esquina

Virados no centro

A festa na vanguarda da decadência

Juliana Cunha
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Em frente à Praça da República, o primeiro prédio modernista de São Paulo abriga o clube Executivo, uma boate especializada em afters, festas que acontecem depois das festas principais. Todos os dias, exceto terças e quartas, um pequeno amontoado de baladeiros começa a se formar diante do portão vermelho com arabescos, depois que o sol se levanta. São sete da manhã de uma quinta-feira e uma moça coça os olhos, ajeitando os óculos escuros. Apoiados no portão, um casal limpa o pó do nariz um do outro. A casa funciona até as duas da tarde.

Inaugurado em 1938, o edifício Esther tem onze andares e abriga dezoito apartamentos e 94 salas comerciais, incluindo um restaurante por quilo e uma loja de xerox. Até o 5º andar, funcionam estabelecimentos comerciais. Os pavimentos mais altos são quase todos residenciais. Ali moraram Di Cavalcanti e sua mulher, a também pintora Noêmia Mourão. No subsolo onde hoje funciona o Executivo foi idealizado o Museu de Arte de São Paulo.

Com os cabelos muito pretos e os olhos marcados de sombra verde como as mulheres do quadro Cinco Moças de Guaratinguetá, Manuela lembra uma mulata de Di Cavalcanti. Esgueirada entre a porta de entrada e os seguranças, ela tenta convencê-los a deixá-la sair para fumar um cigarro antes de pagar a comanda. “Você acha que eu consigo correr nesse estado? Toma, fica com o meu colar”, propõe a um dos porteiros, que permanece irredutível. “Você sabia que o Maguila já trabalhou aqui, fazendo exatamente isso que eu faço?”, conta o segurança, barrando a saída de outra garota.

 

O Esther sempre esteve na vanguarda, inclusive na vanguarda da decadência do Centro de São Paulo. Na década de 70, foi um dos primeiros imóveis a serem invadidos pelos sem-teto, e nos anos 80 por pouco não foi demolido. A boate no subsolo surgiu em 1947, quando o empresário Júlio Pimenta fez uma proposta irrecusável pelo ponto. Estabeleceu ali a Oásis, provavelmente a primeira casa da cidade parecida com o que hoje entendemos por boate, com música alta e pista de dança, segundo Fernando Atique, professor de arquitetura da Universidade Federal de São Paulo, que estudou a história do prédio.

Quando a Oásis abriu as portas, sua tapeçaria e mobiliário foram exaltados pela revista Acrópole na seção “Os belos estabelecimentos de São Paulo”, curiosidade que relatei entusiasticamente a dois rapazes que se espreguiçavam nos bancos hoje menos dignos de nota do Executivo, numa manhã de sábado. Mas era difícil para os dois, àquela altura dos acontecimentos, prestar muita atenção. “Essa tatuagem foi para a Núbia. Nú-bi-a”, disse um deles, à guisa de resposta.

Paulo é contador e frequenta a casa há seis meses. Em uma conversa que durou duas músicas, ele disse que contratou o DJ da noite (mentira), que é gerente administrativo de uma multinacional (verdade, segundo o LinkedIn) e campeão paulista de paintball (tanto faz). “Aqui onde estamos é uma bolha, um portal. Lá fora as pessoas estão no metrô, já é dia, me dizem.”

A boate Oásis resistiu até o final dos anos 60, quando o subsolo do Esther passou a abrigar uma sucessão de bares e casas noturnas, a maior parte deles especializados em shows de strippers voltados para executivos da Bolsa de Valores.

 

Há seis anos, Elton Silva, produtor de eventos de 30 anos, comprou o ponto e resolveu transformá-lo em casa de festas especializada em after parties. “Fui para a Europa e vi que lá as afters são melhores do que as festas”, conta. Silva acredita que o Executivo tenha sido a primeira boate de São Paulo a trabalhar exclusivamente com afters. “Mesmo hoje, são pouquíssimas, umas cinco, no máximo”, estima. A casa toca sempre a mesma música eletrônica, mas o ingresso varia entre 20 e 50 reais, a depender do preço das festas que aconteceram no dia anterior. “A gente modula o preço para ficar compatível com o público das baladas que rolam na cidade a cada dia”, explica o produtor.

Como tantos lugares do Centro, o Executivo mistura um clima de decadência com uma arquitetura imponente e nostálgica. Analisado sob a luz correta, é um lugar romântico. Tem cara de boate dos anos 90, com globo estroboscópico, fumaça e piso quadriculado em branco e preto. O público é eclético, dada a falta de opções no horário. Na pista iluminada apenas por luzes coloridas, algumas moças se beijam e se lambem, casais heterossexuais trocam carinhos desajeitados, mas até matinê de cinema presencia cenas mais quentes. Todo mundo está virado, de ressaca, entediado ou meio sem rumo.

Frequentadora de outras afters, como Code e The Week, Claudia explica que a beleza do Executivo é a de ser um porto seguro. “Venho para cá quando preciso de um lugar que eu sei que vai estar ali para mim”, diz.

Resenhas na internet mostram opiniões divididas. Algumas classificam o Executivo como “a melhor after de São Paulo”, outras dizem que a pista “fede a esgoto”. O julgamento mais equilibrado parece ser de um rapaz que define a casa como “só a malandragem, o povo podre, lugar fedido e horrível, mas a experiência é mágica”.

Fora dos horários normais de funcionamento, o Executivo é fechado para festas privadas, em geral de universitários ou de imigrantes angolanos. A casa, com capacidade para 300 pessoas, nunca está propriamente cheia, mas em horário algum fica vazia. “Na verdade, é a pior balada que eu já vim”, diz Robert, subchef de um restaurante dos Jardins. “Mas essa é a graça da coisa. É tão ruim que fica bom. E são onze da manhã.”

Juliana Cunha

Juliana Cunha é repórter, tradutora e autora dos livros Gaveta de Bolso, da Prólogo, e Já Matei por Menos, da Lote 42.

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