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Witzel, o mentor

O ex-governador ensina as regras de ouro do concurso público

Luigi Mazza
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Antes de iniciar sua breve e desastrada carreira de governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel dedicou a maior parte da vida a um só propósito: passar em concursos públicos. Fez todas as provas que se possa imaginar. Ainda adolescente, aos 13 anos, concorreu a uma disputada vaga na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, da Aeronáutica, em Barbacena (MG). Acabou reprovado porque usava óculos. Em seguida, fez prova para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas (SP), mas novamente foi barrado no exame físico – dessa vez, a alegação foi de que seus pés eram chatos (os “pés planos”, como são conhecidos pelos médicos, podem causar dores e problemas sérios nas articulações).

Ao concluir o ensino médio, veio uma nova bateria de exames frustrados: não passou para o Curso de Formação de Sargentos da Aeronáutica, em Guaratinguetá (SP), nem para a Academia de Polícia Militar do Barro Branco, na capital paulista. “Mas isso não me abateu”, ele diz. Aos 18 anos, finalmente, foi aprovado no curso de formação de fuzileiros navais, no Rio de Janeiro. Tornou-se tenente da Marinha, mas por pouco tempo. Assim que se formou em direito, nos anos 1990, alçou novos voos: fez concurso e virou analista do Instituto de Previdência e Assistência do Rio de Janeiro (Previ-Rio). Na sequência, fez prova e se tornou defensor público. Por fim, passou em novo concurso e virou juiz federal.

“Superar desafios é perseverança”, ensinou Witzel, em meados de julho passado, num workshop transmitido ao vivo pelo YouTube. Desde que perdeu de vez o cargo de governador do Rio, em abril deste ano, acusado de fraudes em contratos da saúde durante a pandemia, o ex-juiz virou a chave. Inelegível por cinco anos, devido ao impeachment, decidiu retomar seu espírito concurseiro para dar dicas a quem pretende entrar para o serviço público – e, se possível, ganhar algum dinheiro com esses conselhos.

 

A primeira aula do projeto aconteceu numa quinta-feira à noite e recebeu o nome de Mentoria WW – Como Se Preparar para Vencer Desafios. Cinquenta pessoas se inscreveram no workshop, mas, no momento de maior audiência naquela noite, apenas nove assistiam à aula. Os ingressos foram vendidos online, por lotes, conforme a ordem de inscrição: o primeiro lote era gratuito, o segundo custava 20 reais e o terceiro, 40 reais. No fim das contas, o ex-governador – que se apresenta no site do evento com o título de “professor doutor Wilson Witzel” – embolsou em torno de 500 reais. “Eu preciso pagar a doutora Helena Witzel, que está aqui me assessorando”, ele brincou, na aula, referindo-se à sua mulher. A gravação foi feita na casa da família Witzel, no bairro do Grajaú, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Vestindo camisa social azul, sentado em frente a uma estante de livros e a uma estátua de Têmis, a deusa grega da justiça, Witzel conduziu a aula durante quase duas horas. Contou sua trajetória de vida e mostrou fotos da juventude. Numa delas, aparece tocando um trompete. “Minha primeira formação para o concurso público foi a música, porque ela ajuda a memorizar. Eu tinha que decorar sessenta partituras para tocar na banda marcial”, explicou. Em outra fotografia antiga, ele aparece cabeludo, trajando o uniforme de fuzileiro naval. “Foi a vida militar que me ensinou disciplina.”

A disciplina é um ponto central do curso. “Vou dizer logo: você tem que estudar, no mínimo, quatro horas por dia. Dica preciosa que estou dando”, frisou Witzel. “Agora, na véspera do concurso, o céu é o limite. Sábado e domingo eu estudava durante oito horas. Ia em festinha de aniversário dos meus filhos e levava comigo o Código Penal.” A vida de quem presta concurso é uma vida abnegada, explicou o ex-governador. “Bebida alcóolica, drogas, noitadas – nem pensar. Não fazem parte do cardápio do concurseiro.”

Conseguir tamanha dedicação aos estudos, reconheceu Witzel, não é fácil. É preciso encontrar algo que incentive. O ex-governador contou que, para ele, vídeos motivacionais cumprem bem essa função. “Quem não se emociona vendo o Usain Bolt [velocista jamaicano] ou nosso querido Ayrton Senna com a Marcha da Vitória?”, indagou, sorrindo.

Para manter os alunos estimulados, Witzel criou um canal de mensagens no Telegram, aplicativo semelhante ao WhatsApp. Lá, publica fotos de si mesmo – em uma delas, aparece malhando e chamando atenção para a importância do exercício físico – e faz algumas enquetes. Dias antes do workshop, perguntou: “Qual o animal que você se identifica em relação ao momento que você está vivendo?” Dos 57 votantes, a maioria escolheu a águia (51% dos votos). Era a resposta que ele queria. Na sequência, publicou a foto de uma paisagem com um trecho da Bíblia, dizendo que aqueles que têm fé “voam nas alturas como águias, correm e não perdem as forças, andam e não se cansam”. “É inspirador. A águia é um animal extraordinário!”, acrescentou.

 

Witzel ensina que há dez regras de ouro para quem deseja ser um concurseiro bem-sucedido. São elas: foco, planejamento, disciplina, motivação, metodologia, fontes de conhecimento, cursos de apoio, grupos de estudo e mentoria. Esta última, é claro, cabe a ele prover. “Vou te ajudar a escolher o material adequado para estudar para a prova”, garantiu. “É igual jogador de futebol: se usar uma chuteira que não foi feita para jogar na grama, ele vai escorregar muito. Eu vou te dizer qual chuteira usar.”

Para isso, Witzel oferece um pacote completo: além dos workshops ao vivo, ele promete fazer um diagnóstico da situação de cada aluno, além de aconselhamentos individuais e em grupo, mediante pagamento. No futuro, pretende até lançar um podcast. O projeto como um todo recebeu o nome “Desistir Jamais”. “Quero formar um grupo seleto de combatentes concurseiros para carregá-los até a sua posse”, afirmou, com otimismo.

O projeto, no entanto, ainda precisa engrenar. No primeiro workshop, a última meia hora havia sido reservada para que Witzel respondesse perguntas do público. Como nenhum dos nove espectadores enviou dúvidas, a aula terminou antes do horário previsto. Dois dias depois, o ex-governador remeteu aos alunos uma planilha com algumas questões para, assim, avaliar as principais dificuldades da turma. Desde então, ninguém mais se pronunciou no Telegram, e não foram anunciadas novas aulas.

Luigi Mazza

Repórter da piauí

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