depoimento

A morte de um cinema de rua

Empresário que administrou por dez anos o Cine Joia, em Copacabana, relata crise que levou o cinema a fechar as portas após oito meses de pandemia

Raphael Aguinaga
25nov2020_17h50
FOTO: DIVULGAÇÃO

No último dia 13 de novembro, o Cine Joia – um antigo cinema de 87 lugares, localizado dentro de uma galeria de Copacabana, no Rio de Janeiro – anunciou que estava fechando as portas. O cinema, fundado em 1969, ficou abandonado por vários anos e foi reaberto em 2010 pelo cineasta e empresário Raphael Aguinaga. Desde então, ganhou status cult, com uma programação que priorizava filmes independentes. O Joia também virou palco para várias atividades artísticas, de peças de teatro a recitais de poesia. O cinema sobreviveu aos meses de pandemia, mas anunciou o fim das atividades após a prefeitura do Rio de Janeiro romper uma parceria que havia firmado com a administração do local. Aguinaga relata como foi a restauração do cinema, dez anos atrás, e como foram seus últimos meses em 2020.

Em depoimento a Luigi Mazza.

 

O ano começou ótimo. A sensação era de que tínhamos cruzado a linha de chegada, sabe? Fevereiro foi o nosso melhor mês de todos os tempos. Janeiro já tinha sido muito bom, porque os grandes lançamentos do cinema europeu costumam chegar ao Brasil durante as férias escolares. E tudo indicava que a gente estava entrando num novo ciclo de altas, depois de vários anos de crise. Desde 2014, nós cortamos gastos, diminuímos nossa operação e conseguimos sobreviver. Eu digo que o Cine Joia é igual à Millennium Falcon, a nave que o Han Solo pilota em Star Wars: uma navezinha antiga, mas muito veloz.

Tenho 47 anos de idade, e comecei a administrar o cinema dez anos atrás. Antes disso, trabalhei no mercado financeiro. Fui funcionário num banco de investimentos em São Paulo, e depois entrei para a empresa que foi fundada pelo meu bisavô, a Petroquímica União. Fiquei trabalhando com a família durante oito anos. Quando meu avô morreu, aquilo perdeu o sentido para mim. Foi então que decidi me profissionalizar na arte, que era meu hobby. Eu tinha 32 anos e estava me casando, então acho que antecipei minha crise de meia-idade.

Em 2006, fui morar em Paris e mergulhei no cinema, minha paixão. Estudei roteiro na Louis-Lumiére, uma das melhores escolas de cinema da Europa. Fiquei lá por dois anos. A França é um dos países com mais salas de cinema per capita do mundo. Lá tem cinema de bairro. Uma vez fui com minha esposa num cineminha perto de casa e todo mundo ficou olhando para nós. Na hora eu não entendi. Só depois percebi que todo mundo ali se conhecia. As pessoas sabiam o nome e o gosto cinematográfico de cada uma. Achei fascinante. É a mesma intimidade das pessoas que comemoram aniversário dentro de ônibus aqui no Brasil.

Voltei para o Brasil tendo um longa-metragem para filmar. Depois que lancei o filme, percebi que não seria fácil colocá-lo em cartaz. Então comecei a estudar a possibilidade de montar meu próprio cinema. Eu queria fazer algo parecido com o que encontrei na França. Vi que o Brasil tinha então menos salas de cinema do que na década de 1970. Muitos antigos cinemas estavam desativados, então pensei que, se eu conseguisse reativar um deles, isso poderia ser o pontapé para que o circuito exibidor crescesse rapidamente no Brasil, e a baixo custo.

Dali em diante visitei vários cinemas que estavam abandonados no Rio de Janeiro: fui ao Cine Astor, que fica em frente ao Mercadão de Madureira, depois ao Tijuca Palace, um cinemão de duas salas, cada uma com quatrocentos lugares. Mas eu queria algo menor, com no máximo cem lugares. Acabei escolhendo o Cine Joia. Um cinema pequeno, num bairro muito diverso, que tem gente de todo tipo. A primeira coisa que fiz foi colocar meu filme em cartaz. O dinheiro da bilheteria vindo direto para o produtor do filme.

