chegada

Um trilhão na grelha

A nova popularidade de Bolsonaro e os “pobres coitados”

José Roberto de Toledo
CREDITO: ADÃO ITURRUSGARAI_2020

Primeira semana de abril de 2020. Pandemia, dezenas de mortos por dia, ruas vazias, comércio fechando. Ambulantes sem ter para quem vender, patrões mandando empregados ficarem em casa. No Rio de Janeiro, moradores do asfalto se preocupavam com seus vizinhos do morro. Como eles conseguiriam dinheiro para comer, para sobreviver? Organizaram uma vaquinha, compraram alimentos básicos, embalaram em cestas e enviaram para um representante da comunidade, que as distribuiu na favela. Repetiram o ritual em maio, continuaram em junho. Na segunda semana de julho, veio o recado, gravado pelo WhatsApp. “A gente vai dar uma parada em agosto. Tem sobra do mês passado.” O líder comunitário acrescentou: depois da ajuda emergencial de 600 reais que o governo tinha começado a pagar, a situação melhorara e, em alguns casos, sobrou dinheiro até para um churrasco na laje.

Dia 9 de fevereiro de 2011. Um candidato derrotado à presidência da Câmara sobe à tribuna e ironiza os oito votos que recebera entre os 509 deputados votantes: “É claro que me candidatei sem pensar numa possível eleição, até porque eu não tinha nada a oferecer ao seleto eleitorado, sequer uma bolachinha Mabel.” No discurso, naquele segundo mês do governo Dilma Rousseff (PT), o então deputado Jair Bolsonaro (PP) aproveitou para criticar o escambo por voto e defender o fim do Bolsa Família, que servia para tirar dinheiro “de quem produz” e dá-lo a “quem se acomoda”. Detalhou: “Esse governo que está aí e o anterior não têm preocupação com a democracia e com o país. A preocupação é perpetuar-se no poder.” Numa fala anterior, também em fevereiro de 2011, Bolsonaro disse que o Bolsa Família era destinado aos “pobres coitados, ignorantes” e estava criando uma massa de “eleitores de cabresto do PT”. Completou: “Não interessa ao PT fazer com que o povo tenha cultura, emprego, trabalho, porque vai perder esse curral eleitoral.”

No governo, Bolsonaro está patrocinando um desmonte histórico da cultura, uma bagunça singular na educação, o desemprego atinge taxas recordes – e, nove anos depois daqueles discursos na Câmara, ele está encantado com a ideia de ampliar o Bolsa Família. Quando percebeu a gravidade da pandemia, o presidente não se preocupou em evitar o morticínio de 120 mil brasileiros (e contando) pela Covid-19. Só quis saber de salvar a economia porque entendia que assim salvaria a própria pele. Enviou ao Congresso uma proposta de distribuir ajuda emergencial de 200 reais durante três meses. Em ano eleitoral, os parlamentares adoraram a ideia e, docemente pressionados por movimentos populares, triplicaram a proposta do governo: 600 reais por mês, valor que corresponde a mais de três vezes o valor médio pago pelo Bolsa Família.

 

Sem querer e com a ajuda decisiva dos congressistas, Bolsonaro, ao pagar o benefício para mais de 66 milhões de pessoas, promoveu a maior distribuição de renda já registrada no país. Na escala do índice de Gini, zero indica a plena igualdade de renda e 1 representa a desigualdade absoluta. Pela primeira vez, o Brasil ficou abaixo de 0,5. Em relação a um ano antes, a quantidade de pobres caíra 21% até julho: 13 milhões de brasileiros deram um passo à frente e cruzaram a linha da pobreza de meio salário mínimo por cabeça. “Ritmo muito superior ao observado em momentos de boom social no Brasil, como nos períodos seguintes ao lançamento de planos de estabilização como o Cruzado em 1986 e o Real em 1994”, diz um estudo da FGV Social, coordenado pelo economista Marcelo Neri. O que mais entusiasmou Bolsonaro, no entanto, não foi a notável redução da desigualdade, mas os resultados positivos que colheu nas pesquisas de opinião.



Após o estrago que o Sars-CoV-2 fez na economia, a porcentagem da população que avaliava o governo Bolsonaro como bom ou ótimo caiu de quase 40% para 25%, segundo o Ideia Big Data. Bastou começar a distribuir 600 reais todo mês para a popularidade presidencial reverter a tendência de queda e voltar em direção ao patamar dos 40%. Os pontos percentuais a mais fizeram Bolsonaro ficar bonito aos olhos de quem tentará se eleger prefeito na eleição de novembro. Até candidatos de partidos de oposição passaram a disputar seu apoio. Mas sustentar o patamar dos 40% de avaliação positiva custa caro demais. Para Bolsonaro e seus planos de manter-se no poder, o cenário ideal seria pagar 600 reais para 66 milhões de pessoas até o fim da campanha da reeleição em 2022. Só que isso custaria cerca de 1 trilhão de reais para os cofres públicos, ou dois de cada três reais arrecadados anualmente com impostos pela União. É impossível.

Para Paulo Guedes, cujo prestígio no governo está igual a curva achatada, a saída é cortar o valor do benefício. É uma jogada de alto risco para o presidente. A satisfação da opinião pública é resultado da expectativa das pessoas menos a realidade. Se a expectativa é 600 reais por mês e a realidade for 300, a resultante é o beneficiário achar que perdeu em vez de ganhar. Já há políticos faturando com isso. O deputado André Janones (Avante-MG) percebeu que defender os 600 reais contra o corte dá voto – ou, no mínimo, likes. Muitos. Na semana de 16 a 23 de agosto, o desconhecido parlamentar conseguiu mais do que o dobro de interações em sua página no Facebook do que o próprio Bolsonaro: 1,2 milhão por dia, contra 570 mil do presidente. Por certo, não será o único a votar contra a redução dos 600 reais.

Para evitar surpresas, Bolsonaro vai precisar convidar o presidente da Câmara para um churrasco no Palácio da Alvorada. Os encontros presidenciais com Rodrigo Maia começaram a se normalizar depois que o “gabinete de ódio” parou de atacar o deputado nas redes sociais. Também ajudou a distribuição de verbas e cargos ao Centrão, o nome do covil do fisiologismo no Congresso. O novo objetivo de Bolsonaro é encontrar um modo viável para manter e ampliar um programa que os políticos e eleitores de direita diziam, durante os governos do PT, que apenas premiava vagabundos, estimulava mulheres pobres a procriar, perpetuava o desemprego e estimulava o gasto irresponsável. Se Bolsonaro conseguir garantir os pontos extras de popularidade, está valendo. O líder da comunidade, que distribuía as cestas básicas doadas pelos vizinhos abastados, torce para que os moradores das favelas não voltem a ser chamados de “pobres coitados”.

José Roberto de Toledo

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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