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Vigias do vernáculo

As tira-dúvidas da ABL

Thiago Camelo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Numa tarde de dezembro último, a professora de português aposentada Rita Bueno estava às voltas com dúvidas suscitadas por uma leitora ao ler a autobiografia de Jô Soares, lançada pela Companhia das Letras. É possível usar “interminadamente” com significado de “interminavelmente”, conforme consta no livro? O plural de “anfitrião” não deveria ser “anfitriões”, em vez de “anfitriãos”? “Estou pasma, considerando que o autor é bastante famoso, tido como intelectual e versado em várias línguas, e a editora também é renomada”, desabafou a leitora. Com a tela azul do computador refletida nos óculos, Bueno suspirou e riu. “O pessoal se preocupa com cada coisa, né? Essa vai dar trabalho.” As dúvidas da consulente, no caso, eram improcedentes: o plural “anfitriãos”, embora não seja o mais usual, é referendado pelo dicionário Aulete Digital; e onde a leitora leu “interminadamente”, o autor havia escrito “indeterminadamente”.

Bueno tem 62 anos e desde 2014 trabalha para o ABL Responde, serviço criado pela Academia Brasileira de Letras para resolver dúvidas de português pela internet. Divide a tarefa com outras três professoras e dedica-lhe um punhado de horas por semana. Num dia típico de sua vida, a tira-dúvidas faz tricô, vai às reuniões do coral, passeia por Laranjeiras, bairro do Rio de Janeiro onde mora, telefona para os filhos, liga o computador e esbarra com a pergunta: “Como faço para ser um imortal?”

A questão é recorrente, mas está longe de ser a mensagem mais estranha que Bueno já recebeu. Numa das mais inusitadas, um consulente obstinado acusou-a de chancelar a palavra “estrupo”. O termo existe, ela explicou, mas não deve ser confundido com “estupro” e quer dizer “um barulho forte, intenso”. As duas estão listadas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, catálogo das palavras do vernáculo editado pela ABL. “Só que o Volp não traz a definição, informa apenas a classe gramatical”, explicou a professora. “Bastava abrir um dicionário.”

 

Um dos patronos do ABL Responde é o filólogo e linguista Evanildo Bechara, imortal de 90 anos e uma das maiores autoridades vivas na gramática do português. Numa entrevista concedida ao lado do time de tira-dúvidas num prédio anexo da Academia, Bechara disse que, quando foi criada, em 1897, a ABL não tinha o propósito de investigar o idioma, mas sim os brasileirismos, o percurso da língua no país. “Achavam que quem deveria estudar o português de verdade eram os portugueses, donos da língua.”

Para o filólogo, esse foi o pecado original da instituição, que começou a redimi-lo com uma nova orientação seguida a partir dos anos 70, capitaneada primeiro por Antônio Houaiss e, mais tarde, pelo próprio Bechara. A Academia passou a zelar pelo estudo do idioma e a falar de igual para igual com os portugueses. Negociou o Acordo Ortográfico em nome dos falantes brasileiros e está à frente dos debates sobre o uso oficial do português no país. “O ABL Responde é consequência dessa nova missão”, disse Bechara.

O serviço é bem específico no tipo de dúvidas que propõe resolver: não se aprofunda em análise gramatical, não palpita sobre questões de provas e concursos e só discute casos concretos. As dúvidas que atormentam os usuários do serviço são provavelmente as mesmas que afligem o leitor: crase, hífen, vírgula, colocação pronominal, flexão do infinitivo. Mais de 200 mil dúvidas foram solucionadas desde a criação da iniciativa, em 2007.

Alguns consulentes parecem crer que os próprios imortais respondem às dúvidas e se apresentam escusando-se por interromper o tradicional chá das cinco. Não faltam escritores que mandem excertos de sua poesia ou prosa. Rita Bueno não se opõe a atendê-los – desde que não lhe mandem a íntegra do novo livro para revisão.

 

Houve meses em que o ABL Responde recebeu mais de 2 mil perguntas. As consultoras respondiam às dúvidas com celeridade impressionante. Mesmo desassossegos maçantes e minuciosos de obcecados pela gramática eram contornados da noite para o dia, às vezes em pleno fim de semana. Além do amor à língua e da vocação pedagógica, as professoras eram movidas também pelo estímulo financeiro: cada questão resolvida rendia-lhes 5 reais. Isso até a crise econômica chegar à ABL.

No segundo semestre de 2018, a instituição demitiu mais de quarenta funcionários, extinguiu a sexta-feira do calendário de trabalho e limitou às quintas-feiras o chá dos imortais, que, antes, acontecia também às terças. As medidas de austeridade não pouparam o ABL Responde, que teve seu orçamento cortado de modo draconiano: as quatro professoras passaram a dividir o acanhado – “simbólico”, corrige Bechara – valor de 1 500 reais. Desde então, cada uma delas passou a analisar apenas 75 questões por mês. A restrição afetou a agilidade do serviço, e as perguntas agora podem aguardar meses até que sejam resolvidas.

“É uma pena”, lamentou a tira-dúvidas Letícia Rolim. “Esse é o serviço que mais aproxima a Academia do público, das pessoas no interior que não têm acesso a nada, e deveria ser valorizado.” Bechara ressaltou, porém, que a ABL não é subsidiada por ninguém. “É uma instituição privada, que vive basicamente de aluguéis desse prédio grande ao lado”, afirmou, referindo-se ao Palácio Austregésilo de Athayde, um imponente edifício modernista inaugurado em 1979 num terreno doado à Academia pelo presidente Médici.

Depois de um momento de silêncio, o clima voltou a ficar ameno quando Bechara evocou a origem do apelido dos acadêmicos. “Certa vez perguntaram ao Olavo Bilac por que se tornava imortal quem entrava na ABL”, contou o filólogo. “Ele, com aquele humor, respondeu: ‘Porque não temos onde cair mortos.’” As tira-dúvidas riram da história até que Zulene Reis fez a ressalva: “Mas tem, né? Aquele mausoléu no São João Batista é lindo”, afirmou, referindo-se ao jazigo coletivo no cemitério carioca onde são enterrados os acadêmicos.

Reis mirou as colegas e deteve o olhar em Rita Bueno. “A língua não está jogada às traças”, disse. Em seguida, girou o pescoço para contemplar os outros interlocutores e Bechara, que a observava atentamente, e completou com sobriedade, para não deixar qualquer margem de dúvida: “Às traças, claro, com crase.”

*

Atualização: este texto foi alterado em relação à versão impressa para acrescentar a última frase do primeiro parágrafo.

Thiago Camelo

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