esquina

Zizek, o Moisés da dialética

Vino puro, cazzo duro!

Mario Sergio Conti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Como se pronuncia Žižek? “Não se preocupe, meu nome é pronunciado errado universalmente”, ele respondeu. “Fico tanto tempo sem ouvir meu nome de verdade que, quando o escuto, acho que é um policial esloveno querendo me prender.” Numa tarde calorenta de outubro, o filósofo esloveno Slavoj Zizek estava no saguão de um hotel a três quadras da praia de Copacabana. Com 59 anos, atarracado, grisalho, barbado e cabeludo, parecia um urso cinzento.

Um afável urso meia-oito, de jeans puído e camisa amarfanhada, que quando falava (e ele não parou de falar nem por cinco segundos) gesticulava um dos braços com frenesi, enquanto o outro permanecia imóvel ao longo do corpo. A cada dez minutos, a tese virava antítese, e vice-versa: o braço que estivera em ação descansava, e o outro passava a se mover descoordenadamente.

“Está bom, está bom: é Jíjék“, sintetizou. “Aqueles dois vêzinhos em cima dos zês viram j e fazem o acento cair na vogal seguinte. Fico ridículo com os vêzinhos: pareço Moisés descendo do Monte Sinai com as Tábuas da Lei. Ou um chifrudo, um corno. É bom eu voltar rápido para Buenos Aires!”

Žižek mora em Liubliana, a capital da pequenina Eslovênia – república centro-européia menor e com menos gente que Alagoas – onde vivem seus dois filhos. E mora também em Buenos Aires, com a segunda mulher, uma jovem manequim de lingerie que, como o marido, é lacaniana heterodoxa. Entre uma casa e outra, ele faz palestras em universidades prestigiosas de todo o mundo, nas quais lota auditórios ao difundir a boa-nova do marxismo.



A sugestão de ir tomar um café perto da praia o deixou horrorizado. Como observou, suava como uma vaca, e tinha que tomar uma chuveirada antes de sua conferência, à noite. Ele esteve no Brasil para fazer palestras em São Paulo e Salvador, além do Rio, e lançar A Visão em Paralaxe, publicado pela Boitempo, livro que dedicou à esposa, uma sílfide de parar o trânsito – Para Analia, el axioma de mi vida.

O filósofo pediu uma Coca-Cola e comentou que o velho clichê sobre o Brasil é verdadeiro: “De fato, os pobres e milionários, os brancos e os negros estão todos misturados nas ruas. Sei que isso não muda a vida dos pobres, mas é importante ser confrontado com a miséria.” Botou um fecho de ouro no raciocínio com um aforismo que atribuiu a Kierkegaard – “Se os pobres não fizessem barulho, ninguém saberia que sofrem, exceto eles mesmos” – e começou a criticar seus colegas acadêmicos.

“Conheço dezenas de professores universitários radicais, marxistas puros”, disse. “Porque é muito fácil fazer críticas abstratas ao capitalismo e passar a vida sem dizer um ai contra o reacionário que chefia o departamento de filosofia.” E como Žižek faz para escapar da inocuidade da crítica acadêmica? Fazendo política?

“Não necessariamente”, ele respondeu. “Não me meto nesses fóruns, nesses piqueniques new age onde há de tudo, principalmente regressão.” Ao ser lembrado que, num artigo recente, defendeu a política de Hugo Chávez, Žižek, que não é muito de nuances (prefere paradoxos como: “Sou a favor do fim da pena de morte, mas só depois de fuzilarmos Bernard-Henri Lévy. Faço questão de participar do pelotão de fuzilamento.”), fez uma nuance:

“Defendi que Chávez incentivava algum tipo de auto-organização nas favelas venezuelanas e, portanto, de discussão política. Isso é positivo, porque os governos de esquerda não fazem política, eles administram a situação social. A política virou café descafeinado. Assim como tiraram o café do café, tiraram a política da política, e ficou só a administração rala.”

