diário

Um trabalho de pontos, vírgulas e interrogações

A rotina de uma escritora que escreve de tudo por encomenda e tem clientes até na USP

Maria Lopes
Dormia lendo Philip Kotler, o papa do marketing, e acordava para atacar Freud. Almoçava devorando Sócrates e nem acreditava quando me traziam <i>Como Se Faz Uma Tese</i>, do Umberto Eco
Dormia lendo Philip Kotler, o papa do marketing, e acordava para atacar Freud. Almoçava devorando Sócrates e nem acreditava quando me traziam Como Se Faz Uma Tese, do Umberto Eco FOTO: HULTON ARCHIVE_GETTY IMAGES

No começo da carreira, Maria Lopes, paulistana formada em taquigrafia, dizia que seu trabalho consistia apenas em digitar textos, e fazer cartões de visita, em computadores 386. Aos poucos, acrescentou a elaboração de convites, currículos, etiquetas, folhetos, impressões, design de imagens, estampagem em camisetas, transcrições de fitas K-7, apresentações em slides, scanners de fotos, instalação de programas, revisões ortográficas e gramaticais, elaboração de resumos de textos e de livros e traduções. Mais adiante, seu folheto de divulgação foi incrementado com o oferecimento de resenhas de livros, revisão de textos acadêmicos conforme a Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT, ou elaboração total de monografias inéditas, artigos, ou TCC (trabalho de conclusão de curso) de qualquer área.

Ela pode até ouvir a voz dos puristas dizendo: Ih, que horror de trabalho! “Entre eles”, acrescenta hoje essa paulista de 53 anos, com dois filhos, “estão muitos dos que levam para casa canetas da empresa e, disfarçadamente, comem umas uvinhas no supermercado. Para todos, digo que entendo meu trabalho como o de uma cozinheira, que recebe encomendas de doces e salgados: entrego o bolo, o cliente paga, leva e, a partir daí, faz o que bem entende com o produto. Pode jogar tudo fora, ou só a cobertura. Pode usar a base e colocar um creme novo e cerejas. Ou pode dizer que foi ele quem fez e promover a maior festança.”

Para resguardar a identidade dos clientes, Maria Lopes disfarçou as características deles no seu diário. Os acontecimentos, no entanto, ocorreram conforme o relatado. Para os títulos, escolheu nomes similares aos de alguns trabalhos que fez em épocas anteriores.

SEXTA-FEIRA, 2 DE MARÇO
Parece que este mês não será diferente dos outros. Tenho agendados quatro trabalhos com prazos curtos e dois com prazos mais longos. Depois de tomar café e estender a roupa, é melhor começar pela resenha, já que é um livro tão fino quanto Quem mexeu no meu queijo e não parece tão complicado quanto Estrutura e função da linguagem, da maior autoridade em lingüística gramatical sistêmica, o britânico Michael Halliday. Com certeza é menos medonho do que Introdução à Visão Holística, que queria que eu “vibrasse com o Universo”. Era só desenvolver o hemisfério direito do cérebro, e penetrar no meu eu profundo, para virar Deus.

SÁBADO, 3
Passei a madrugada lendo e consegui acabar a digitação da resenha de manhãzinha. Como o aluno vem buscá-la daqui a pouco, vou aproveitar o dia para limpar a casa, lavar e passar a roupa acumulada, dar uma chegada no mercado e comprar a tinta da impressora na papelaria, para imprimir os convites de casamento da vizinha. Ela ficou de me trazer os convites em branco assim que os comprar, na praça da Sé. A vida está tão difícil que o jeito é economizar de tudo quanto é jeito.

Onze da noite, chegou a hora de comer alguma coisa enquanto leio Dibs, em busca de si mesmo, ótimo trabalho da psicóloga Virgínia M. Axiline. Depois, ficarei no computador por um bom tempo e começarei revisão de um TCC de marketing. Devo entregá-lo daqui a oito dias. Sempre fico ansiosa com os prazos. É difícil descobrir se vou conseguir terminar a tempo, já que tudo depende do assunto. Além disso, preciso estar sempre contornando problemas de formatação, principalmente quando há desenhos e tabelas. Isso toma tempo. Mas nunca entreguei nada fora do prazo. Vejo isso como ponto de honra, assim como mostrar um trabalho caprichado, coerente e com o menor número de erros. Dentro do possível.

