esquina

Um teto todo seu

Conquistas de uma blogueira

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL

Luxo para Nathaly Dias é uma pia de cozinha de inox e um box de banheiro de vidro temperado. A jovem baixinha de 26 anos, cabelos castanhos cacheados e roupas simples registra com orgulho os detalhes de seu lar para os seguidores nas redes sociais. “Olá, gente, está começando mais um episódio do minimalismo baixa renda e vou mostrar como ficou minha casa depois dessa transformação minimalista”, diz ela, lançando um sorriso largo para a câmera operada pelo marido Guilherme Brainer, de 30 anos, enquanto faz um tour pelo apartamento de 50 metros quadrados.

Os registros do cotidiano na casa no alto do Morro do Banco, uma favela no bairro do Itanhangá, no Rio de Janeiro, vão para o canal no YouTube e o perfil no Instagram, ambos intitulados Blogueira de Baixa Renda. Filha de uma empregada doméstica paraibana, Dias decidiu ser uma voz da parcela dos brasileiros que não usufrui do que as blogueiras de alta renda costumam ostentar nas redes sociais: apartamentos luxuosos, closets abarrotados e almoços em restaurantes chiques. O governo federal (decreto nº 6 135, de 26 de junho de 2007) define como “de baixa renda” a família cujos ganhos mensais são de até três salários mínimos.

Nos últimos anos, difundiu-se entre alguns influencers na internet a ideia de minimalismo aplicado ao consumo: reduzir as compras de bens materiais e, por exemplo, usar o dinheiro que sobra com viagens e a melhoria da qualidade de vida. “Eu ficava encucada que a maioria dessas pessoas que fala de minimalismo é gente rica, que já teve a possibilidade de ter muita coisa na vida e agora fica pregando que a felicidade é viver com pouco”, afirmou Dias. “A gente que é pobre quer ter a oportunidade de ter tudo o que nunca teve. O minimalismo que eu prego é correr atrás daquilo que você deseja, mas sem se endividar; e, caso não consiga, sem se sentir diminuído.”

No vídeo em que mostra as pequenas reformas que fez no seu apartamento, a blogueira aconselha a ter paciência: “Não dá para achar que vai logo de cara ter uma casa mobiliada. A gente é baixa renda, conquista as coisas aos poucos. Não vai se endividar para encher a casa de móveis.”

Uma vida de perrengues financeiros é algo que ela conhece bem. Quando criança, morou com a mãe, o pai e o irmão mais novo em barracos nas favelas da Cidade de Deus e do Piraquê. Era comum ser despertada durante a noite pelo barulho dos ratos no telhado ou pelas agressões do pai contra a mãe. Aos 8 anos, convenceu a mãe a largar o marido e se mudar com os filhos. Foram morar no Morro do Banco, onde tinham parentes, e viveram quase dez anos num casebre alugado de 10 metros quadrados. O banheiro e a pia para lavar louça eram compartilhados com meia dúzia de famílias.

Quando chegou à maioridade, Dias arrumou um emprego numa loja de sapatos e também começou a vender brigadeiro em feiras e bolo na porta da Universidade Estácio de Sá, onde cursa administração. “Sempre dei duro. Nunca gostei de ser empregada dos outros, de trabalhar pelo sonho dos outros”, disse.

Em 2014, ela conheceu Guilherme Brainer, que se tornou seu parceiro nos pequenos negócios e se mudou para a casa dela. A mãe resolveu estimular o casal a buscar um cantinho só deles. Dias e o namorado foram atrás de uma casa nova e de trabalhos que lhes dessem um pouco mais de segurança financeira. Ela conseguiu um estágio na área de administração; ele foi trabalhar como motorista da Uber.

 

Em março de 2018, com um celular ultrapassado, Nathaly Dias passou a publicar no Instagram vídeos e fotos do seu dia a dia na casa nova: a decoração com quadrinhos de frases motivacionais nas paredes, o fogão, a geladeira e a máquina de lavar emprestados de parentes, lavando louça e preparando o almoço. Chamou a atenção dos usuários das redes sociais por causa do seu jeito despojado e do bom humor com que se deixava filmar e fotografar com o look de fazer faxina, troçava da gritaria dos vizinhos na favela e dava dicas sobre decoração e cuidados gerais. Estimulada pelo sucesso, decidiu comprar um celular novo.

As stories no Instagram começaram a ser compartilhadas mais e mais e as fotos a ganhar numerosos likes. Com o sucesso, ela assumiu nas redes sociais a alcunha Blogueira de Baixa Renda. Acabou chamando a atenção da empresária Bia Granja, criadora da Youpix, uma aceleradora de negócios na internet, que convidou Dias para fazer uma palestra num evento em São Paulo. Uma representante de um banco gostou do discurso e do jeito da blogueira e ofereceu um contrato publicitário de três meses para ela discorrer sobre as vantagens de uma conta digital para a classe C. A remuneração era equivalente a um ano de seu salário de estagiária. Alguns meses depois, o mesmo banco voltou a procurá-la e propôs um pagamento cinco vezes maior para que ela produzisse novos conteúdos nas suas redes, durante um ano.

Além do contrato com o banco, que não divulga o valor acertado, Dias passou a acumular rendimentos com os vídeos publicados no YouTube. Não valia mais a pena continuar no estágio de administração – ela resolveu se dedicar aos negócios na internet. Comprou equipamentos de vídeo e um bom computador e também iniciou uma reforma no seu apartamento. “Virei uma empresa, tenho até CNPJ. Venho ganhando mimos de lojas de decoração”, ela disse, orgulhosa.

Em um ano, Dias saltou de 2 mil seguidores no Instagram para 34 mil. O canal no YouTube, que começou há seis meses com cinquenta assinantes, agora tem 54 mil. Os vídeos são filmados por Brainer e editados por ela. Segundo a blogueira, a maioria dos seguidores são mulheres pobres que se identificam com a trajetória dela.

Dias contou que, às vezes, deita na cama e fica contemplando o guarda-roupa planejado de cor branca, que ocupa toda uma parede do quarto. Nesses momentos, sempre vem à sua mente a lembrança da casa da infância e das caixas de papelão que eram os únicos lugares que a família dispunha para guardar os pertences. Outro dia, ela deitou e adormeceu. No sonho, estava de volta ao antigo barraco, os ratos corriam no teto, não havia nenhuma pia para lavar a louça e o pai gritava sem parar com a mãe. “Acordei nervosa e assustada: e se não der certo essa minha vida de blogueira?”, ela se perguntou. “Mas, então, olhei minha casinha, toda bonitinha, e pensei: tudo vai dar certo.” E foi se acalmando pouco a pouco.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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