esquina

Visitas Reais

Para sobreviver à crise, Yeda Crusius recebe até porco falante

Tatiana Bandeira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

O governo de Yeda Crusius não anda bem. O vice-governador está em guerra aberta com a governadora gaúcha. Vários secretários de estado e homens de confiança foram exonerados depois que denúncias de corrupção se abateram sobre eles. Yeda foi forçada a criar um gabinete de transição para lidar com a confusão. São tempos sombrios no Palácio Piratini, isto é: menos às quintas-feiras das 15h30 às 17h30 (fora dias santos e feriados). Durante essas duas horinhas escassas, a governadora se permite rodear de rainhas, princesas e porcos falantes, e a vida parece fácil.

O Rio Grande do Sul é pródigo em festas regionais. Da 17ª Fenasoja à 11ª Festa do Moranguinho e da Cuca (um tipo de bolo), passando pela enésima Festa da Uva, tudo merece atenção. Cada festejo elege suas rainhas, princesas e mascotes. Até a chegada de Yeda ao poder, essa miríade de cortejos insistia em visitar a capital sem hora marcada. A governadora pôs ordem na bagunça: quinta é o dia das visitas. Ela adora, e por 120 minutos relaxa e ri.

Ainda não são 15h30 e mais de cem pessoas se acomodam no Salão Negrinho do Pastoreio. Rainhas e princesas de São Pedro do Sul sentam-se de pernas cruzadas em cadeiras de espaldar alto. Estão ali para representar a 20ª Femasp, Feira Municipal de Artesanato, Indústria, Comércio e Agricultura, e presentearão a governadora com um jogo de toalhas com franjas de macramê. A rainha Rossana Schmitt, de 19 anos, uma bela morena, faz saber que para virar rainha é preciso não só carisma e simpatia, mas também um sólido conhecimento das virtudes do evento de que foi eleita soberana. Rossana está acompanhada de duas princesas: Andressa Lehnhard, 19, e Cirana Ziegler, 20, ambas de vestido de cetim vermelho, organza e veludo, adornado com rendas e pedrarias.

Antes de chegar ao palácio, elas cumpriram o circuito clássico das cortes que vêm à capital: visitaram redações de jornais e a Assembléia Legislativa. Garantem não ter recebido cantadas. “Só cartão de político”, emenda Iolanda Panciera, 60, fada madrinha das três e mãe vicária enquanto estiverem longe das terras seguras de São Pedro. Em matéria de cavalheiros de fina estampa, a rainha da Femasp não hesita em conceder a Nelson Marchezan Jr. o título de Aécio Neves dos Pampas, só que mais bonito. Perfeitamente de acordo, as princesas apenas enfatizam que beleza não põe mesa, mas abre o apetite.



 

A porta principal do gabinete executivo se abre e Yeda Crusius entra no salão. Casaco xadrez, saia e blusa marrons, botas, batom discreto — além de um inegável ar de bem-aventurança. Flashes espocam. As cortes se empertigam, os vestidos se endireitam e faixas são discretamente alisadas por mãos jovens e macias. Começa o beija-mão.

A primeira corte a ser recebida é da 16ª Fenadoce, de Pelotas, devidamente composta por rainha, princesas — uma delas, reincidente, pois outrora foi princesa da Femorango —, assessores e prefeito. Sob o sorriso orgulhoso do alcaide Adolfo Antonio Fetter Jr., as moças avançam em direção à governadora e, atentas para não derrubar as coroas que equilibram na cabeça, entregam-lhe bem-casados, quindins, beijos-de-mulata e trouxinhas de nozes. A governadora agradece, encantada, e passa adiante. “Ela disse que vai comer”, cochicha o esperançoso Fetter Jr., aproveitando para apregoar as maravilhas pelotenses e o esmero com que a festa é organizada: “Tem formigão gigante, espalhamos esculturas coloridas pela cidade, as crianças adoram.” O prefeito, que também gosta muito, chegou a tirar foto encarapitado num formigão.

O salão é tomado pela algaravia. Um violinista se põe a tocar, mas sua doce melodia é engolida pelo trovão de vozes que entoam Merica, Merica, canção popular do Vêneto que celebra a aventura da imigração. Trata-se do grupo Coraleto Amici della Massolin Cantori, que se plantou no salão para convencer Yeda Crusius a prestigiar pessoalmente um festival de vinhos.