A revisão está demorando. Preciso tomar cuidado com a gramática e o ritmo (é haja vista ou haja visto? Ponho ponto e vírgula ou começo um parágrafo novo?). A formatação foi fácil: só precisei seguir o manual da faculdade e as normas da ABNT. Já o assunto do trabalho é muito chato, como é chata toda a área de administração e marketing. O título: As características do profissional de marketing do século XXI. Preferia mil vezes que fosse de direito, psicologia ou pedagogia, minhas matérias preferidas. Adorei quando tive que revisar Crime, prisão e penas. Ficou um trabalho de dar gosto.

São duas da manhã. Decido fazer uma pausa para ler Descobrindo crianças: a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes, da psicanalista Violet Oaklander, para fazer a outra resenha agendada. Depois, é passar o resto da madrugada folheando revistas da minha imensa pilha, em busca de artigos sobre responsabilidade social e terceirização — assuntos incompatíveis, por sinal.

Para quem não sabe como se dá a atividade de “folheador” – verbete que deveria constar do dicionário Aurélio, mas ele morreu antes de poder fazê-lo -, eu explico: trata-se de sentar no chão da sala, retirar do armário uma revista da primeira pilha de 2006, olhar o índice em busca da palavra-chave, encontrar a reportagem ou artigo, ler e separar o dito cujo em pilhas bem equilibradas classificadas como “vai servir” e “irrelevante ou sem conteúdo”. Após alguns dias, o folheador obterá bons textos, de autores conceituados, para serem citados nos trabalhos acadêmicos. Senão, terá que apelar para um arquivo de recortes de jornais previamente numerados, e precedidos de uma folha com índice analítico. E atenção: procure não comprar as três revistas semanais tops, porque não irão ajudar grande coisa. A não ser que você queira falar de marketing e moda.

DOMINGO, 4
Ah, não! Acabo de olhar os meus e-mails e meu gerente de negócios pediu que interrompesse o que estou fazendo, para dar uma força a uma cliente desesperada: ela vai ter que pagar um semestre inteiro se não aprovarem a monografia que ela já fez. Como ela não tem muitas condições financeiras, não vou receber o valor de costume. E o pior: tenho sete dias para dar um jeito nas cinqüenta folhas! Fazer o quê? Tenho por pressuposto que preciso ganhar dinheiro, mas acima de tudo devo ajudar: a) cliente que trabalha fora, estuda à noite e tem família (o preço deve ser menor); e b) se, além disso, é mãe e tem jornada dupla (baixo mais um pouco). No caso de ser categoria c) gente que não trabalha, é jovem, solteiro e estuda na PUC, Mackenzie, Santa Marcelina ou faculdade bizarramente cara, eu cobro o dobro. Meu lema é “tire dos ricos para dar aos pobres”, e com isso consigo “democratizar” meu trabalho. Na verdade, o que faço é um luxo para poucos.

QUARTA-FEIRA, 7
Adorei fazer a revisão. Era um trabalho sobre dislexia em crianças do ensino fundamental. Precisei usar muita criatividade. O texto estava confuso, mas não tinha nada copiado da internet, como é comum. Sempre procuro checar isso. Infelizmente, era tamanha a falta de fontes e, além disso, copiadas sem nexo, que não deu para aproveitar uma boa parte. Cadê o professor de metodologia dessa faculdade?

Ao final, precisei inserir dezoito folhas novas no lugar do material deletado. Para tanto, peguei meus livros e textos sobre o assunto – tenho caixas e caixas de livros que ganhei, peguei no lixo ou comprei numa entidade beneficente -, e elaborei tópicos condizentes, sem deixar de considerar a linha de pensamento e a forma do cliente se expressar. Na conclusão, e no resumo de 250 palavras, não resisti e dei meu toque final no estilo “educação para todos”. Em seguida, pedi a minha filha para corrigir meu Abstract, o resumo transcrito para o inglês. Tenho lá minhas fragilidades e, nesse caso, peço ajuda, ou então digo ao cliente, com antecedência, que o negócio está acima das minhas forças.

Faço esse tipo de elaboração de trabalho inédito há anos, desde o dia em que descobri que os resumos de livros, pedidos por um mesmo aluno, passo a passo tomavam a aparência de uma monografia de conclusão de curso. Ficou óbvio porque, logo a seguir, ele veio me pedir um paralelo comparativo entre os resumos. Então vi que era melhor assumir de vez meu lado ghost writer.

