chegada

Varre, varre, vassourinha

Nasce a primeira pista de curling da América Latina

Christian Carvalho Cruz
Acredite, há estratégia nisso aí: “Da terra vieste, mas a ela não retornarás. Virarás gelo!”
Acredite, há estratégia nisso aí: “Da terra vieste, mas a ela não retornarás. Virarás gelo!” CRÉDITO: REPRODUÇÃO

O manauara Márcio Cerquinho tinha acabado de chegar de Vancouver, no Canadá, onde vive há seis anos. Era domingo, o último de janeiro, e ele percorreu com inusual sossego uma Marginal Pinheiros sem trânsito, saindo do Aeroporto de Guarulhos. Mas, ao entrar no antigo depósito de um hipermercado para os lados da Ponte do Morumbi, se sentiu como Paulo Coelho às margens do Rio Piedra: quis sentar e chorar. Seu novo local de trabalho era um amontoado de terra e entulho que precisaria ficar lisinho e congelado em três semanas. Precisaria se tornar a primeira pista de curling da América Latina.

O curling é aquela modalidade esportiva cantada em verso e melodia pelos pagodeiros do grupo Molejo. Diga aonde você vai, que eu vou varrendo. Vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo. Também é chamado de “esporte da vassourinha” ou “jogo da chaleirinha”, dependendo do nível de escárnio de quem fala. Criado na Escócia no século XVI, consiste em deslizar por uma pista congelada pedras de granito de 20 kg e formato que lembra o de uma chaleira. Com bastões semelhantes a uma vassoura, os competidores esfregam o gelo – não para enxugá-lo, mas para esquentá-lo, derretê-lo – e assim tentam direcionar as pedras. Vence quem põe mais pedras perto do centro do alvo grafado no chão. Bem, é mais complexo do que isso. Há anos, por exemplo, dois pesquisadores, o canadense Mark Shegelski e o sueco Harald Nyberg, discutem em artigos científicos a dinâmica das curvas que a pedra faz. Trata-se de um jogo de estratégia (“o xadrez no gelo”) que, dizem, perderia metade da graça sem a tradição de tomar cerveja nos intervalos e no fim das partidas – com os vencedores sempre pagando a conta, em nome do fair play.

Mas quantos são, onde vivem, o que comem e como se reproduzem os brasileiros jogadores de curling? A primeira parte da pergunta é mais fácil que escorregar no gelo: eles totalizam cinquenta se desconsiderarmos algum improvável antissocial que pratique o esporte escondido por aí. Vinte são mulheres. Trinta e seis estão filiados à Confederação Brasileira de Desportos no Gelo, a CBDG. Todos os cinquenta se falam por um grupo de Facebook e nenhum mora no Brasil. Um vive na Coreia do Sul, três na Suíça e o restante no Canadá, a maior potência da modalidade.

Cerquinho, que completa 40 anos em junho, é da turma canadense e o único jogador da Seleção Brasileira (sim, existe uma) a sobreviver só do curling. Dá aulas, faz transmissão de partidas pela internet para a federação de Vancouver e é ice-maker, profissional responsável pela construção e manutenção das pistas. Foi nessa condição de “fazedor de gelo” que ele desembarcou em São Paulo. “Hotel?! Tô morando aqui mesmo”, ria, de braços abertos, no galpão de 2,5 mil m2 que iria abrigar o Maracanã do curling nacional. “O maior inconveniente é ficar com os pés úmidos até acertarmos o ponto do gelo, mas isso eu resolvi comprando três pares de tênis e uns trinta de meias. Molhou, eu troco.”

Originalmente um programador de softwares que foi tentar a sorte no Canadá, Cerquinho descobriu no curling um jeito de lidar com seu déficit de atenção. A Seleção Brasileira tem times nas quatro categorias do esporte (masculina, feminina, duplas mistas e equipes mistas) e ocupa posições pouco animadoras no ranking mundial: entre a 27ª e a 38ª. Mesmo assim, sobre o futuro da modalidade entre nós, Cerquinho fala com o entusiasmo de um missionário: “Brasil é bunda, bola e MMA. Mas agora estamos prontos para formar a geração que em dez anos levará o curling nacional à sua primeira Olimpíada de Inverno.” O projeto da pista paulistana é dele e do advogado Sérgio Mitsuo Vilela, diretor da CBDG e também jogador da Seleção.

