manuscrita, que reproduzimos abaixo. (A fotografia nos foi cedida gratuitamente.)

Desculpe, escrevo à mão, na frente de um aparelho eletrônico, com o qual posso ler. Eu me tornei “legalmente cego” e não posso usar computador. Vale a pena contar a história da foto do matemático Alexander Grothendieck (“A voz das coisas”, piauí_99, dezembro). A partir de junho de 1950, quando fomos apresentados pelo professor Laurent Schwartz, eu e Grothendieck nos tornamos amigos imediatamente. Eu era o melhor amigo dele – na verdade o único – e, reciprocamente, ele era o meu melhor amigo, mas não o único.

Um dia, em junho de 1951, resolvemos fazer um passeio de Nancy à cidadezinha de Pont-à-Mousson, a uns 25 quilômetros de distância. Ele usou a própria bicicleta, que era de boa qualidade, e tinha pernas fortes. Eu tomei emprestada a bicicleta do porteiro do Instituto de Matemática, veterano da guerra de 1939–45, que foi ferido. A bicicleta era a pior possível, muito pesada e enferrujada… Minhas pernas finas não estavam à altura das dele. Nas ladeiras ele me deixava para trás, e quando eu chegava me olhava com um ar glorioso.

Depois da cervejinha, ele me deixou tirar a foto, usando minha máquina Agfa. Coisa que ninguém conseguia. Veja o ar de satisfação que tem. Nós somos da mesma idade, eu com duas semanas a mais. Nesta foto, é um rapaz que atraía muitas mulheres, que [por sua vez] recebiam a [atenção] desejada.

Com os anos, tendo se tornado um matemático de grande renome, a aparência mudou totalmente. Sem cabelo, com um aspecto que dificultava a abordagem, as poucas fotos que foram tiradas às escondidas são tão diferentes. Moral: todos os velhos foram jovens.

PAULO RIBENBOIM_KINGSTON/CANADÁ

TEVÊ

Obrigado à revista por trazer a história de Dony De Nuccio (Esquina, “Honra ao mérito”, piauí_99, dezembro). Todas as noites, quando ia tomar a minha dose de pessimismo do dia, via aquele corpanzil e corte de cabelo na tevê e pensava de onde brotara tamanho ego. É justo que um cara com planos e foco receba todo o mérito. Um líder. A piauí sempre me aproximando das pessoas notórias deste Brasil. #estouna100 #porfavoreditor.

RUANDRO KNAPIK_QUATRO BARRAS/PR

POLARIZAÇÃO

Como um dos 164 professores de economia que assinaram o manifesto contra a política econômica do governo Dilma, naturalmente tenho opiniões bem definidas sobre o triste assunto. Ainda assim, acho importante ouvir e saber o que pensam os “intelectuais” (não meros cientistas ou tecnocratas) brasileiros. Porém, lendo “A polarização voltou”, de Marcos Nobre (piauí_98, novembro), confesso que fiquei decepcionado: por exemplo, o que ele quis dizer com “a gestão Dilma foi de um economicismo cândido”? Que eu saiba, a filosofia alemã e a obra de Voltaire nunca foram grandes chaves para entender a economia. Além disso, há imprecisões desconfortáveis (ou tendenciosas) para alguém que fala com tanta certeza sobre tantas coisas: “No governo Lula, houve crescimento sem concentração de renda…”

EDUARDO CORREIA_SÃO PAULO/SP

 

AMAMENTAÇÃO

Chego um pouco tarde para comentar a história pessoal da Margarita García Robayo (“Leite”, piauí_98, novembro). Só me deparei com ela hoje (era o último exemplar na banca; parece que se esqueceram de recolher). Foi o título de capa “Leite de mãe”, e não “O declínio dos Sarney”, que despertou minha atenção, e vou explicar o porquê.

