questões da getulice

Verdade Vargas

A biografia de Lira Neto e a permanência do ditador no presente

Mario Sergio Conti
Getúlio Vargas posa para Jo Davidson, mandado por Roosevelt ao Rio para esculpir o ditador: o busto ainda faz os políticos trabalharem e sonharem, apesar de Fernando Henrique e Lula terem prometido livrar o Brasil de sua sombra acachapante
Getúlio Vargas posa para Jo Davidson, mandado por Roosevelt ao Rio para esculpir o ditador: o busto ainda faz os políticos trabalharem e sonharem, apesar de Fernando Henrique e Lula terem prometido livrar o Brasil de sua sombra acachapante FOTO: ACERVO FGV/CPDOC_ARQUIVO GETÚLIO VARGAS

Vasco Leitão da Cunha era ministro da Justiça no começo de julho de 1942. Desde o início do ano, submarinos alemães vinham torpedeando navios brasileiros no Atlântico Norte. A União Nacional dos Estudantes, criada para dar sustentação ao Estado Novo, convocou uma passeata no Centro do Rio para protestar contra o nazismo. O chefe da Polícia, Filinto Müller, proibiu a manifestação, que, no entanto, era apoiada por facções da ditadura. Leitão da Cunha chamou-o a seu gabinete.

Filinto Müller era homem forte do regime. Participara de levantes tenentistas dos anos 20. Fora expulso da Coluna Prestes. Tomara parte do movimento que pusera Getúlio Vargas no poder. Visitara a Alemanha em missão oficial e se encontrara com Heinrich Himmler, o dirigente da Gestapo. Debelara as oposições com pancadas e choques elétricos. Era o gerente da prisão e da tortura de milhares de pessoas.

Já Leitão da Cunha era um fraco. Diplomata de carreira, estava lotado na chefia de gabinete no Ministério da Justiça. Como o titular da pasta, Francisco Campos, se afastara para uma cirurgia da tireoide, assumira o seu lugar na interinidade. Tocava o expediente. Na hierarquia estatal, porém, o Ministério estava acima da Delegacia Especial de Segurança Política e Social. O funcionário civil mandava no major fascista. Filinto Müller foi ao seu encontro com o revólver na cintura.

Irritado, argumentou que “subversivos” se aproveitariam da passeata para perpetrar atentados contra a ordem pública – seriam o que hoje se chama de vândalos. O ministro divergiu. Ordenou que a polícia protegesse a passeata de eventuais provocadores. Filinto Müller ficou possesso e ameaçou não cumprir a determinação. Leitão da Cunha pôs-lhe a mão sobre o ombro e disse:

“O senhor está preso.”

“Não aceito! Sou um oficial do Exército”, retrucou Filinto Müller.

“Vá para casa e passe a chefia de Polícia para o seu substituto”, comandou Vasco Leitão da Cunha, acrescentando que a prisão seria domiciliar e duraria 48 horas.

Assim foi feito. Apesar da bazófia, o chefe dos meganhas foi detido e a passeata saiu em 4 de julho, data da independência americana. Estudantes levaram à rua uma faixa na qual, em linguagem de placar de futebol, comemoravam o desenlace da disputa entre o interino e o bastião da ditadura: “Vasco 1 a 0.”

O episódio é insólito no segundo volume de Getúlio, de Lira Neto: o único no qual uma autoridade é corajosa, inclusive no gesto bem brasileiro de botar a mão no ombro. Na regra, os políticos que gravitam em torno do biografado titubeiam, procrastinam e se camuflam até, infalivelmente, se submeterem ao mais forte. Sabujos, agem para manter o seu poder, por subalterno que seja. Têm a quem puxar. Todos se comportam como Getúlio Vargas.