Por falta de material apropriado, algumas adaptações estruturais precisaram ser feitas no projeto do Morumbi. Em geral, os canos de alumínio resfriados, sobre os quais o gelo se forma, correm no sentido longitudinal das pistas. Com 45 metros de comprimento e 1 polegada de diâmetro, são instalados a 5 cm uns dos outros. Aqui, sem encontrar um fornecedor de canos com essas medidas, Cerquinho usou artefatos menores, de 5 metros, no sentido perpendicular. Deu certo. Em fevereiro, exatas três semanas após o ice-maker chegar a São Paulo, a pista já estava funcional. A temperatura do gelo era de -5ºC, e a umidade relativa do ar, de 20%, foi atingida graças à instalação de um mastodôntico desumidificador de shopping center.

Na realidade, Cerquinho não fez propriamente uma pista, mas três de 15 metros por 45 metros, uma colada na outra. Elas integram um complexo batizado de Arena Ice Brasil, que tem ainda uma quadra de hóquei e pista de patinação, um bar, uma loja de equipamentos esportivos e um mezanino que funcionará como coworking. Todo o empreendimento custou 2,5 milhões de reais. Um quarto da verba veio da CBDG – que há cinco anos, para fazer caixa, decidiu que os atletas bancariam suas próprias despesas em competições internacionais. Metade saiu da Federação Mundial de Curling, a WCF, já há algum tempo empolgada com o interesse dos brasileiros pelo esporte. “O Brasil gerou a quinta maior audiência da modalidade na tevê durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, em PyeongChang, na Coreia do Sul. Só ficou atrás do Canadá, da Suíça, da Suécia e dos Estados Unidos”, diz Mitsuo Vilela, sem informar o número de telespectadores. Diretor de um banco suíço, morador de Zurique e integrante do recém-formado comitê da WCF que desenhará o futuro do curling no mundo, ele revela a fonte dos 25% restantes que financiaram a arena paulistana: “O bolso de alguns loucos como eu.”

A loucura de Mitsuo Vilela começou em 2010, quando ele ainda vivia em São Paulo. Pela televisão, soube que uma marca de cosméticos, a Neutrogena, estava promovendo uma ação de marketing que improvisava por dez dias uma pista de curling num rinque de patinação. “Eu nunca tinha ouvido falar do esporte, mas fui até lá e fiquei seis horas na fila para jogar. Lancei duas pedras e nenhuma deslizou mais do que 3 metros. Mesmo assim, achei incrível. E aqui estou agora, na porta do hospício”, brinca o advogado, numa conversa por telefone. Ele e os demais investidores acreditam que o empreendimento atrairá principalmente os estudantes de colégios internacionais, cujos pais têm algum contato com esportes de inverno.

 

Numa tarde chuvosa de fevereiro, Cerquinho experimentou pela primeira vez a pista do Morumbi, que receberá em maio a quinta edição do Campeonato Brasileiro de Curling. Será a primeira disputada nesta terra de bunda, bola e MMA. As anteriores ocorreram no Canadá.

O ice-maker, que não deixava o complexo nem para almoçar, mandou pelo WhatsApp um vídeo do test drive. Dizia-se exausto, com frio e contava ter trocado de meias três vezes só na parte da manhã. Mas estava confiante. Vestia um casaco para neve da Seleção, na mão direita portava a vassourinha e, na esquerda, a chaleirinha. Agachado rente ao chão, deslizava, deslizava e deslizava, como se acariciasse a pista. O Apocalipse de três semanas atrás tinha se convertido, enfim, no Gênesis. “Da terra vieste, mas a ela não retornarás. Virarás gelo!”, escreveu Cerquinho no Zap.

Christian Carvalho Cruz

Jornalista, é autor do livro de reportagens Entretanto Foi Assim que Aconteceu, publicado pela Arquipélago Editorial

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