Daí a fazer uma monografia inteira, recebendo apenas o tema do cliente, foi um passo. Comecei a escrever sobre qualquer coisa, de acordo com a demanda do “mercado”. Dormia lendo Philip Kotler, o papa do marketing, e acordava para atacar Freud, almoçava devorando Sócrates e nem acreditava quando me traziam Como se faz uma tese, do Umberto Eco. Esse livro foi tão gostoso de ler que disse à cliente que eu é que deveria estar pagando! Acabei ganhando o livro de presente e o passei para outro cliente que estava precisando. Sempre empresto meus livros, sem custo e de bom grado, para quem precisa… mas foi assim que perdi todos os meus Serpa Lopes! Você, você mesmo que me lê, vê se me devolve, seu ladrão. E, se está com medo de passar carão, então entrega na biblioteca mais próxima como doação, senão invocarei contra você todas as maldições que estão no Tristram Shandy, do Sterne, ouviu?

Dessa forma, descobri minha vocação. Vivo feliz trabalhando com o que mais gosto, livros, e até consegui realizar um de meus sonhos: arrumar uma biblioteca. Me senti a própria Guilherme de Baskerville, de O Nome da Rosa, de saias, ainda mais que foi para uma instituição de religiosos franciscanos.

QUINTA-FEIRA, 8
Hoje a previsão é de outra noite sem dormir, para entregar o trabalho de marketing do dia 10. Assim que terminar, começarei a revisão da monografia, cujo tema se mostra tão ruim quanto o conteúdo: “Peles de castor e o luxo chegando à classe média”. E – Santa Mãe! -, é de uma faculdade de alto conceito. Onde é que anda o orientador?

Já vi muito trabalho horroroso exposto na internet como se fosse uma obra de arte com os nomes e e-mails, do aluno e do orientador, bem destacados! Para não envergonhar os orientadores dos meus clientes, procuro sempre checar fontes e informações, além de substituir os dados obsoletos, como aconteceu com o parágrafo que passei quatro horas revisando hoje. Procurei descartar e substituir todas as porcentagens e números do PIB nominal, per capita e dados econômicos brasileiros de 2003, e ainda precisei descobrir qual a posição do Brasil no ranking de produção de farelo de soja (2º) e se o embargante apelar, o embargado pode recorrer adesivamente (não).

Pelo que sei, os trabalhos acadêmicos deveriam ter alguma utilidade, pelo menos para o aluno aplicar em sua vida. Eu mesma procuro usar boa parte do que aprendi. Só que às vezes enlouqueço todo mundo à minha volta. Enquanto estou fazendo o jantar, não deixo de explicar para o meu marido que ele precisa comprar um detergente mais eficiente porque, “depois de duas horas, o local, mesmo quando higienizado corretamente, já estará contaminado”. Falo também que nunca se deve comer no McDonald’s, sob pena de sofrer toda uma lista de doenças coronárias e circulatórias, que aprendi após um trabalho de nutrição e outro de gastronomia, ou que passará anos com distúrbios digestivos e neurológicos, conforme dados que utilizei em trabalhos de fisioterapia e psicologia. Depois de tudo, terminará fulminado por um enfarto.

SEXTA-FEIRA, 9
Continuo firme no trabalho de revisão com prazo para amanhã. Mas não resisti e dei uma olhadinha no trabalho das peles de castor. É de passar mal. Igual a esse, só aquele onde tive de provar, com sólidos fundamentos, que vender sanduíche de tofu e suco de hortelã em frente aos estádios de futebol era um empreendimento viável e altamente lucrativo. Pelo que fiquei sabendo, por meio de meu gerente de negócios, consegui o intento “com denodo”. Mas só à custa de enfileirar muitos silogismos e falácias. O interessante é que, nas áreas de administração e marketing, isso se consegue com facilidade. Depois de 1980, só uma coisa mudou: os livros da área mostram mais fotos e gráficos com design aprimorado.

A propósito: justamente por causa da mania de ressaltar teorias e práticas estrangeiras, além de apelidar certos indivíduos de CEO e CIO, é que chamo meu amigo contratador de trabalhos pelo sonoro nome de gerente de negócios. Soa mais elegante.