E Vargas respondeu à escaramuça de modo característico. Exonerou tanto Leitão da Cunha quanto Filinto Müller. Aproveitou o embalo e demitiu também Francisco Campos, o titular da Justiça, e Lourival Fontes, responsável pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, que organizava a censura à imprensa e a adulação do ditador. Mas a todos eles enviou cartas cobrindo-os de louvores. “Sua ação foi sempre serena e eficiente, e se exerceu pertinaz, enérgica e sem excessos, contra todos os agentes criminosos da anarquia e desordem”, escreveu ao responsável pela tortura, homologando-a. Pouco depois, os caídos foram remanejados para outras funções estatais.

 

O episódio não se encerrou assim porque os nazistas continuaram a atacar, agora em águas nacionais. Em agosto, o Baependy foi torpedeado no litoral de Sergipe e 270 brasileiros morreram. Horas depois, o Araraquara foi posto a pique e 131 pereceram, queimados ou afogados. No dia seguinte, o Aníbal Benévolo foi alvejado e só quatro dos 154 a bordo sobreviveram. Passou mais um dia e o Itagiba, que navegava ao largo de Salvador, foi afundado.

O Arará se aproximou para recolher sobreviventes e os alemães o partiram ao meio. Em cinco dias, os nazistas mataram mais de 600 crianças, mulheres e homens brasileiros. Lira Neto qualifica os torpedeamentos de “carnificina”. Vargas permaneceu mudo.

Aí se deu o inusitado. Um grupinho se reuniu nas imediações da Galeria Cruzeiro, na avenida Rio Branco, no Centro do Rio. Alguns subiram sobre caixotes e improvisaram discursos. Juntou tanta gente que a avenida foi interrompida. De lá, foram à praça Mauá e depois ao Itamaraty. Já eram centenas de pessoas quando outra manifestação brotou na Cinelândia. Comícios espocaram em cinco lugares no Centro da cidade. Milhares e milhares de pessoas seguiram para o Palácio do Catete, a sede do governo. Tudo espontâneo.

Vítima de uma prosaica trombada de automóvel, havia meses Vargas não aparecia em público. Ante a eletricidade popular, e a ameaça de curto-circuito, foi à sacada do palácio. Magro e abatido, apoiando-se numa bengala, claudicava. Fez-se silêncio e um estudante de direito discursou: “Aqui estão o povo, as classes trabalhadoras e os estudantes brasileiros, todos reunidos, para protestarmos contra tais agressões e para trazer nossa integral solidariedade a Vossa Excelência.” Ou seja, começou a frase com um rompante e terminou-a com o apoio cerimonioso a “Vossa Excelência”.

O ditador não falava nunca de improviso. Escrevia os seus discursos num estilo insosso e os lia sem ênfases. Daquela vez foi espontâneo, mas não perdeu o prumo. Prometeu que os espiões que passaram aos alemães a rota dos navios iriam “de enxadão, pá e picareta ao ombro cortar estradas no interior do Brasil” – o que nunca veio a acontecer. E findou a fala com um apelo ao retraimento:

Regressem todos vocês aos seus lares, com a consciência tranquila e a cabeça erguida. As ocorrências que se registraram nos últimos dias não afetarão o coração do Brasil. Porque, acima de tudo, o Brasil é imortal. Viva o Brasil!

A multidão respondeu com um “Viva!” uníssono. Quatro dias depois, Vargas reuniu o ministério e leu um telegrama que recebera de Franklin D. Roosevelt, no qual o presidente americano se dizia “chocado e amargurado” com a agressão nazi. Só então o ditador admitiu a “situação de beligerância, que somos forçados a reconhecer”. No final do mês foi publicado o decreto de declaração de guerra à Alemanha e à Itália.

Apresentados de maneira encadeada em Getúlio: Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo (1930-1945), o entrevero no entorno de Vargas e a revolta popular revelam a quintessência da getulice.

