poesia

Vozes do porão

Estes poemas foram escritos por prisioneiros muçulmanos mantidos na base naval americana de Guantánamo, Cuba. À falta de lápis e papel, alguns foram compostos com pasta de dente em copos de isopor. A tradução para o inglês foi feita em condições estritamente controladas pelo Pentágono, que não liberou os originais. Assim, o que apresentamos aqui são traduções para o português de versões inglesas de textos escritos em árabe, sujeitos a cortes feitos por censores. O mérito literário do conjunto é irregular: muitos de seus autores foram levados a escrever poesia pela primeira vez na prisão, quiçá por solidão, talvez para combater a impotência.

O importante, nesses textos, é que eles nos dão acesso, ainda que limitado, ao “buraco negro” de Guantánamo. Nas palavras do poeta americano Robert Pinsky: “Eles merecem, acima de tudo, não admiração, crença ou empatia – mas atenção”.

 

Eles lutam pela paz
(Chākir ‘Abdurrahmān ‘Āmir)

Paz, eles dizem.
Paz de espírito?
Paz na terra?
Paz de que espécie?



Vejo-os falar, discutir, combater –
Que espécie de paz procuram?
Por que matam? O que estão planejando?

Serão palavras vazias? Por que discutem?
Será tão simples matar? É esse o seu plano?

Sim, é isso, claro!
Eles falam, discutem e matam –
Eles lutam pela paz.
Não me queixarei
(‘Abdulazīz)

Não me queixarei a ninguém, nem esperarei graças de ninguém senão Deus,
que Deus me guarde.

Ó Senhor, meu coração está atormentado.

Não me queixarei a ninguém senão a Ti, ainda que os mares se queixem de secura.

Meu espírito está livre nos céus, enquanto meu corpo está dominado por grilhões.

Louvado seja Deus, que me deu paciência em tempo de adversidade e gratidão em tempo de alegria.

Louvado seja Deus, que plantou um jardim e um pomar em meu peito, para que estejam sempre comigo.

Louvado seja Deus, que me deu fé e me fez muçulmano.

Louvado seja Deus, Senhor do mundo.
Leões na jaula
(‘Ustād Badruzzamān Badr)

Somos os heróis deste tempo.
Somos a juventude orgulhosa.
Somos os leões hirsutos.

Vivemos nas histórias, agora.
Vivemos nas epopéias.
Vivemos no coração do público.

Somos o escudo diante do opressor.
Nossa coragem é como uma montanha.
O faraó de nosso tempo está intranqüilo graças a nós.

O Chefe do Palácio Branco,
Como outros chefes ímpios,
Não vê nossa paciência.

O torvelinho de nossas lágrimas
Célere aproxima-se dele.
Ninguém resiste ao poder dessa inundação.

No mais das vezes, nestas jaulas,
À meia-noite as estrelas
Trazem-nos boas novas:

Haveremos de vencer,
E o mundo espera por nós,
A Caravana de Badr.
Poema da morte
(Jum‘ah Al-Dūssarī)

Tomem meu sangue.
Tomem meu sudário e
Meus restos mortais.
Tirem fotografias de meu cadáver na cova, solitário.

Espalhem-nas pelo mundo,
Entre os juízes e
Pessoas de consciência,
Entre os homens de princípios e os justos.

E que eles arquem com o fardo culposo, perante o mundo,
Desta alma inocente.
Que arquem com o fardo, perante seus filhos e a História,
Desta alma desperdiçada, impoluta,
Desta alma que sofreu nas mãos dos “protetores da paz”.
Primeiro poema de copo
(Xeique ‘Abdurrahīm Muslim Dost)

Que espécie de primavera é esta,
Em que não há flores e
Paira no ar um cheiro infame?
Segundo poema de copo
(Xeique ‘Abdurrahīm Muslim Dost)

Algemas convêm a rapazes destemidos,
Pulseiras são para solteironas ou mocinhas bonitas.
Ode ao mar
(Ibrahīm Al-Rubaich)

Ó mar, dá-me notícias de meus entes queridos.

Não fossem os grilhões dos infiéis, eu teria mergulhado em ti
E chegado a minha amada família, ou perecido em teus braços.

Tuas praias são tristeza, cativeiro, dor e injustiça.
Teu amargor corrói minha paciência.

Tua calma é como a morte, tuas ondas arrebatadoras são estranhas.
O silêncio que se eleva de ti contém a traição.

Tua imobilidade matará o capitão se persistir,
E o navegador se afogará em tuas ondas.

Suave, surdo, mudo, indiferente, feroz na tempestade,
Tu abrigas sepulturas.

Se o vento te enfurece, tua injustiça é evidente.
Se o vento te silencia, só resta fluxo e refluxo.

Ó Mar, ofendem-te nossos grilhões?
É sob coação apenas que vamos e voltamos todo dia.

Tu conheces nossos pecados?
Compreendes que fomos lançados nesta treva?

Ó Mar, tu escarneces de nós em nosso cativeiro.
És cúmplice de nossos inimigos, e nos manténs sob guarda cruel.

As rochas não te falam dos crimes cometidos entre elas?
E Cuba, a derrotada, não traduz suas histórias para ti?

Há três anos que jazes a nosso lado, e o que ganhaste com isso?
Barcos de poesia no mar; uma chama enterrada num coração ardente.

As palavras do poeta são a fonte de nosso poder;
Seu verso é bálsamo para nossos corações doridos.
Mesmo que aumente
(Siddīq Turkistānī)

Mesmo que aumente a dor da ferida,
Remédio haverá que a cure.

Mesmo que perdurem os dias de prisão,
Dia virá em que seremos livres.

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