SÁBADO, 10
Que sufoco! Só de manhã terminei o trabalho de revisão, enviei pelo e-mail e envelopei o disquete do digitado/revisado junto com o manual da faculdade do cliente. Agora é só deixar no drive-thru, o beiral coberto do meu murinho, para o meu gerente vir buscar e receber os 50% que o cliente ficou de pagar. Normalmente, o preço dos meus trabalhos varia de R$ 150,00 a R$ 600,00. E pago 10% pro coitado do meu amigo fazer todos os contatos e cobranças. Acho pouco pelo serviço dele, pois sei que, sem sua intervenção, eu jamais teria coragem de cobrar uma parte antecipada, ou pedir um valor melhor. Nos onze anos em que trabalho nisso, levei muito calote quando negociava pessoalmente. Por isso, cheguei à conclusão de que consigo arrumar mais trabalhos, e bem melhores, invocando a habilidade, o tino empresarial e a competência do meu gerente.

Preciso ir: lembrei de que preciso esfregar o tênis de vôlei da minha filha que deixei de molho, antes que apodreça.

DOMINGO, 11
Depois de acordar, pouco antes da meia-noite, nada como começar o dia encontrando, entre os e-mails, um agradecimento do cliente atendido em dezembro. O texto foi repassado pelo meu gerente, sem identificação. Só fico sabendo os nomes e a faculdade dos clientes, mas não onde moram, telefones e e-mails. Nem eles sabem de mim. O que é bom. Da última vez, fiquei mais de uma hora pendurada no telefone procurando explicar à aluna o que a Ana Mae queria dizer sobre arte-educação.

Também já cheguei a passar horas explicando pessoalmente por que escrevi que a comunicação tem ruídos, por que o alcoolismo é considerado uma doença, e certas minúcias do direito processual brasileiro – apesar de preferir falar da nossa Constituição, tão bonita e não cumprida -, para clientes angustiados por não terem entendido nada em aula, ou porque eram pessoas sem base educacional, mas que queriam saber os porquês das coisas.

Entre esses últimos, encontrei muitos que enriqueceram meus conhecimentos, e acabei descobrindo, com o tempo, que a sabedoria não é privilégio de quem tem estudo, e que não é preciso um diploma para ensinar com propriedade. Por meio dos mais pobres e semi-analfabetos que me pediram para digitar um currículo ou um “papel legal” (rascunho de contrato de locação ou posse), é que vim a receber grandes lições de vida, honestidade e reconhecimento. Por exemplo, num dos casos em que procurei cobrar R$ 1,00 o currículo (dar de graça é humilhação e R$ 5,00 é para quem pode), ouvi atônita que meu trabalho merecia R$ 7,00 porque tinha sido feito com paciência e capricho. Era tudo o que ele tinha, “senão daria mais”. Isso porque, quando me pedem para fazer currículos, sempre ouço o cliente, e então escrevo no papel o que ele faz de melhor, para favorecer suas chances de emprego. Já o cliente mais rico que tive, com emprego bom, e cujo pai é dono de um negócio de alto luxo, pechinchou por dias e dias. Depois foi um custo para receber. E nunca agradeceu. Com certeza hoje está posando de bacana pela ótima monografia que traz seu nome em destaque.

SEGUNDA-FEIRA, 12
Depois de temperar o peixe, penso que é melhor digitar logo os textos do meu cliente que dá cursos de Florais de Bach e Pedras Piramidais. Assim fico logo livre da encrenca. Se não fosse um dos meus primeiros clientes, se não fosse tão constante a ponto de me pagar R$ 50,00 todo dia 7, entra ano sai ano, e se não tivesse tanta dificuldade de ouvir (a ponto de ninguém conseguir atendê-lo a contento), eu teria desistido dele há muito tempo. Porque o que ele escreve é muito, muito surreal. Mas, fazer o quê, ele acredita e ganha com isso, e o povo engole deliciado, pois nada como contar com a magia e o encantamento para resolver os problemas e ter no bolso receitas de felicidade instantânea.

Acabo de receber um e-mail do meu gerente de negócios exatamente assim:

“Equipe, o aluno tem que fazer um trabalho em grupo (dois alunos), um texto de 50 folhas no total. Os alunos dividiram o trabalho, ou seja, 25 folhas para cada um deles. O nosso cliente em questão pergunta:

– Se é possível fazermos a parte dele (25 folhas só frente) e qual o valor.

– E este mesmo aluno também pergunta se podemos fazer ou ler todo o material: 50 folhas (só frente, e já resumidas). R$?

– O prazo é amanhã até às 17h. O que a sra. acha dessa loucura?”