No topo do regime, ele agia como um esterilizador. Não deixava que nenhuma personalidade ou política alternativa vicejasse ao seu redor. Cercava-se de mediocridades e impedia que se destacassem, com o fito de impedir que lhe disputassem o poder. Era um homem sem convicções que manobrava entre posições de matiz diverso, quando não antagônicas. A desavença entre os subordinados se cristalizava e a balança pendia para um lado. Só então Vargas fazia a sua escolha, a da banda mais pesada, tendo o cuidado de mimosear os vencidos com migalhas.

Na base da sociedade, o tirano foi um desmobilizador. “Regressem todos vocês aos seus lares” é o que diz à multidão. O assassinato de 600 conterrâneos não dizia respeito ao povo. Era assunto dele, “o coração do Brasil”, que rejeita pressões. A declaração de guerra não podia ser uma imposição popular.

 

A trilogia de Lira Neto será rematada no ano que vem, no sexagésimo aniversário do suicídio de Vargas, com a publicação do terceiro volume. Ainda que seja obra em progresso, desde já é possível classificar Getúlio como um evento. Pela massa formidável de informações, pela narrativa escorreita que as amarra, pelas novidades que encerra, o livro amplia a percepção do político e do país.

A empreitada do cearense Lira Neto era complexa, desanimadora mesmo: deslindar o homem que, no poder e fora dele, condensou a relação entre a sociedade e o poder no século passado. Foram escritos centenas de livros a seu respeito, ensaios e teses que movimentaram a nata da intelectualidade nacional. Biografá-lo a contento não parecia tarefa para um jornalista, ainda mais de província, que até então escrevera livros sobre figuras bem menos expressivas, como a cantora Maysa, o escritor José de Alencar e Padre Cícero.

A biografia é um gênero difícil. Ele traça as características individuais do personagem e investiga como encarna uma sociedade e um tempo. Num período cada vez mais tomado pelo culto a celebridades, sobretudo nos Estados Unidos, ela virou pasto de catadores de intimidades e fofocas. Eles buscam o escândalo e as boas vendas, e não a compreensão abrangente. Raros são os trabalhos como o de Robert A. Caro, o biógrafo do presidente Lyndon Johnson. Com as devidas diferenças (o livro de Caro começou a ser publicado há mais de trinta anos, e se encontra no quarto de cinco volumes), Getúlio tem, no panorama da biografia política nacional, o vigor de Os Anos de Lyndon Johnson.

Diferenças no material pesquisado impuseram alterações do primeiro para o segundo tomo de Getúlio. Os anos 1882–1930, da formação juvenil à obtenção do poder, são os menos estudados da vida de Vargas. Lira Neto preencheu as lacunas com uma admirável pesquisa de fontes primárias. A força do levantamento sobrepujou em novidades o segundo volume, que se circunscreve aos anos 1930–45. Nele, o escritor teve que enfrentar um problema diferente: os opulentos estudos prévios levaram-no a ser mais seletivo.

Como resultado, a vida social tem maior presença no primeiro do que no segundo tomo. A camada social com destaque no volume inicial é a oligarquia. As estâncias atrasadas, a melancolia dos pampas, o patriarcalismo asfixiante, a funda exploração da miséria e o mandonismo dos caudilhos – com recurso frequente a surras e assassinatos – formam a paisagem em que Vargas cresceu.

Com seu conservadorismo positivista, o jovem era fruto de um meio violento e retrógado. O movimento liberal que o levou ao governo central foi, também ele, oligárquico. Mas a sua plataforma em 1930 era coibir o jugo dos grandes proprietários regionais, dar um basta às fraudes eleitorais e democratizar a nação.

 

No segundo volume, constata-se, ele fez o contrário do que prometera. Não que tenha passado a pensar diferente. Simplesmente não acreditava no que pregara antes. Não cria em nada e ninguém, a não ser em si e nas ideias que esposava segundo a sua conveniência. Nesse aspecto, Vargas cabe na matriz da malandragem. Não vestia camisa listrada nem era folgazão, mas se virava. Não tinha compromisso com ideias, dizia uma coisa e o seu contrário, enrolava o quanto podia – não para sobreviver, como o malandro da rua, mas para manter o mando.

