esquina

“Zhé shì shü – está coleto, pessoal!”

Os chineses estão chegando

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

“Palabéns! Está tudo elado!” Su Mei abriu um sorriso, passou a mão na caneta Pilot e começou a corrigir a lista de palavras que os alunos haviam acentuado. Era aula de chinês, uma língua tonal, o que significa que nela o sentido das palavras depende do tom em que são enunciadas. Tome-se kàn-shū. Em tom ascendente, o sonzinho significa “ler-livro”; em tom descendente, “cortar-árvore”. Os riscos são evidentes. Com uma simples troca de sinais, Wǒ zài kăn shù vira Wǒ zài kàn shu, e o incauto estará cortando uma árvore em vez de ler um livro. Imagine se for ambientalista e tiver de explicar para o chefe da ONG.

Feitas as correções, Su Mei pediu que a classe repetisse as palavras em voz alta. O som do coro lembrou notas musicais emitidas por uma flauta de madeira – não muito afinada, é verdade, mas, ainda assim, quase uma melodia. Muito alegre, Su Mei afirmou que as palavras haviam sido pronunciadas “coletamente”. Ela não poupa elogios aos seus discípulos.

Huang Su Mei, ou Cléa Huang – nome que adotou para facilitar a vida dos alunos – é uma mulher magra, pequena, de 40 anos, que em 2002 deixou a sua Taiwan natal em busca de aventuras no Brasil. Seis meses atrás, veio a surpresa: um convite para ensinar mandarim nas escolas municipais de São João da Barra, no norte fluminense. É uma das cidades mais pobres do estado, embora suas águas territoriais abriguem o Campo do Roncador, o maior em exploração na Bacia de Campos. Ali, cerca de 12% dos 30 mil habitantes são analfabetos. Mas a prefeita Carla Machado encasquetou que o chinês é a língua do futuro, e foi graças a essa perspicácia que Su Mei passou a lecionar três vezes por semana em seis escolas do município.

Há três anos, a ideia da prefeita parecia meio delirante, pois o único vínculo da cidade com a China era o Chinês, um bloco de carnaval cujos integrantes jamais haviam pronunciado uma palavra tonal na vida. Mas em 2008 chineses de verdade começaram a aparecer em São João da Barra, na esteira da construção do Porto do Açu, uma obra monumental de propriedade do empresário Eike Batista. Em 2012, quando deverá ser inaugurado, os construtores dizem que o porto se equiparará em tamanho ao de Roterdã, na Holanda, o maior do mundo, com a vantagem de contar com um entorno de 90 quilômetros quadrados, o que equivale a uma cidade do tamanho de Vitória. As duas fazendas de gado que havia no lugar serão substituídas por um complexo industrial.

São João da Barra decidiu instalar Su Mei na cidade depois que a Wisco, a maior siderúrgica da China, fechou contrato para a construção de uma subsidiária no porto. “Temos que treinar a população para trabalhar nas companhias chinesas que virão para cá”, diz Vitor Diniz, secretário de comunicação da prefeitura.

Justamente, comunicar-se com os novos parceiros tem sido uma encrenca. Em fevereiro, um grupo de mais de trinta executivos chineses veio visitar as obras do porto. Su Mei estava lá como intérprete, mas uma coisa é traduzir mamão ou pirulito, outra é saber como se diz calado ou atracadouro. Su Mei certamente precisará de ajuda. Estimativas preveem que o negócio crescerá tanto, que em 2025 a população de São João da Barra saltará de 30 mil para 200 mil habitantes. Parte deles serão chineses.

 

No final de março,pouco antes das 14 horas de uma tarde chuvosa, Maria Carolina Gomes do Amaral, de 20 anos, chegou à Escola Municipal Domingos Fernandes da Costa. Trazia uma cartilha vermelha intitulada Chinês para Brasileiros. Ela faz letras em Campos, a 40 quilômetros de São João da Barra, e há seis meses frequenta o curso de mandarim. “Quero aprender a falar para trabalhar no porto, que é o sonho de todo mundo por aqui”, disse. Para mostrar que está no caminho certo, declarou: “Zhè shì yī bĕn shū” – “Isto é um livro” –, e aí sorriu, feliz da vida. Maria Lúcia de Abreu Peixoto, funcionária da prefeitura, foi a segunda aluna a chegar. Seu plano é trocar o serviço público pelos chineses: “Dizem que eles vão pagar muito bem.”

No ano passado, Carolina e Maria Lúcia entraram num sorteio da prefeitura e, com outras noventa pessoas – dentre mais de 700 inscritos –, ganharam o direito de estudar mandarim gratuitamente. No dia do sorteio, uma pequena multidão lotou o auditório da prefeitura. Foi um acontecimento na cidade. “Achei que não ia ganhar porque nunca tenho sorte com essas coisas”, disse Lúcia. Seu nome foi o primeiro a sair. Rommenick Araújo Ribeiro, um biólogo de 24 anos que também dá expediente na prefeitura, conseguiu uma vaga, mas suou: “Fiquei nervoso no dia. Rezei muito.”

O restante da turma é composto de estudantes do segundo grau. Os seis melhores alunos de cada escola do município ganharam vaga sem necessidade de sorteio. Danilo Barreto de Souza, 14 anos, pai pedreiro, mãe dona de casa, é um deles. “Estou gostando. Vai melhorar o meu currículo e eu posso trabalhar no porto”, disse. É a mesma esperança de Luciene da Silva, 19 anos, meio escondida no canto da sala. Chinês é difícil, ela admite, mas nada que se compare ao inglês, idioma em que fracassou antes de alcançar o estágio The book is on the table.

Su Mei tem muito chão pela frente. Por enquanto, apesar do esforço, a competência linguística de seus alunos não encara os berços de atracação e a batimetria – a qual, como todos sabem, vem a ser a ciência que mensura o calado –, mas vai indo. Eles já contam até dez e – isso impressiona – aprenderam a cantar uma musiquinha de criança em chinês. É assim:

Liăng zhī lăo hǔ

Liăng zhī lăo hǔ

Păo dé kuài

Păo dé kuài

Yì zhī méi yǒu yăn jīng

Yì zhī méi yǒu ĕr duō

Zhēn qí guài

Zhēn qí guài.

 

Em São João da Barra, só Deus e Su Mei têm certeza de que isso é a letra de Frère Jacques.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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