O Cine Joia era um “cine-poeira” quando fui visitá-lo pela primeira vez. Estava destruído, fechado havia onze anos. Ele foi fundado em 1969 e sempre esteve no mesmo lugar, no porão de uma galeria na avenida Nossa Senhora de Copacabana. No começo, se chamava Cine Hora. Não passava filmes, só passava rolos de notícia em loop para as pessoas assistirem enquanto faziam hora na galeria. Em 1970, o cinema foi comprado pela família Valansi, que era dona da Companhia Cinematográfica Franco-Brasileira. Eles trocaram o nome daquela sala para Cine Joia – uma homenagem a Joia Valansi, matriarca da família.

Fiz uma reforma completa: troquei banheiros e contratei um arquiteto conceituado para bolar o projeto. Foi dele a ideia de usar cadeiras coloridas, que viraram nossa marca. Eu banquei tudo, como se fosse uma start-up. E aí entramos com uma programação focada na qualidade. Durante várias semanas nós fizemos sessões só com filmes europeus e de arte, com uma curadoria muito boa. O público era 80% de idosos. E muitos eram assíduos, frequentadores de carteirinha. Eu conhecia a maior parte pelo nome. Os moradores antigos de Copacabana sentiam saudade do Cine Joia, havia uma memória afetiva. É um bairro com uma tradição muito grande de cinema, mas que aos poucos foi minguando. Hoje, de cinema, só tem o Roxy. 

A gente já apostava, desde o começo, que haveria essa adesão espontânea do público. Mas eu também queria outras coisas para movimentar o espaço. Percebi que a sala de cinema pode ser multiuso, multilinguagem. Não precisa ser um lugar só para filme: podemos fazer poesia, sarau, peça de teatro, oficinas. E, além disso, o cinema pode ser espaço de educação.

 

O Cine Joia quase nunca deu lucro. Só no tempo das vacas gordas, de 2011 a 2013, é que foi um negócio superavitário. Nessa época nós abrimos uma filial em Jacarepaguá, com três salas, e reabrimos um cinema grande em Caeté, Minas Gerais. Chegamos a ter cinco salas simultâneas e trinta funcionários. Mas, depois disso, foi ladeira abaixo. Com a crise econômica, enxugamos tudo e ficamos só com a sala de Copacabana. Aguentamos o tranco.

As coisas começaram a melhorar no ano passado. Eu estava super feliz. Depois de uma década administrando o cinema, finalmente consegui, em outubro, fechar uma parceria com a RioFilme [empresa gerida pela prefeitura do Rio de Janeiro para apoiar a indústria audiovisual na cidade] para levar alunos do ensino público para ver filmes no Cine Joia, de graça.

Por conta própria, ao longo de oito anos nós já tínhamos recebido cerca de 15 mil crianças vindas de escolas municipais. As sessões sempre aconteciam de manhã, fora do horário comercial, e a gente combinava tudo com as professoras dessas escolas. Funcionava muito bem. Nós juntamos os dois patinhos feios da indústria – o documentário e o cinema de rua – com propósito educativo. Isso deveria ser replicado por outros cinemas no Brasil. Há um monte de documentários espetaculares que são ignorados pelo circuito convencional. A gente passava filmes sobre o Rio São Francisco, sobre a Amazônia… Só filmes brasileiros. Nesses dias eu fazia questão de operar o projetor e receber os alunos pessoalmente no cinema.

E agora esse projeto tinha virado política pública. É o que sempre deveria ter sido. A gente começou a receber um subsídio de 10 mil reais por mês da prefeitura. Um dinheiro modesto, que servia para pagar o aluguel da sala, basicamente. Depois que assinamos essa parceria, a Secretaria de Direitos Humanos pediu que a gente também fizesse sessões para idosos e adolescentes que moram em abrigos. Foi muito legal. Nossa rotina passou a ser assim: crianças de manhã, idosos e adolescentes à tarde. À noite, muitas vezes fazíamos saraus e apresentações de música na sala de cinema.