Primeiro ele golpeou setores das oligarquias, como na repressão ao movimento paulista de 1932, que quatrocentões cada vez mais decadentes teimam em chamar de “Revolução Constitucionalista”. Depois, partiu para cima dos comunistas, que lhe deram o pretexto de uma quartelada ultraesquerdista. Livrou-se por fim dos integralistas, a quem cortejara com o seu autoritarismo, seu antissemitismo, seus confetes à Itália de Mussolini e à Alemanha de Hitler.

Nos três momentos, o livro impressiona ao captar a fúria fria de Vargas. Ele não vacila em mandar matar, deixar centenas apodrecendo na prisão sem julgamento, espancar seus inimigos de classe até levá-los à demência. Quem acredita na lenda de que o Brasil é pouco dado a violências verificará que ela não passa disso: lenda.

O motor das mudanças no período 1930–45 não foi autóctone. Ele estava no hemisfério norte, especialmente na Europa, nas crises provocadas pelo crescimento anárquico do capitalismo e pela disputa de mercados, que tiveram ápice devastador na Segunda Guerra Mundial. No Brasil, aqueles foram anos de emergência de massas urbanas. Elas adquiriram peso na produção econômica e na vida política. Por vias específicas, participaram da polarização entre fascismo e stalinismo. Nesse aspecto, o segundo volume de Getúlio carece de dados sociológicos que elucidem a inserção do Brasil na história–mundo.

É o que ocorre, por exemplo, com o Partido Comunista do Brasil, o PCB. É impossível entender o partido, particularmente da Intentona de 1935, sem investigar a Terceira Internacional. À época, o aparelho mundial do stalinismo tinha uma política de recusa à aliança com outros partidos operários. Política que, na Alemanha, explica a divisão da classe operária e a tomada do poder pelos nazistas. No Brasil, o PCB, cumprindo ordem da Internacional, arquitetou a malsinada intentona, aplainando o caminho para a ditadura de Vargas.

Quanto melhor uma biografia, contraditoriamente, tanto mais ela parece não dar conta da situação social. É a sociedade que explica o indivíduo, e não o contrário, e a biografia tem uma pessoa como centro. E desde Plekhanov, o primeiro marxista russo, o papel do indivíduo na história é tema sujeito a tornados e tsunamis. Com as luzes fixas sobre Vargas, por vezes Getúlio ilumina a sociedade de modo restrito.

 

Os documentos que servem de ossatura para o segundo volume da biografia são os arquivos pessoais do autocrata, depositados na Fundação Getulio Vargas, e os seus diários pessoais. É uma papelada arisca em quantidade e qualidade. Nos arquivos, há 4 679 entradas para os anos 1930–45, cada qual correspondendo a um conjunto de vários documentos. O diário, publicado em dois volumes com mais de 1 200 páginas, é, sem favor nenhum, um dos livros mais chatos da história da República.

Vargas era um redator sensaborão, que não aprofundava nem generalizava assuntos nos diários. Também não se soltava e só raramente registrava sentimentos íntimos. Anotava com abundância minudências burocráticas que, acumuladas, formam um mosaico de questiúnculas da baixa política. Dezenas, talvez centenas de vezes, ele concluía anotações de fim de expediente com a frase “Tive um longo despacho”. Lira Neto fez um cruzamento prodigioso dos arquivos e diários com fatos do dia a dia, coletados em jornais, completando-o com memórias e biografias dos que cercavam Vargas.

Circunspecto, calado, calculista em tempo integral, Vargas não se deixava ver. Só com duas pessoas ele teve laços afetivos autênticos, Alzira e Aimée. Alzira era a filha predileta. Fez faculdade numa época em que mulheres não estudavam, falava inglês quando o francês era a língua de prestígio, lia muito e era curiosa. Tornou-se secretária e confidente do pai. As cartas que trocaram entre 1945 e 1950, ela no Rio e ele em São Borja, têm tudo para orientar boa parte do terceiro volume da biografia.