Para quem não entendeu, dois alunos devem entregar na faculdade um trabalho de cinqüenta folhas. O material foi dividido entre os dois, e um deles quer saber quanto custa para fazer só a parte dele, e também pediu o orçamento de quanto ficaria para revisar o trabalho final. E, já que estamos aí, ele quer saber o preço que eu cobraria para fazer tudo de uma vez. A ser entregue no dia seguinte. Hum… acho que não vale a pena ficar mais um dia sem dormir.

TERÇA-FEIRA, 13
Nem bem comecei a minha monografia de psicologia com prazo longo, quando toca a campainha. É meu gerente de negócios carregando duas sacolas de livros (uns fresquinhos, recém-comprados, e outros de bibliotecas). Desta vez, meus clientes exageraram: conto dezenove.

Como sempre, vou ler todos (um a um) e tudinho (maníaca compulsiva). O tema não é lá o meu preferido: os lipídios na alimentação servida em aviões e a arteriosclerose. Mas nada como aprender algo novo.

Além de redigir uma monografia inédita de trinta folhas, também preciso fazer: um painel-resumo, um Power Point e um jogo original para ser aplicado (tabuleiro, peças e regras). Pelos aparatos vou receber R$ 50,00 cada, e, juntando com o preço da monografia (R$ 350,00), vai dar para garantir os remédios do meu pai, modelo ano 33, pois ainda quero que ele conserte muita caixa de contenção e continue a dar uma de “pai dos mendigos” da cidade. O resto vou guardar até juntar uma quantia para levar minha mãe para viajar, já que a última vez foi há 26 anos.

Na fila, aguardando minha aceitação, esperam muitos clientes, ansiosos pedindo um trabalho inédito de turismo, uma revisão de texto de 100 folhas e um lindo jogo de resenhas críticas solicitadas por professores das disciplinas Sociologia e Direito Romano. Em abril, a coisa vai ter esquentado ainda mais, tanto que em maio já estarei com a agenda lotada até novembro.

Há anos, tentei contratar filhos, namorados e amigos dos filhos, sobrinhos, mãe e marido. Quando este último ficou desempregado, apesar do tino para os números e do faro de jornalista (ótimo para pesquisar), apenas aceitou fazer um trabalho: digitar a cópia de uma apostila de criação de cogumelos. Minha filha me deu a desculpa de que tinha muito trabalho escolar. Meu filho administra diversos sites, e desde o início se recusou por “falta de tempo”. Os demais acharam coisas melhores para fazer na vida e até a minha nora, em quem eu depositava toda a minha esperança e cuja herança sucessória coloquei em testamento, acabou desistindo. Sofro com a falta de mão-de-obra eficiente.

Uma vez que os clientes não acreditam que uma pessoa só pode dar conta de tudo, é que acabo recebendo de tempos em tempos uns e-mails, endereçados à “equipe”, de agradecimento pela boa nota, pelo resumo esclarecedor ou por tudo o que eu fiz. Mas, é o que é, sou uma só. Por outro lado, ao me manter incógnita não posso matar minha vontade de saber os detalhes pessoais do cliente, se tudo correu bem com ele, se ficou satisfeito ou se trilhei o caminho certo no trabalho, afinal, sou leiga em tudo. Pelo menos, de vez em quando, fico aliviada em saber que ajudei bem.

QUARTA-FEIRA, 14
Chegou mais uma monografia rascunhada para eu ver se dá para consertar e completar (prazo: dezembro). É típica de cliente que já tem anos de prática na profissão, mas não consegue se expressar por escrito, nem tem a técnica para estruturar uma monografia. É mais um caso de pessoa obrigada pela empresa a tirar um diploma, senão é rua. O que interessa é o cartucho. A ordem é que o funcionário vá atrás, mesmo que não tenha o mínimo desejo de cursar uma faculdade ou fazer pós-graduação. Uma vez disseram até que qualquer diploma servia. Então toca a procurar um curso bem barato, porque são poucas as empresas que bancam pagar. Algumas empresas públicas até concordam em rachar o valor meio a meio. E lá vai o coitado, que ganha pouco, fazer o que não quer por dois, três, quatro anos, sem saber no que vai dar. Daí a motivação e o ânimo logo estarem no fundo do poço, e o pânico aumentar conforme verifica que não está entendendo nada, e que acabará perdendo o semestre.