Como acontece com freqüência, Žižek tomou distância em relação ao que acabara de falar: “Chávez não passa de um populista afogado em petróleo, mais um caudilho latino-americano. E de caudilho já temos, ou tínhamos, Fidel. Nada melhor, para deixar de ter ilusões de esquerda, do que ir a Cuba.”

Deu outra volta e assestou suas baterias dialéticas contra o presidente brasileiro: “Lula é ainda pior do que Chávez. Se o Brasil descobriu petróleo, se o governo tem um partido com base popular, se o país tem sindicatos organizados, por que não promove a politização e lidera o avanço sobre a propriedade privada?”

Perguntado se haveria um político vivo que admira, nem parou para pensar: “Jean-Bertrand Aristide. Num país paupérrimo como o Haiti, ele foi eleito duas vezes contra a vontade da burguesia, e foi derrubado duas vezes porque não traiu os miseráveis e os trabalhadores, não se adaptou à classe dominante. Bem ao contrário do PT, que mandou o exército brasileiro a Porto Príncipe para defender interesses americanos e franceses.”

E a China, o que ele acha? “É uma prova de que o marxismo está vivo”, ele disse. “Todo aquele blablablá de que o proletariado se aburguesara era apenas blablablá. O proletariado americano e europeu está hoje na China.” Dando um risinho, não resistiu e avançou sobre os maoístas: “Dá para constatar hoje que a Revolução Cultural, dirigida pelo camarada Mao, foi um movimento para restabelecer o capitalismo na China.”

Como assim? “Meu amigo Alain Badiou quase rompeu comigo, apesar da nossa admiração por Wagner, quando lhe disse isso. Mas é verdade: a Revolução Cultural foi um poderoso golpe nas tradições milenares chinesas, nos seus resquícios medievais, e abriu caminho para o florescimento da burguesia. Funciona um pouco como o ‘capitalismo de choque’ imaginado por Naomi Klein: o Katrina, a invasão do Iraque, as catástrofes naturais e políticas são boas para destruir a velha ordem, inclusive fisicamente, e expandir o capitalismo.”

 

À la Contigo (ou Caros Amigos, ou Trip), foi perguntado qual conselho daria a um jovem revolucionário. “Que leia Marx!”, entusiasmou-se Žižek. “Leia a 11ª Tese sobre Feuerbach, aquela que diz que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo, quando devemos transformá-lo. Mas leia ao contrário. Devemos parar de querer mudar o mundo às cegas, para interpretá-lo, saber o que ele é.”

E quem seria capaz de formular essa nova síntese revolucionária? Um partido? “Acho difícil, porque a forma do partido revolucionário, a forma bolchevique, tem pouca chance de vingar”, respondeu sucintamente, o que lhe é raro, e aguardou a próxima pergunta. Teria então de ser um filósofo, necessariamente um hegeliano, por que não.? Žižek ficou na expectativa, esperando a provocação, ou seja, que seu nome fosse pronunciado. Mas o nome pronunciado foi o de um hegeliano de direita: Francis Fukuyama.

“Não, Fukuyama não!”, respondeu, legitimamente chateado. “Mas entendo o raciocínio. Todo mundo goza o fim da história do Fukuyama. Mas todos agem como se não houvesse alternativa à democracia parlamentar e ao liberalismo, mesmo nesses tempos de crise financeira. Vou mais além. Nunca, na história da humanidade, houve tanta gente comendo bem, morando bem e estudando bem, num ambiente laico, quanto o último meio século, na Europa e na América do Norte – mas à custa da exploração de bilhões de outras pessoas. É preciso levar isso em conta.”

Chegara a hora da chuveirada pré-palestra. Slavoj ŽižekZizek perguntou em nome de quem deveria fazer a dedicatória em A Visão em Paralaxe. “Ah, é um sobrenome ambíguo”, constatou, e logo perguntou: “Da nobreza francesa ou do campesinato italiano?” Comemorou a resposta como um vero lacaniano: “Buono! Vino puro, cazzo duro!”

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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