Então as coisas estavam ótimas, do jeito que eu sempre sonhei. Em fevereiro nós fizemos um festival gratuito de filmes sobre samba, entre outras coisas. Quando chegou a pandemia, em março, tivemos que fechar as portas como todo mundo, mas não esquentei com isso. O nosso acordo com a RioFilme previa 48 sessões com as crianças, e nós já tínhamos feito trinta àquela altura. Eu pensei: “Vamos continuar recebendo o subsídio e, quando o cinema puder reabrir, a gente paga pelas sessões que ficaram faltando.”

Acontece que chegou a data do pagamento em março, e nada. “Vai ver a situação está confusa lá na prefeitura por causa da pandemia”, eu pensei. “Vou esperar.” Quando chegou abril, entrei em contato para dizer que eles estavam nos devendo havia mais de trinta dias. Foi então que me disseram que não iriam pagar, e que a ordem veio de cima. Estavam contendo gastos por causa da pandemia, disseram. E ficou por isso mesmo. Eu tinha dois funcionários com contrato suspenso até então. No fim das contas, perdemos o dinheiro, e agora tive que dispensá-los de vez. A RioFilme me enviou um aditivo ao nosso contrato desobrigando as partes e encerrando o projeto.*

 

A gente segurou a barra todos esses meses com as portas fechadas. E a sorte não nos ajudou. Recentemente o governo federal lançou um programa de apoio a pequenos exibidores, com subsídio de até 50 mil reais por sala. Mas a gente não pôde participar. Por quê? Porque uma das cláusulas desse programa diz que, para receber o auxílio, o exibidor não pode ter contrato com o poder público. E nós tínhamos o nosso contrato ainda vigente com a RioFilme.

Aí eu joguei a toalha. Não dá. Já enfrentei descaso na Ancine, enchente no cinema, problemas com fornecedores, uma série de dificuldades nesses dez anos. Mas uma faca nas costas como essa que a RioFilme nos deu… não dá. O Cine Joia é uma Falcon, como eu disse. Só jogamos a toalha quando a situação ficou absolutamente insustentável. Depois de oito meses de pandemia, anunciamos o fechamento agora no começo de novembro. Desde então, recebi mensagens comoventes das professoras que levavam os alunos para o cinema. Eles sempre foram a nossa maior preocupação.

Agora deixei de ser comerciante, virei essa página. Sou um artista que estava emprestado ao comércio por paixão à arte. Tenho projetos de cinema que já estão em produção, inclusive um documentário sobre essa década em que o Cine Joia ficou aberto. O filme já está praticamente feito, é só editar. Deve ser lançado no ano que vem, então vou entrar de cabeça nisso. 

Tenho o plano de manter o legado do Cine Joia na internet. Estou pensando em montar um projeto de streaming com a nossa curadoria, exibindo filmes que são joias enterradas e dando visibilidade para o cinema nacional – que é o que a gente sempre fez. Assim a gente pode não apenas continuar vivo, mas até se expandir, chegando a pessoas de outros lugares do Brasil que não nos conheciam. É uma ideia que me atrai. O fato é que fiz minha oferenda aos deuses do cinema, e vamos ver se agora eles me retribuem. Nunca vou esquecer da sensação de levar minhas duas filhas para ver um filme comigo no Joia.

*

*Procurada pela piauí, a RioFilme afirmou que, com o decreto da prefeitura determinando o fechamento de todas as salas de cinema no município por conta da pandemia, o pagamento ao Cine Joia foi suspenso. Em nota, diz: “A RioFilme encaminhou um Termo Aditivo ao contrato, tendo em vista que a execução do Projeto Cine Escola não poderia se realizar em função da pandemia e da paralisação das atividades escolares. Consequentemente, não havia o que ser pago. Infelizmente o senhor Raphael Aguinaga não quis assinar o Termo Aditivo, talvez por entender que a RioFilme deveria manter os pagamentos mesmo o projeto não sendo realizado, o que contraria as cláusulas contratuais do referido acordo. Em 28 de agosto de 2020, o contrato foi extinto pelo decurso do prazo de vigência.” A RioFilme disse que encaminhou ofício a Aguinaga em setembro para que o empresário estudasse uma proposta para restabelecer o projeto, mas não recebeu resposta favorável.

Raphael Aguinaga

Cineasta, empresário e sócio-fundador da VilaCine, empresa que administrava o Cine Joia