Aimée era linda. Alta, esguia, de olhos verdes e modos polidos, tinha ela 24 anos quando conheceu Vargas. Era noiva de um oficial de gabinete dele. O ditador, casado há duas décadas e com quatro filhos, estava prestes a se tornar um cinquentão que, ainda por cima, gostava de jogar golfe. Foram amantes por anos. Vargas se referia a ela como “a bem amada”, e escreveu a seu respeito: “Luz balsâmica e compensadora dos meus dias atribulados.” Não é grande coisa, mas é a única frase um pouco mais bonita do seu diário.

O affaire era apaixonado e, portanto, de urgência sexual. Numa ocasião, em São Lourenço, chegaram às vias de fato no mato, à beira de uma estrada, e Vargas escreveu:

Para que um homem de minha idade e da minha posição corresse esse risco, seria preciso que um sentimento muito forte me impelisse. E assim aconteceu. Tudo correu bem. Regressei feliz e satisfeito, sentindo que ela valia esse risco – e até maiores.

Quando Aimée enfim se desquitou do marido cordato, e o zum-zum sobre o adultério extravasou o Catete, Vargas se agoniou com o caminho que se lhe bifurcava à frente: assumir o amor (“Posso ser forçado a uma atitude inconveniente”) ou perder Aimée.

Perdeu-a: ela foi morar em Paris com a irmã. Vargas, tipicamente, manteve o ex-marido dela no cargo. Às vezes, ia ao apartamento onde costumava encontrar-se com Aimée. Ficava lá durante horas, sozinho diante da cama vazia.

É com suave sobriedade que Lira Neto conta o caso, milimetrando cada adjetivo. Desse modo, apreendeu o dilema corneliano do romance, no qual funestas razões de Estado sepultaram a festa dos corpos. Num país de pouca blandícia e muita malícia, não é pouca coisa.

 

“Não vá falar mal do meu velhinho”, disse a mãe de Lira Neto quando ele lhe contou que biografaria Vargas. Funcionária pública, ela foi uma das milhões de beneficiárias da legislação, por ele implantada, que garantiu alguns direitos aos trabalhadores. Seu pai, um caixeiro-viajante que se apresentava como “representante comercial”, adorava livros e transmitiu o gosto ao filho. Entre as primeiras lembranças de Lira Neto está a de, deitado de bruços no chão fresco para amenizar o calor nordestino, ler um dicionário palavra por palavra.

Lira Neto vendeu cachorro-quente numa banca de rua. Foi balconista na loja de motocicletas de um primo. Bateu chapas de abreugrafia. Como não sabia o que ser na vida, fez um teste vocacional. A orientadora avaliou que era irrequieto e deveria evitar ambientes fechados. Fez então um curso de topografia. Ao menos trabalharia ao ar livre. No primeiro dia de profissão descobriu que não tinha nenhuma queda para topógrafo.

Gostava de ler e cursou filosofia e letras. Não terminou os cursos porque as faculdades eram pagas, e nem ele nem a família tinham dinheiro. Mas aprimorou o gosto pela escrita, e se apaixonou pela literatura norte-americana, com Ernest Hemingway e Henry Miller à frente. Foi poeta marginal (“Péssimo”, reconheceu), desses que vendem versos na porta de cinemas. Elegeu-se para a diretoria do centro acadêmico, mas como era anarquista renunciou na cerimônia de posse. “Pela minha origem social e formação, sou um homem de esquerda, mas sem ser dogmático”, disse.

Já quase entrado nos 30 anos, empregou-se como revisor do Diário do Nordeste. Ele se lembra do que sentiu ao entrar pela primeira vez na redação do jornal: é aqui que quero trabalhar, é isso que sou, jornalista. Fez vestibular, foi aprovado e no segundo semestre do curso estava n’O Povo, onde virou editor.

