esquina

Um Van Gogh, por favor

Não há crise no museu onde tudo está à venda

Flávia Mantovani
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A Holanda tem mais de 8 mil variedades registradas de tulipas, puras ou híbridas, de cores lisas ou mescladas, cabo longo ou curto. Ainda assim, foi preciso criar uma completamente nova para decorar a entrada da Tefaf, uma feira tão exclusiva quanto a flor vermelha e amarela que foi batizada com seu nome. Dispostas em vitrines, as Tefaf tulips faziam parte do esforço para deixar o centro de exposições da cidade holandesa de Maastricht sem muita cara de pavilhão de eventos.

A operação de embelezamento incluiu a distribuição de uma boa quantidade de flores menos raras, mas igualmente valorizadas: 40 500 tulipas francesas, 24 mil tulipas holandesas e 4 500 ramos de flores de cerejeira e de magnólias. Na parede da entrada, 33 mil rosas brancas de uma variedade muito apreciada pelas noivas formavam uma espécie de lua cheia, iluminada por uma escultura de luzes criada para o evento.

Tanta exuberância de gosto duvidoso tinha razão de ser. A Tefaf é uma das feiras de arte mais importantes do mundo e comemorava suas bodas de prata no último mês de março. A decoração servia como pano de fundo para acolher a exibição de 30 mil obras, tão variadas quanto um relevo egípcio de 1400 a.C., um vaso italiano do século XV, quadros de Renoir, Picasso e Warhol e fotografias de Richard Avedon. Era, em suma, uma espécie de museu de tudo onde tudo estava à venda.

Se havia opções para gostos muito variados, não dá para dizer que cabiam em qualquer bolso. Na seção de antiguidades, uma máscara olmeca com mais de 2 mil anos em forma de coruja era oferecida por 4,4 milhões de reais. Quem quisesse levar um Van Gogh tinha que andar só alguns metros, mas pagar quase o dobro. A tela Os Colhedores de Batata custava 8 milhões de reais, uma pechincha em comparação com a estrela da feira: Figura Reclinada: Curvada, de Henry Moore. Muito apreciada por seu ineditismo no mercado, a escultura de mármore negro pesava 600 quilos e valia 70 milhões de reais.



Bem mais em conta, outra figura reclinada, desenhada por Klimt, tinha seu preço escrito à mão na etiqueta: “280” (mil euros, ou 715 mil reais). As litografias também eram opções mais econômicas: havia Miró por 90 mil reais, Chagall por 84 mil e Matisse por 56 mil.

Ao menos quem gastava esses milhares – ou milhões – contava com a garantia de que não comprava gato por lebre. A Tefaf se orgulha de ser a feira mais confiável do mundo. Tem, para isso, 29 comitês de veto, com 175 especialistas que avaliam a autenticidade e as condições de cada peça.

Mais de 72 mil pessoas visitaram a feira durante seus dez dias. Para alimentá-las, foram necessárias 15 mil taças de champanhe e 31 mil de vinho, 11 mil ostras e 50 mil sanduíches “finos”.

O pequeno aeroporto do município de 120 mil habitantes lotou com os jatinhos privados que lá aterrissaram: 160 só no primeiro dia. Imunes aos encantos da turística Maastricht, mais de 60% dos visitantes não dormiram nem uma noite na cidade. O mais apressado achou o que queria nos primeiros dez minutos de feira: um retrato recém-descoberto do rei inglês Henrique VIII, pintado no século XVI. Fechou negócio vinte minutos depois, por 8 milhões de reais. Espera-se ao menos que tenha reservado um tempo para brindar a aquisição com uma das 1 800 garrafas de champanhe do coquetel inaugural, só para os VIPs (dos VIPs).

Um dia antes da inauguração privada, a feira havia recebido uma visita ainda mais nobre, no sentido literal da palavra: a rainha Beatriz, da Holanda. Sua Majestade foi escoltada por outro colega de sangue azul, Willem Baron van Dedem, presidente da feira, dono de uma famosa coleção de arte holandesa e, sim, barão de verdade.

A maioria que passeava pelos 15 mil metros quadrados de tapetes da Tefaf era composta de colecionadores particulares. Apesar da diversidade, era possível identificar certa uniformidade ao menos nos dois extremos do corpo: a cabeça e os pés. Os cabelos eram quase sempre grisalhos, e isso não quer dizer que apenas os homens estavam perto ou para lá dos 50 anos. Mulheres natural ou artificialmente grisalhas deixavam transparecer um estilo determinado, uma forma de envelhecer bem europeia.

No outro extremo estavam os sapatos. Masculinos ou femininos, escuros ou coloridos, aparentavam sempre uma qualidade ímpar. Foram eles (ou a falta deles) os culpados por denunciar um jornalista que vestira seu melhor terno na tentativa de se misturar aos colecionadores. Intrigado por não receber tratamento à altura, constatou que os expositores olhavam diretamente para seus pés antes de desdenhá-lo.

Havia, é claro, exceções à sobriedade. Na categoria dos endinheirados excêntricos, destacava-se uma mulher vestida de cima a baixo no mesmo tom de vermelho, acompanhada de um senhor de chapéu roxo, casaco fúcsia e sapato alaranjado de bico fino. Apostava-se que o casal era fã de arte pop.

Apesar da crescente presença de chineses e russos na Tefaf, nove em cada dez visitantes vinham mesmo da Europa. Ali não se podiam ver sinais da crise do Velho Mundo. Acontece que a instabilidade econômica pode aquecer as vendas do mercado de arte. Muitos investidores têm optado por comprar quadros e esculturas como forma de se refugiar das oscilações e riscos da Bolsa. Para eles, um quadro de Picasso é mais que uma obra-prima. É um “bem tangível”.

Um galerista espanhol também tinha sua explicação para os negócios milionários fechados na Tefaf. Segundo ele, o único segmento que sofreu com a recessão foi o intermediário, de peças mais decorativas. Enquanto mostrava um Goya de 6,4 milhões de reais pendurado em seu estande, vaticinou: “O top vende mais.” Maastricht parecia lhe dar razão.

Flávia Mantovani

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