esquina

Viagem errada

Redução de danos no Réveillon

Bruno Cirillo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Você é pelo medo ou pelo amor?”, uma jovem de cabelo raspado de um lado só perguntou a Gessé Oliveira. Sem resposta, ela pôs-se a caminhar de forma solene rumo a uma mesa onde havia folhetos, prontuários e um mapa. Prosseguiu o discurso desconexo: “Agora temos um compromisso sério”, disse, acariciando o ventre sob o vestido preto. “Se não der, vou ficar pra tia. Odeio gêmeos.” Sentado de pernas cruzadas na areia, Oliveira – um assistente social de 67 anos e cabelos rastafári – observava tudo com serenidade. Não parecia impressionado com a falta de sentido da moça. “Ela só quer chamar atenção”, contemporizou. “Mas sabe que aqui será acolhida.”

Aquela era a primeira tarde de 2018, e a jovem estava sob uma tenda armada com grossos bambus na praia de Pratigi, ao sul de Salvador. O espaço era parte da estrutura do Universo Paralello, um dos maiores festivais de música eletrônica da América Latina, evento que durou oito dias e este ano atraiu cerca de 20 mil participantes. Situada entre a praça de alimentação e o posto de saúde, a tenda se dedicava a amparar usuários de drogas. Uma faixa definia seu propósito: “S.O.S. Bad Trip!”

A garota que abordou o assistente social de fato parecia ter embarcado numa viagem errada. Talvez tivesse tomado ecstasy ou LSD, drogas que podem desencadear no usuário episódios de pânico e surto psicótico. Zanzando altivamente pela tenda, a moça andou na direção de Oliveira e deu-lhe um abraço demorado. “Tudo acontece na hora certa, pode confiar”, ele reagiu, desejando-lhe feliz ano-novo. “A virada vai ser lá em casa”, ela replicou, com algumas horas de atraso e olhos distantes como Plutão. “Se ela deitar, dorme na hora”, comentou o assistente social, sem ser notado pela moça. “Mas como é um espaço transitório, ela pode sair na hora que quiser.”

Oliveira trabalha para o Coletivo Balance, um grupo especializado na chamada redução de danos, abordagem que busca minimizar o impacto das drogas sem necessariamente combater seu uso. Durante o ano, ele acode usuários de crack na capital baiana, onde mora. No Réveillon, integra o grupo contratado pela organização do festival para dar assistência aos participantes – o coletivo marcou presença nas últimas dez edições do evento.

Na edição deste ano, o grupo mobilizou um contingente de 36 terapeutas e sete coordenadores – incluindo Oliveira –, que se revezaram em três turnos diários de atendimento. Com sombra e água fresca à disposição do público, a tenda acolhia usuários que iam até ali por conta própria ou eram encaminhados pelo posto médico. “A pegada é sempre a mesma”, explicou o assistente social. “Deixar as pessoas confortáveis, ganhar a confiança delas e dizer: Calma, a gente está na Bahia.”

 

OColetivo Balance foi formado em 2006 por Marcelo Andrade, professor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia. Em seu doutorado, ele frequentou festivais de música eletrônica em Salvador e outras cidades e investigou o consumo de drogas nesse ambiente. Constatou que a busca pelos estados alterados de consciência é inerente ao comportamento humano, e que as leis que proíbem as drogas não bastam para inibir esse impulso.

O pesquisador reuniu psicólogos, terapeutas e médicos dispostos a conduzir uma abordagem clínica do uso de drogas alinhada com a redução de danos. O propósito da iniciativa é evitar as piores consequências de aventuras psicodélicas, sem interferir na autonomia dos usuários. “Há um encontro entre os princípios da contracultura e uma opção por métodos de tratamento que não sejam autoritários, excludentes e invasivos”, explicou Andrade.

“A abordagem da redução de danos sempre andou no fio da navalha, por operar numa zona cinzenta em que as fronteiras entre o legal e o ilegal não estão muito definidas”, afirmou o advogado Cristiano Maronna, secretário executivo da Plataforma Brasileira de Política para Drogas. “Ela atua com a perspectiva de que os usuários de drogas não querem ou não conseguem parar, enquanto o proibicionismo tradicional tem a concepção do ‘Diga não às drogas’, baseado na abstinência.”

 

Ao fim da tarde de 1º de janeiro, dois rapazes combalidos repousavam na tenda de redução de danos no Universo Paralello. Estavam jogados nas esteiras de praia à disposição dos usuários e separadas por divisórias de pano. Seu Réveillon parecia ter sido animado. Com muita dificuldade, um deles se levantou e tentou pular a cerca que isolava a tenda para voltar a uma das seis pistas de dança do evento. Um acompanhante de plantão foi até ele e sugeriu que descansasse um pouco mais – recomendação acatada sem grande resistência.

“Ele tomou uma mistura de várias drogas”, disse Gessé Oliveira ao ver a cena. Para evitar rebordosas como aquela, continuou, a recomendação é que os festeiros se alimentem corretamente, tomem água em abundância e procurem dormir bem. Mas o assistente social é o primeiro a reconhecer que os frequentadores do festival não primam por seguir essa cartilha. “Tem gente que passa três, quatro dias sem dormir.”

Uma das preocupações do grupo de Oliveira diz respeito à composição das drogas ilícitas consumidas em festivais como aquele, já que os usuários não têm nenhuma garantia sobre o que estão ingerindo. O Coletivo Balance costuma promover testes químicos para aferir a qualidade de pílulas, selos e comprimidos trazidos pelos participantes. Na edição anterior do evento, chegaram a um resultado alarmante: os comprimidos de ecstasy testados tinham alto teor de ketamina, um anestésico usado em cavalos. “As pessoas estavam catatônicas”, recordou o assistente social.

Os membros do coletivo gostam de frisar que não fazem apologia às substâncias psicoativas, mas tão somente chamam a atenção para seus efeitos no organismo. No fundo, a preocupação do grupo é com a saúde dos usuários. Oliveira costuma dizer que acredita que os entorpecentes não fazem mal a ninguém. “As drogas não andam e nem falam”, argumentou. “O problema é quem toma, e como.”

Bruno Cirillo

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