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Vinte estudos para uma mitologia pequena

É dessa maneira que os deuses vivem entre nós

Marcílio França Castro | Edição 232, Janeiro 2026

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[1] O CIGARRO

Você pega o cigarro, desliza-o entre os dedos, tamborila com o maço sobre a mesa. Você testa o isqueiro, prolonga o silêncio da chama. Sempre se espera alguma coisa antes do primeiro trago. Você levanta a cabeça, solta a fumaça lentamente para o alto. O trago longo substitui um segredo. Você fuma um cigarro atrás do outro, enche o cinzeiro de guimbas. Vários cigarros são o roteiro de um assassinato. Você gosta de fumar no frio, encostado no poste da esquina, no muro do bar. Você esmaga um toco no asfalto, corre pela rua lateral. Você olha pela janela, segura a fumaça no peito, quer fugir sem falar. Você é arrogante quando fuma. Você sobe o penhasco à beira da praia – o mar traga junto com você. Você está deitado na rede, lança a fumaça em anéis, dispensa as cinzas na areia. Cada anel é o fantasma de uma fogueira. Você deixa o cigarro pela metade, o sexo tem gosto de tabaco. Você se torna mais inteligente quando fuma. Um cigarro pode conter momentos e décadas, pode mudar o ângulo de uma história, é a constante metáfora do abandono. Você apaga o cigarro, suspende a leitura. Na cruzada geral contra os fumantes, você pensa, ninguém previu esse efeito colateral. Junto com os cigarros, desaparece também uma forma de dominar o tempo.

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Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz

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