A três dias de um curso de amamentação, lendo vorazmente Donald Winnicott, um pediatra e psicanalista inglês que elaborou teorias e hipóteses sobre o ato “natural” do amamentar, fiquei encucada: o que a piauí pode dizer sobre isso? Não estou grávida, nunca amamentei, mas o tema me fascina. As angústias e revoltas expressas pela Margarita me mostraram uma faceta que deve ser descortinada, compreendida e respeitada por muitos outros, atuais e futuros profissionais de saúde, como eu. As discussões levantadas por ela deveriam chegar a todos os envolvidos profissionalmente com o ato de amamentar. Uma narrativa para discutir entre os meus pares da nutrição.

FERNANDA PARANHOS QUINTA_SÃO PAULO/SP

 

TEATRO

O ensaio de Michel Laub (“O radical”, piauí_98, novembro) disseca as agruras do jovem diretor de teatro Roberto Alvim para a encenação de Terra de Ninguém, do dramaturgo inglês Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005. Por ter acompanhado toda a preparação do elenco para a interpretação do texto, e marcado presença constante nos ensaios, Laub pôde compartilhar com o leitor o real significado de uma direção teatral, em detalhes que a maioria de nós, leigos, ignorava totalmente. Principalmente quando se trata de um diretor perfeccionista, que submete o elenco a um profundo mergulho no texto, para tentar extrair o máximo de fidelidade ao que pretendeu o autor da peça.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

 

AVIAÇÃO

Só a piauí, com uma pauta tão rica e diversificada, para nos brindar com um texto tão interessante como “O voo 447” (piauí_98, novembro). Fica claro que houve despreparo dos pilotos em lidar com a situação; além disso, o ensaio discute a crescente automação na aviação comercial. O fato é que a publicação revisita fatos recentes do nosso tempo com competência, proporcionando análise e reflexão.

ERIVAN AUGUSTO SANTANA_TEIXEIRA DE FREITAS/BA

SARNEY

A edição de novembro veio com matérias ótimas. No entanto, cabe realçar o excelente trabalho da Malu Delgado, que, de forma direta e sem tons sobrecarregados, nos mostra como a “dinastia Sarney” fez, faz e fará mal ao paupérrimo estado do Maranhão (“Maranhão 2014”, piauí_98, novembro). Todos os nichos do poder são ocupados e manipulados, a bel-prazer, pelos membros do clã.

A missão do novo governador, Flávio Dino, será espinhosa, pois os “Sarney boys” devem ter deixado muitíssimas armadilhas e bombas de efeito retardado. Certamente lhe farão oposição tenaz e consistente. Não me espantaria se o sr. Luiz Inácio Lula da Silva se integrasse ao clã, participando de atos e comícios, ao lado do seu grande amigo, José Sarney, a quem já se referiu como alguém que “não pode ser tratado como um homem comum”. Aliás, concordo com o sr. Luiz Inácio. Afinal, quem implanta a chamada política de terra arrasada, como o senador do Amapá fez em seu estado de origem, não é, de forma alguma, um homem comum.

ANTONIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA

 

DILMA NO PODER

Estou com uma dúvida: Lula comete a petulância de criticar a presidenta, a revista publica (“A afilhada rebelde”, piauí_97, outubro), e ele e o empresário Marco Tronchetti Provera insistem em negar. São ingênuos ou prepotentes?

DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP

ESQUINA

Outro dia estava navegando pelos meandros da internet e descobri um jornal dos anos 80, desses que surgiram na época da abertura política, de cunho alternativo, chamado Lampião da Esquina. Num site havia a reprodução de todas as edições lançadas. Vi que havia uma seção chamada “Esquina”, e fiquei em dúvida se vocês se inspiraram nela pra dar o mesmo nome à seção da revista. Saber que Millôr Fernandes ajudou na criação da piauí reforçou essa minha dúvida, porque ele participou ativamente da imprensa alternativa nos tempos ditatoriais.

JOÃO PEDRO PINTO REZENDE_BELO HORIZONTE/MG

NOTA DA REDAÇÃO: Ninguém acreditará, mas acabamos de ser informados disso. Aproveitamos para esclarecer que, infelizmente, Millôr Fernandes não participou da criação da piauí. A culpa é toda nossa mesmo.

