esquina

Vende-se uma vida

Quando o golpe é duro, dê adeus a si mesmo

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Ian Usher sempre foi turrão. Entre amigos, o inglês se vangloriava do dia em que insistira tanto em ter desconto num notebook em promoção, que acabou levando uma impressora de brinde.

Desde 22 de junho do ano passado – quando leiloou sua vida na internet –, Usher se deu conta de como a arte de pechinchar pode ser irritante. Foram sete dias de ofertas e contrapropostas até a martelada final nos 243 mil euros, um deságio de 18% na sua auto-estima. Dias antes, depois de sopesar cada detalhe de sua vida e olhar-se no espelho de frente e de lado para avaliar desde a harmonia do rosto ao vigor da barriga tanquinho, Usher concluíra que o pacote todo valia 296 mil euros – por baixo. Mas mercado é mercado, e, como o dele era escasso, aceitou o preço minguado e livrou-se de si mesmo.

A história correu mundo, mas poucos sabem como acabou.

Prólogo: Usher, o homem-mercadoria, nasceu numa tarde chuvosa de 1963 pesando invejáveis 4,1 quilos, sinal incontornável de que viera ao mundo para ficar. Levou uma infância pacata em Barnard Castle, vilarejo de 5 mil habitantes onde o romancista Sir Walter Scott costumava passar férias. Cresceu, trabalhou num kibutz em Israel, formou-se em pedagogia em Liverpool, ganhou dinheiro à frente de uma loja de jet ski e viajou a turismo para a Austrália. Ali, numa visita às Cataratas de Hopetoun, foi arrebatado pelos dourados cachos rebeldes da nativa Laura Weeb, encarnação celestial da mulher com que sempre sonhara.

Regressou à Inglaterra de mãos dadas com a australiana. Seguiram-se doze felizes anos de namoro que culminaram em casamento. Àquela altura, cansada de tanta chuva, a solar Laura Weeb pediu para voltar a seu país. Sempre apaixonado, Usher não hesitou.

Instalaram-se numa casa de bom trato na cidade de Perth, no sudeste da Austrália. A felicidade se estendeu por mais cinco anos, e podia ser aferida em cada cômodo da residência, dotada de suíte, dois quartos, salas espaçosas e uma jacuzzi no terraço.

 

Foi em águas borbulhantes que a casa caiu. Um dia, ao chegar mais cedo da habitual corrida vespertina, Usher deparou-se com Laura na hidromassagem. Infelizmente, não estava sozinha. Pior, trocava beliscões concupiscentes com um companheiro de borbulhas.

Laura foi embora, o lar duplicou de tamanho e Usher foi apanhado pela depressão. Dali a poucas semanas, decidiu vender a casa, mas nem isso lhe pareceu suficientemente radical. Para encontrar alguma paz, precisava livrar-se de tudo. Tudo mesmo, inclusive de sua vida. Criou então o endereço eletrônico alife4sale.com, um jogo de palavras que significa “uma vida à venda”.

Empacotou tudo para um leilão de um lote só. Quem desse o maior lance levaria não apenas a casa, mas também o Mazda cinza 1989, a motocicleta Kawasaki Ninja 1996, o jet ski Kawasaki 1995 e a bicicleta de quinze marchas. E mais: 1 pára-quedas, 1 videoprojetor com som surround, 1 câmera fotográfica, 1 filmadora, 1 televisão, 1 coleção de filmes italianos trash, 1 churrasqueira portátil, 1 barraca, 1 telefone sem fio, 1 aspirador de pó novinho em folha, 1 sofá de canto para cinco pessoas e 1 tapete em tons de bege comprado no Nepal.

Isso, em relação aos bens materiais. Restavam os imateriais, também levados a leilão. A amizade era um deles. O lote incluía uma carta assinada pelos quatro melhores amigos de Usher, na qual afiançavam que o afeto pelo amigo em vias de desaparecer poderia ser transferido ao novo proprietário. “Caro comprador”, escreveram eles, “fazemos parte da vida do seu comprado. Éramos amigos de Usher e, agora, somos amigos seus.”

Enfim, para os interessados que carecessem de personalidade própria, o produto adquirido vinha com uma vida inteirinha pronta para uso, ou seja, suas características podiam ser imediatamente incorporadas: gosto por esportes radicais, gentileza, deferência especial com os mais velhos etc.

Ian Usher não foi o pioneiro dos leilões de si. Em 2001, por exemplo, Adam Burtle, de 20 anos, vendeu a alma por 400 dólares, só não embolsando o dinheiro porque o site eBay avisou que ali só se vendiam bens tangíveis. Ainda assim, Usher se destacou. Durante algum tempo, de CNN a BBC, todos falaram do caso. Passada a euforia, entretanto, o fato caiu no esquecimento, como tantas bizarrias mundo afora. (Ou alguém sabe que fim levou aquela pobre senhora alemã que em 2007, um pouco dura de ouvido e ruim dos olhos, cozinhou o gato de estimação no lugar do pernil que descongelara na noite anterior?)

 

No terceiro dia da oferta, Usher vibrou ao ver na tela que um interessado registrado como “Milionaire” (sic) oferecia-lhe um milhão de euros. Em poucas horas, veio a desilusão: tratava-se de um farsante. Na verdade, a chance de virar Ian Usher não chegou a despertar maiores entusiasmos. As ofertas do público foram modestas, variando entre mil e 20 mil euros. Porém, como nos filmes, a poucas horas do encerramento do leilão, surgia um certo Mslmcc que se dispunha a bancar o lance de 243 mil euros. Usher pensou um pouco e, admitindo as baixas vibrações do mercado, aceitou o desconto. Em 5 de agosto, 45 dias depois de se pôr à venda, recebia de um intermediário a segunda parcela do pagamento.

Livre de si, Usher embarcou para Dubai – sem outra razão a não ser o desejo de ver um camelo ao vivo – e desde então viaja pelo mundo em esquema pingue-pongue, a bordo de um projeto intitulado 100 Objetivos em 100 Semanas – ou seja, está por aí, realizando todas as idiotices com que sempre sonhou, nas asas do dinheiro recebido pela venda de si mesmo. Já viu um vulcão ativo no Havaí, participou da guerra de tomates em Valência e, em Vancouver, foi voluntário num sopão para mendigos em pleno Natal. Ainda não tem data definida para visitar o Rio de Janeiro e as Cataratas do Iguaçu, mas ambos os destinos estão na lista.

Em outubro do ano passado, em Chicago, enquanto se surpreendia com seu reflexo distorcido numa escultura convexa de Anish Kapoor, Usher recebeu o telefonema que tanto esperava. Fazia meses que vinha ligando para o único número deixado pelo homem que o comprara; ao ouvir a secretária eletrônica, deixava recados insistentes, dizendo que, se não fosse um abuso, gostaria muito de conhecer a pessoa que se tornara dona do seu passado. Agora a pessoa finalmente aparecia. A voz, simpática, identificou-se como um australiano de 46 anos. Marcaram para dezembro um encontro em Sydney.

O abraço entre os dois foi afetuoso. Usher deixou a vaidade passar na frente e se deu a liberdade de comentar que o comprador tinha feito um bom negócio. O comprador, que continua a preferir o anonimato, respondeu com uma piadinha: tinha sido injusto não incluir a ex-mulher no pacote, a título de brinde.

Não havia mais o que dizer. Usher trocou mais algumas palavras, inventou uma desculpa e se despediu. “Ele não devia ter brincado com a Laura”, disse. “Ainda estou me recuperando do que aconteceu.”

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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