É verdade que também há o oposto: gente que se empolga estudando, tem facilidade em assimilar o blá-blá-blá passado em classes de 100 alunos. Estes passam os fins de semana e feriados dando duro para cumprir as obrigações escolares, e nem pensam em contratar “a equipe”. A não ser que seja preciso digitar o que foi escrito a mão e o computador pifou, ou “o maldito do Word está dando erro, socorro!”. Aí explico os macetes e insisto que não, não dou aulas particulares de computação e não, não conserto PCs. Parei já faz tempo, e agora só para os amigos.

Como os clientes de vários anos continuam divulgando meus trabalhos, muita gente vem até a minha casa. Dou preferência a trabalhar de madrugada (mais silêncio ajuda na concentração) e às vezes atendo o pessoal que sai da faculdade à noite, depois das 23h30, e que precisa de suas digitações no drive-thru bem cedinho. Aí coloco os trabalhos feitos em envelopes usados – sempre os mesmos -, fechados com fita crepe, onde escrevo os respectivos nomes. De manhã cada um pega o seu. Até hoje, todos, honestamente, nunca mexeram nos dos demais e ainda por cima pagam direitinho o valor combinado, jogando o dinheiro na caixa do correio.

QUINTA-FEIRA, 15
Hoje trabalhei doze horas quase sem parar. Vou colocar um filme do Paul Auster, Sem Fôlego, para descansar a cabeça (puxa, lembrei que aquele primeiro trabalho do stress, que fiz faz tempo, ficou muito bom) e vou esticar bem os músculos para não dar L.E.R. (esse já não ficou tão bom). Nos meses calmos dá pra dedicar só quatro horas, e aproveitar o resto do tempo para costurar, cortar a grama, desentupir a pia ou trocar a torneira (tudo eu, tudo eu). De domingo a domingo, a coisa vai indo, mas este ano promete. Também, com a educação do jeito que está, meu negócio vai de vento em popa. Uniban, Unip, Uninove e outras similares, um dia, vão é me pedir participação nos lucros, pelo volume de trabalho que me propiciam. No Brasil de hoje, meu trabalho de monografias por encomenda deve ser o mais promissor de todos.

É certo que meu coração baqueou de tristeza quando fiz uma monografia para a USP. Lá se vão uns três anos do ocorrido. Logo depois, soube que isso acontecia há pelo menos uns 35 anos por lá. No meu caso, o trabalho inicial era de pós-graduação! Decepção…

Deu-se o seguinte: dois professores disseram ao meu cliente para fazer uma monografia de pós-graduação em que eles seriam os orientadores. Insistiram com um tema, e o aluno tinha que se virar pra encontrar o material apontado. Após (eu) elaborar o primeiro capítulo, com base em certos livros, e seguindo o direcionamento pedido, os professores disseram ao aluno que ele deveria continuar o ótimo trabalho que estava fazendo, mas a partir daí a coisa ia mudar. O aluno ganharia a aprovação, mas eles queriam que o trabalho virasse a tese de doutorado deles. Desse dia em diante, passaram a colocar o nome deles como autores em dois pré-projetos (um para cada um deles) e duas monografias de temas diferentes. O aluno devia ir fazendo aos poucos, e mudando conforme a música. O cliente, com medo de não ser aprovado, passou a me pagar pra fazer tais trabalhos e, por seis meses, gastou um bom dinheiro para realizar as pesquisas de campo necessárias. Como eu só trabalho a parte teórica, e nunca a parte prática, ele me trazia manuscritos, fotos, livros antiqüíssimos e todo material levantado em entrevistas e arquivos públicos e particulares.

Resumo da história: não agüentei ver o sofrimento do meu cliente e cortei o negócio. A gota d’água foi a exigência dos dois “doutores” de suprimir certas fontes (gente boa de órgãos públicos que tinha feito levantamentos inéditos em trabalhos primorosos, mas de pouca divulgação). Aí já era demais. Larguei tudo, mandei o aluno denunciar, fiquei sem receber boa parte e não sei o que aconteceu. Com certeza, nesse mundo doido, eles ainda devem estar na USP. Só alguém com poder e lábia vai conseguir desmascará-los. A denúncia tem que partir do aluno, pois o que estou contando fiquei sabendo do que ele me disse. A ele, não quero prejudicar, mas espero que os dois doutores da USP tenham bons pesadelos pelo resto de suas vidas. E eu, aqui, vou dormir em paz, sem peso na consciência. Já é de manhãzinha.

Maria Lopes

Maria Lopes é o pseudônimo de uma redatora paulista que escreve textos sob encomenda para as mais diversas finalidades.

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