esquina

Voyeurismo ortográfico

Sou besta, egoísta, classista, perfeccionista, mimada, invejosa

Clara Becker
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Para Sergio da Silva Barcellos, de 45 anos, diarista é quem escreve diário. Pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ele se debruça há cinco anos sobre a escrita diarística no Brasil — com uma peculiaridade: só lhe interessa a intimidade de pessoas comuns, nada de personagens históricos. A quem pergunta, Barcellos se define como um voyeur, ou, em bom português, “um xereta”. Tem como projeto formar o que chama de “Arquivo de Narrativas de Vida no Brasil”, algo que reúna qualquer escrita pessoal que não tenha a intenção de ser publicada. Por ora, em definitivo, conta apenas com as anotações de três autores, embora tenha lido, anotado e devolvido mais de cinquenta diários. “Recebi e-mails de trinta novas pessoas dispostas a doarem seus escritos”, se adianta.

Barcellos diz que não querer ser publicado não é sinônimo de não querer ser lido. “Eu não acredito que um diário seja escrito para ninguém. Os que são verdadeiramente para ninguém acabam destruídos”, justifica, citando o papa do estudo diarístico, Philippe Lejeune, fundador da Association pour l’Autobiographie et le Patrimoine Autobiographique, um grupo que reúne aficionados por ler diários alheios, na França. Mesmo que a maior parte dos textos não tenha qualidade literária, Barcellos diz, com brilho nos olhos, que a leitura, ainda assim, é fascinante. De fato, encarar um caderno de 100 páginas, com gatinhos na capa, abrindo com a frase “Eu sempre desejei escrever meu diário”, só pode ser tarefa para apaixonados.

Seu interesse pela intimidade vizinha vem de infância. Barcellos cresceu em um conjunto habitacional na Cidade de Deus, onde todos sabiam da vida de todos. “Ouvia até coisas que não queria”, lembra. Hoje, morando em um pequeno apartamento na Barra da Tijuca, se orgulha de ter lido os mais variados diários, de damas da corte japonesa do século x a adolescentes do século XXI (a maior parte deles, quando fazia pesquisas na França). Por alto, concluiu o que já sabia: “As mulheres são mais sutis, ficam no sentimental, já os homens não conseguem fugir de sexo e poder.” Ele diz não ter preferência ou preconceito. “Gosto de ver a imagem que cada um faz de si.”

Para abrir um diário, Barcellos segue um ritual regrado. Senta-se à mesa de jantar, aproxima um abajur do caderno e tira qualquer objeto que esteja no raio de alcance. Seria criminoso manchar de café o testemunho histórico de outrem. Começa pela análise do objeto em si — que pode ser desde um caderno de couro com páginas amareladas a uma agenda colorida, com fechadura na borda. “Um detalhe desses já diz muito sobre a pessoa”, ensina. Depois, se entrega ao conteúdo. “Quanto mais subjetivo nos sentimentos o autor for, mais intruso me sinto. Normalmente, tem muito sofrimento.” Para comprovar, cita o caso de uma adolescente que, em 2004, escreveu: “Sou besta, egoísta, classista, perfeccionista, mimada, invejosa, inteligente, medrosa, otimista, alegre, extrovertida, comunicativa, sincera, mentirosa. Não é nada tão grave, porque não penso no mal alheio. Só penso no excesso de bem próprio.”



 

Barcellos é delicado ao manusear os diários. “Tenho que tomar cuidado com os vestígios”, explica. Por vestígios entenda-se: recortes de jornais, ingressos, bilhetes, guardanapos, fios de cabelos, folhas secas, fotos e outras quinquilharias que pendem das páginas. Devido à miopia e ao astigmatismo acentuados, ele tem dificuldade com a caligrafia, principalmente se escrita pela “geração do computador”, como chama. Sempre que esbarra com uma letra irreconhecível, tenta reproduzir o rabisco em um pedaço de papel. Vai montando uma espécie de glossário, que depois de muito acerto e erro, acaba por resultar em um alfabeto do diarista. “Já estou melhorando na leitura, mas ainda perco muito tempo.”

Com o conhecimento acumulado, Barcellos entendeu que a fúria do outro é o júbilo dele. “Não só pelo conteúdo, mas pelo estilo mesmo. A letra fica maior.” Pegou como exemplo as anotações de uma adolescente, escritas em um caderno rosa da Hello Kitty. No dia 8 de novembro de 2006, a autora brigava com o próprio diário, em letras garrafais: “Não vou mais escrever em você. Vou mimir, tô com sono!!!”

“Já o casamento é um dos grandes inimigos da escrita diarística”, contrasta, lembrando que é comum mulheres deixarem de escrever depois do matrimônio. Com um caderno verde de couro em mãos, explicou: “Essa era meio chatinha, só queria arranjar um namorado. Muito romântica.” A autora manteve o diário de 1935 a 1954, escrevendo assiduamente nos primeiros anos. Em 1937, chegou a desperdiçar linhas divagando sobre a própria atividade: “A página branca, onde minha pena corre ligeira, escrevendo a história da minha felicidade. Uma página branca e linda que eu virei, devagarzinho, coração pulsando de felicidade.” Dali a sete anos, depois de noivar, casar e engravidar, a autora já era mais objetiva: “Geralmente só escrevo nesse caderno quando algum acontecimento de vulto ilumina ou ensombra nossa vida.” (Ainda bem, para a continuidade do diário, que ela incluiu a palavra “ensombra”.)

Qual um cinéfilo que nunca dirigiu um filme, Barcellos não teve um diário próprio. Até tentou, mas não passou de duas entradas. “Poso demais, sou insincero. Fica artificial.” Freud explica: quando tinha 10 anos, escreveu duas cartas para o Clube da Amizade, um espaço aberto para que leitores do gibi Tio Patinhas se correspondessem entre si. Como faltasse dinheiro à família, o menino se via obrigado a guardar as cartas enquanto juntava o montante necessário para enviá-las. Certo dia, sua mãe e duas irmãs acharam as missivas — e Barcellos virou motivo de chacota. Nunca mais se arriscou.

Clara Becker

Clara Becker é jornalista e vive no Irã. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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