Adiante, um porco aguarda sua vez de falar. “Sou um porco que fala muito bem”, manifesta-se Giancarlo Filter, de 40 anos, mascote de espuma da Suinofest 2008. Além de suíno de espuma nas horas vagas, Filter é também publicitário. Seus 105 quilos contrastam violentamente com os 45 quilos de Raíza Acosta Oliveira, 14, miudinha como sói à rainha da 13ª Mapemi, Mostra Internacional da Pequena e Micro Indústria de Santa Vitória do Palmar. Rainha de dois reinos, Raíza está ali como agente dupla: ela promove também a 2ª Febutiá, Feira do Butiá, uma fruta nativa de sua região. Infelizmente, prestígio não alimenta. Raíza, se já é magrinha, está definhando a olhos vistos. Desde que chegou só lhe ofereceram água e café. “Podiam servir uma bolachinha”, reclama a esfomeada.

Yeda Crusius cumpre a agenda e se retira para o gabinete, onde cruza as pernas e calcula o número de comitivas que receberá nas próximas semanas. “Devemos ter muitas visitas este mês, cerca de doze grupos por quinta. Só aí já dá 48 cortes.” Ou seja: enquanto houver, por exemplo, a Festa do Chocolate, Cuca e Lingüiça (Choculin), a Festa Nacional do Chimarrão (Fenachim), a Festa Estadual do Abacaxi, o Concurso Rainha das Piscinas do Vale do Rio Pardo, o Festival Brasileiro de Aves Migratórias, a Encenação da Batalha do Pulador, a Festa da Cachaça, Sonho, Rapadura e Arroz ou o Festival de Cometas e Pandorgas, a governadora terá garantidas suas duas horas semanais de refrigério. “É um oxigênio, deixo a crise do lado de fora”, ela assevera, e espicha o olho para um bem-casado.

Tatiana Bandeira

Leia também

Últimas Mais Lidas

O Minotauro da fronteira 

Como um dos chefes do PCC deixou um rastro de mortes e corrupção no Paraguai

Na piauí_167

A capa e os destaques da revista de agosto

Dispositivo de alerta

Morador provisório do Alvorada mostrou não estar à altura do cargo para o qual foi eleito, assim como seu clã de três zeros

Bolsonaro, o favorito?

Se não aumentar atual taxa de aprovação, presidente chegará a 2022 em situação desconfortável; até lá, arma a retranca e joga a torcida contra o juiz

No app da inclusão

Jovens negros da periferia apostam na tecnologia como ferramenta contra o racismo

Foro de Teresina #111: A república rachada de Bolsonaro

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Álcool, pancadas na cabeça e poluição, novos riscos para o Alzheimer

Teste aponta propensão para a doença vinte anos antes de sintomas aparecerem; estudo inédito identifica três novos fatores a evitar para não desenvolver o mal

Moral religiosa é mais forte no Brasil do que em países com renda parecida 

Diretor de escola de Oxford analisa pesquisa global do Pew Research sobre moralidade e fé e explica por que a cultura brasileira faz do país um ponto fora da curva na questão

Mortes visíveis – o reencontro de Sérgio Ricardo, Dib Lutfi e Glauber Rocha

Contaminados pelo novo coronavírus, milhares de mulheres e homens perderam a vida – morreram de Brasil

Mais textos
3

Carbonos do pop

Falsos gringos e indústria cover no lado B da canção brasileira

4

Por que as crianças gostam de Valtidisnei

De como me perdi de minha família ao ver Pinocchio, fui parar num reformatório, e a reencontrei numa sessão de Bambi

5

O sem-carro

Sinistro foi o dia em que Diesel concebeu o seu funesto engenho

7

O calculista

A estratégia de Marcelo Viana para fazer o Brasil ser reconhecido como parte da elite da matemática

8

Direita, volver

Pré-candidato à Presidência, Jair Bolsonaro coloca o ultraconservadorismo no jogo eleitoral

9

O que é fascismo

Quando uma palavra se transforma em palavrão

10

A crise que deixou o Posto Ipiranga sem resposta

Com avanço do coronavírus, queda do preço do petróleo e recessão no horizonte, economistas cobram do governo Bolsonaro investimento público e ação além da cartilha fiscalista