poesia_FABRÍCIO CORSALETTI

Vestido de batalha

Viva a sopa de lentilhas, sem ela não há poetas

Fabrício Corsaletti

IMITAÇÃO DE CUMMINGS

eu amo você
por sua boca e por seu canino direito
pelo seu modo de morder as
palavras enquanto fala

eu amo você
por suas mãos grandes, independentes
por sua camiseta de renda emprestada
e pela maravilha dos seus olhos sem drama

eu amo você –
a flor adivinha o seu dia de vida?
a nuvem se agarra a uma ilusão?
prefiro uma rosa a viver para sempre

 

HOMENZINHOS DE CHAPÉU FEDORA

eu acredito que meus erros
formam um beco sem saída
onde fui dar fugindo dos gângsters
do meu desespero e antes que eu possa
retornar à avenida onde passeiam
as mulheres de saia
surgem os homenzinhos de chapéu fedora
com metralhadoras
apontadas para mim

o suor me encharca a camisa
e mal consigo respirar

eu levo a insônia a sério

 

FOTO

Inacinha em vestido de batalha
mostra como a perneira

casava com a alpercata

grávida de oito meses
foi alvejada na nádega direita
por um soldado da volante
de João Bezerra

Gato com quem vivia
tentou carregá-la nas costas
mas abandonou-a e fugiu com medo
de também ser preso

na tentativa de resgatá-la
matou treze no caminho

chegou a cogitar a hipótese
de sequestrar a mulher do sargento
para fazer uma troca

um tiro na coluna vertebral
deixou Gato paralítico
da cintura para baixo
três dias depois ele morreu

Inacinha casou com um policial
apelidado Pé na Tábua
porque tinha o hábito de dirigir
em alta velocidade

na prisão deu à luz
um bebê que não resistiu

como era menor de idade
não enfrentou nenhum processo
judicial

Inacinha em seu vestido de batalha
tem me dado forças
para ser o que eu quiser

 

ODE À SOPA DE LENTILHA

1
viva a sopa de lentilha
sem ela não há poetas

viva a sopa de lentilha
que tem sustentado a mim
e a Angélica Freitas

viva a sopa de lentilha
que nos mantém longe dos vícios
que o dinheiro traz

viva a sopa de lentilha
que mostra que todo poeta
é um monge em potencial

viva a sopa de lentilha
que já me valeu um prêmio literário
recebido com terno emprestado
e a barriga cheia de sopa
de lentilha

2

em outros tempos vivi dias mastroianni
bebi dois carros na Vila Madalena
estive em Londres com Maria Flor
e em Paris com Mariana Rocha

mas agora que não trabalho fora
que pago as contas com o que a poesia dá
não posso mais sair de casa
senão a sopa queima

3

seguindo a moda Emily Dickinson
comprei um avental com bolso
onde os poemas aguardam
enquanto pico a cebola

4

é a sopa de lentilha
e não a leitura dos jornais
que me faz sonhar
com um mundo melhor
isto é, livre da sopa de lentilha

é a sopa de lentilha
e não a vontade de chegar aos cem anos
que me afasta do álcool
dos arrastões nos restaurantes
e da gordura trans

etc.

por isso disse e repito

viva a sopa de lentilha
viva o macarrão sem molho
e viva a sopa de lentilha

Fabrício Corsaletti

É poeta e tradutor. Publicou Esquimó e Baladas pela Companhia das Letras

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