Com o passar do tempo, cansou de transformar a miséria do mundo em primeira página de jornal. Fez pesquisas para um livro de Fernando Morais, que não foi adiante, e gostou. Decidiu escrever livros provenientes de suas pesquisas. Não era o jornalista mais importante nem em casa: sua mulher se transferiu para Salvador, chamada pela revista Veja para ser chefe da sucursal, e Lira Neto a acompanhou.

Ele tem 49 anos e aparenta menos, talvez porque estivesse de camiseta preta. Transmite tranquilidade devido a uma combinação pouco usual de modéstia e segurança. Ouviu com calma a observação de que sua biografia poderia ter mais interpretação e análises, já que tem na ponta da língua todas as cizânias que envolvem Vargas. “Não fiz isso porque não me sinto capacitado, além de haver dezenas de livros de análise sobre ele”, disse. “Quis apenas contar a história do político e do homem, deixando que os leitores cheguem a conclusões.”

Fez o que se propôs com brio. E por isso talvez o correto seja ver em Lira Neto um homem do povo que adotou a máxima de Machado de Assis: “Aprender investigando.” Tendo demorado a encontrar sua vocação, realizou-a em plenitude ao expandir a compreensão de Vargas.

 

A compreensão é um passo crucial que não implica superação. Essa última só se dá na vida concreta, material. Fechado o segundo volume, a biografia comporta mais uma surpresa: Vargas, o vivaldino, está vivíssimo. Na contracapa, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva elogiam o primeiro tomo de Getúlio. Um nasceu no Rio e outro em Pernambuco, mas ambos viveram seus anos de formação em São Paulo. Nas terras bandeirantes, devem ter se embebido da malquerença a Vargas, subproduto da derrota que ele impôs à oligarquia em 1932.

Mesmo que não tenha sido assim, que seus caminhos tenham sido diversos, foram ambos presidentes que prometeram superar Vargas. O tucano, para reformar o Estado refém da burguesia e outorgante aos trabalhadores. O petista, para acabar com o imposto sindical, pilar da dependência da classe operária em relação ao mesmo Estado. No poder, não fizeram nem uma coisa nem outra. O Estado é o mesmo, o imposto sindical segue sendo uma usina de pelegos, a independência operária ainda está por ser completada, Vargas não foi superado.

Tanto que, na contracapa, Fernando Henrique diz que o ditador “teve a grandeza que só os estadistas possuem”. E Lula afirma que, ao ler a biografia, se viu “andando com Getúlio, fumando um charuto, pela Rua da Praia, em Porto Alegre”.

 

O atraso triunfou. A política institucional continua uma arena onde só matreiros vingam. Palavras e atos não têm correspondência. O radicalismo nítido é borrado pelo acochambramento furta-cor. Fracassados e derrotados sempre retornam – vide Sarney, vide Collor, vide Maluf, vide Dirceu, vide Sérgio Cabral, vide quem for branco e tenha todos os dentes. O jargão dos políticos oculta o interesse de pessoas, grupos, estamentos e classes. Os presidentes não dispõem mais do DIP, mas os seus marqueteiros lhe rivalizam em prestidigitação e engodo.

O próprio título da biografia é indício da permanência da sociedade que gerou o déspota que ia a pé para o trabalho, concedendo sorrisos a passantes bestializados. “Getúlio” é a maneira como ficou conhecido. Cada povo com seus usos e costumes – como disse François Duvalier ao justificar a tortura no Haiti – e aqui os políticos são conhecidos pelo primeiro nome, que os aproxima da gente.

O título “Getúlio Vargas” seria uma solução de compromisso. “Vargas” era botá-lo na história, no limbo bizarro e barroco onde mofam tantos tiranetes, pais dos pobres e grão-senhores de vice-reinados que vicejaram neste canto do planeta, a América Latina. Vargas não há, pois. Mas Getúlio está aí para quem quiser ver. Fernando Henrique, Lula, Dilma, Aécio, Marina, todos almejam entrar para a história como ele.

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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