Dada a recente celeuma na seção Cartas, queria dizer que de certa forma concordo com o “missivista inflamado”. O jornalismo da piauí é bastante bom, e por isso a parte mais nobre da revista é sua primeira metade, onde se encontra o “jornalismo” propriamente dito. Daí pra frente, sinto dizer, as coisas caem um pouco. É onde começam a literatura, os ensaios político-sociais que não fazem o mínimo sentido, as tiradas de humor raso, os quadrinhos (quase crucificaram o Wolinski, meu Deus, por uma sacanagenzinha superinocente), os maus poemas.

Na minha humilde opinião, as opções são duas: vamos olhar com mais carinho para o orçamento dos repórteres e dar-lhes mais espaço, ou vamos exigir aquele esforço extra dos homens de criação (ou mulheres, já posso até ver os olhos incriminadores).

FERNANDO DA COSTA TREVISAN_FRANCO DA ROCHA/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Estava indo tudo tão bem, leitores afáveis, ninguém inflamado…

 

METACARTAS

Na leitura da seção Cartas da piauí, sempre me pareceu que seus leitores oscilam entre o pedantismo, o humor e a inteligência, ou seja, tudo aquilo que define a publicação bancada pelos caraminguás do sr. Salles (ó, alma boníssima). E lá vou eu, depois de anos como assinante, resolver participar dessa sopa de letrinhas. Alguns dizem começar a leitura por aqui. Problemáticos. Trata-se do espaço no qual a revista é mais pedante, sempre querendo parecer mais inteligente do que seus leitores, que acreditam mesmo que possuem um parafuso a mais.

No número 99 (dezembro), a seção veio com um leitor sugerindo como comemorar a edição 100. Sui generis, sugeriu um quiz ou um concurso de “fotos criativas”. Medo. Como poderia a revista que revelou a romancista/cronista Fernanda Torres se limitar a isso? Não aguentei. Era preciso levantar barricadas contra as opções singelas. Lembrei imediatamente de uma boutade: “Datas redondas costumam ter comemorações quadradas.”

Se a excelência da piauí está nos textos, vamos testar o parafuso a mais dos seus leitores convidando-os para escrever um ensaio sobre a publicação. Como regra fundamental, só haverá vencedor se algum texto fizer jus ao que de melhor já foi publicado. E não vale nos empurrar um vencedor meia-boca goela abaixo em páginas menos nobres. Isso porque me lembro de certo concurso promovido por essa revista.

Ah, só uma coisinha. Não precisam responder inteligentemente. Desde que descobri que o Manhattan Connection era um programa de homens inteligentes, desisti da inteligência (mas me digam aí: ficou mais pro pedantismo ou o quê?).

HERBERTH LIMA DOS SANTOS_NATAL/RN

NOTA DA REDAÇÃO: É como dizíamos… Agora só falta alguém reclamar do tamanho das reportagens.

 

Declino da sugestão da Redação e não ousarei fazer cartuns (Cartaspiauí_98, novembro). Vou me restringir ao texto corrido. A edição de novembro me fez resgatar uma crônica de Fernanda Torres de agosto de 2012, publicada na Folha de S.Paulo, que tinha como título o nome desta revista, e foi a responsável por eu ter imergido, e quase me afogado, em suas páginas mensais. O artigo de fôlego “Maranhão 2014” parece completar a trilogia do cone norte do Nordeste brasileiro, formado por esse estado da cultura do bigode e pelo Ceará, este sugerido como o nome da revista de sustentação de piauí (o terceiro estado), segundo o relato de Fernanda Torres naquela crônica.

Verossimilhança? Coincidência? Não sei, mas o texto de Malu Delgado de sete páginas, soçobrando-me, leva a essa conclusão. E aproveito para um pequeno questionamento sobre a extensão. Se medido em páginas, o artigo de William Langewiesche (“O voo 447”) ficou mais longo que o próprio voo, ao contrário de “A polarização voltou”, de Marcos Nobre, minúsculo perto do seu conteúdo dicotômico.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

NOTA DA REDAÇÃO: Q.E.D. (Pedante, Herberth?)

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