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Megablocos supresa são vedete e preocupação do Carnaval 2018

Organizadores temem confusão como a que parou o Rio antes mesmo da abertura da festa, quando um bloco levou às ruas quinze vezes mais foliões do que o previsto

09fev2018_19h17
Bloco Chora Me Liga, que previa 40 mil pessoas no Aterro do Flamengo, no domingo, 4 de fevereiro. Cerca de 600 mil foliões compareceram, e o trânsito na área do aeroporto Santos Dumont travou
Bloco Chora Me Liga, que previa 40 mil pessoas no Aterro do Flamengo, no domingo, 4 de fevereiro. Cerca de 600 mil foliões compareceram, e o trânsito na área do aeroporto Santos Dumont travou FOTO: ALEXANDRE MACIEIRA_RIOTUR

Quando o Carnaval carioca começar para valer, neste sábado, mais de 500 blocos vão percorrer as ruas do Rio de Janeiro, até a Quarta-Feira de Cinzas. Pelo menos seis deles serão megablocos, grupos com mais de 300 000 participantes. Uma festa sempre melhora o humor por onde ela passa, mas, desse tamanho, altera também a rotina de quem não faz parte dela. A situação se complica especialmente quando o número de foliões ultrapassa e muito o que foi previsto no pedido de autorização aos órgãos públicos. É quando surgem os “megablocos-surpresa”, aglomerações de centenas de milhares de pessoas em locais despreparados para recebê-las.

No domingo passado, dia em que circularam os primeiros cordões, o Aterro do Flamengo viveu uma situação como essa. O bloco Chora Me Liga informou à Riotur, o órgão da Prefeitura responsável pela logística do Carnaval, que 40 000 foliões fariam parte da festa. A segurança foi montada, com organização do trânsito, banheiros e postos médicos para atender a esse número de pessoas. Mas, em vez dos 40 000 previstos, cerca de 600 000 carnavalescos preencheram o Aterro e ruas próximas, no Centro da cidade. O trânsito parou, principalmente nos arredores do aeroporto Santos Dumont. Por ali, ninguém entrava e ninguém saía, nem embarcava.

O que era para ser um bloco “normal” – ainda que numeroso – se tornou um megabloco. “A multidão nos pegou de surpresa”, disse à piauí o presidente da Riotur, Marcelo Alves. O crescimento desordenado dos grupos, a ponto de se tornarem novos megablocos-surpresa, preocupa o órgão – especialmente se for mais de um, ao mesmo tempo, em pontos diferentes do Rio. Segundo a Prefeitura, 528 blocos pediram autorização oficial para festejar pela cidade este ano – um aumento de 5,6% em relação ao ano passado, quando eram 500 cordões.

No caso do Chora Me Liga, quando a Riotur se deu conta do número de pessoas no Aterro, deslocou mais funcionários das áreas de saúde, segurança e agentes de trânsito. Mas não conseguiu evitar que parte da cidade parasse durante algumas horas. Em uma tentativa de minimizar o problema, a Prefeitura afirmou que deixará de sobreaviso seus funcionários para o aparecimento de aglomerações desse tipo. “Vamos monitorar por câmeras e, se for verificado um movimento atípico, deslocar pessoal até esse lugar”, disse Alves.

Outra forma de tentar garantir a segurança durante a folia será o monitoramento de redes sociais. A aposta é que foliões avisem para onde pretendem se locomover. Essa forma de medir o público, porém, nem sempre é precisa: 56 mil pessoas haviam confirmado presença no evento oficial do Facebook do Chora Me Liga no domingo passado. Dez vezes mais pessoas, invisíveis na página da rede social, porém, tomaram o Aterro.

O Bloco do Sargento Pimenta viveu uma situação semelhante logo em seu primeiro ano de desfile. Leandro Donner, cofundador e músico do grupo, conta que sabia que a ideia de unir Beatles e Carnaval “tinha um apelo”, mas não esperava reunir sequer 500 pessoas. Foram 5 mil, segundo a Riotur. Estreitas, as ruas do Humaitá onde o bloco fez sua estreia, ficaram paradas, assim como o trânsito na rua Voluntários da Pátria, uma das principais vias do bairro vizinho de Botafogo, na Zona Sul do Rio. No ano seguinte, quando o grupo passou a tocar no Aterro, a multidão se multiplicou por 12. De lá para cá, o número de participantes só aumentou. Em 2017, foram 300 mil foliões – 120 mil a mais do que em 2016 – embalados pelo som do bloco, que mescla hits dos Beatles com ritmos brasileiros.

Donner garante que todo desfile é pensado junto à Riotur para amenizar transtornos, mas que o elemento surpresa é típico do Carnaval. Nesses casos, é difícil encontrar uma solução emergencial, mesmo com o acompanhamento de agentes da Riotur e guardas de trânsito. É comum que o sinal de celular incerto em meio às multidões impeça os organizadores de entrarem em contato com a Prefeitura em busca de reforços durante o bloco. “O Carnaval para a gente é uma curva de aprendizado”, explica o músico. Para ele, a ideia de que seja possível controlar uma multidão de 600 mil foliões, apesar de todos os esforços, não passa de ilusão. “Muitas vezes, isso não está ao alcance de ninguém.”

A previsão da Prefeitura é que 6 milhões de pessoas participem dos blocos durante os cinco dias de Carnaval de rua no Rio. Nem sempre foi assim. Até o final dos anos 90 havia cerca de 30 blocos e bandas de rua no Rio. A festa inchou a partir do começo dos anos 2000, quando blocos tradicionais começaram a ficar abarrotados. Nessa época, o público dos blocos raramente ultrapassava o marco de 10 mil foliões.

Uma das exceções é o Cordão da Bola Preta, que já atraía uma multidão à Cinelândia no sábado de Carnaval. Este ano, a agremiação completa 100 anos, e a Riotur prevê que 1,5 milhão de pessoas participarão do desfile. Nos últimos anos, os chamados megablocos – os oficiais, com estrutura profissional e trios elétricos – se multiplicaram. Dentre eles, estão o Bloco da Preta, fundado em 2009 pela filha de Gilberto Gil; o Carrossel de Emoções, que se proclama “o primeiro bloco funk do país”, criado em 2012; e o Bloco das Poderosas, capitaneado pela cantora Anitta, que participará de seu terceiro Carnaval.

Se para os mais animados é uma alegria se esbaldar na folia, para os doentes do pé o Carnaval pode ser uma agonia. As desavenças entre carnavalescos e associações de moradores cariocas andam acirradas. Entre os principais motivos de contrariedade estão justamente os megablocos. “Não somos contra os blocos pequenos, que sempre desfilaram pelos nossos bairros”, disse Tony Teixeira, presidente da Associação dos Moradores de Copacabana. “Mas é um problema quando eles crescem demais, aí podem deixar um rastro de destruição por onde passam. Pior ainda se não houver um aviso e um preparo mais realistas para isso.”

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