questões de saúde

Na disputa pela vacina, atletas fardados correm por fora

Após garantir imunização de militares, Ministério da Defesa negociou com o COB doses para o restante da delegação olímpica sem incluir na conversa a Saúde, pasta responsável pela campanha de vacinação contra Covid

Thais Bilenky e Hellen Guimarães
30abr2021_17h48
Ilustração de Carvall

Quando o governo federal anunciou , em março, que os atletas militares seriam vacinados, criou uma celeuma na delegação olímpica brasileira. Uma parte pôde respirar aliviada com a perspectiva de se vacinar para ir ao Japão em julho para os Jogos. A outra, majoritária, ficou desamparada. “Eu tenho medo o tempo inteiro”, lamentou a mesatenista Caroline Kumahara, de 25 anos. Sua convocação saiu na última segunda-feira (26): a caminho de sua terceira Olimpíada, ela passa a dividir com Lígia Silva o posto de mulher com mais participações olímpicas pela Seleção Brasileira na modalidade. A alegria só é turvada pela pandemia, que assusta uma esportista que não tira a máscara nem para treinar. “Com certeza não vou viajar tranquila.” 

Agora, a menos de três meses dos Jogos, o Ministério da Defesa decidiu negociar com o Comitê Olímpico do Brasil (COB) a imunização dos demais atletas e comissões técnicas. Quase 2 mil pessoas aguardam para saber se viajarão protegidas ou não. E precisarão esperar uns dias mais, porque a Defesa excluiu das tratativas o Ministério da Saúde, que coordena o plano nacional de imunização. Pega de surpresa pela reportagem publicada pela Folha de S.Paulo uma semana atrás, a pasta comandada por Marcelo Queiroga entrou no caso quando já se dava como certa a vacinação da delegação brasileira. Agora as conversas recomeçaram.

“Em reunião realizada na terça-feira (27), o Ministério da Defesa, o Ministério da Saúde e o COB discutiram a possibilidade de aplicação da vacina contra Covid-19, em âmbito nacional, nos componentes do Time Brasil”, disse a primeira pasta em nota. “Caso seja viabilizada a vacinação, planeja-se o início da campanha ainda para a primeira quinzena de maio.”

Procurada, a assessoria do Ministério da Saúde confirmou que não foi consultada nem mesmo comunicada sobre as negociações da Defesa com o COB. Em um telefonema, uma assessora disse que a pasta agora vai avaliar a vacinação dos atletas e divulgar oficialmente a decisão. Enquanto isso, não se manifestará.

Segundo o COB, “a ação está sendo liderada pelo Ministério da Defesa, a quem cabe detalhar como será realizada a operação”. A entidade informou que o Comitê Olímpico Internacional ofereceu vacinas ao COB beneficiando-se da lei aprovada recentemente que permite que a iniciativa privada compre imunizantes desde que doe doses ao SUS. Segundo o COB, o COI ofereceu CoronaVac para os participantes dos Jogos. “Para cada pessoa imunizada serão ofertadas doses para vacinar mais dois cidadãos do país.” Não informou de onde sairão os imunizantes, uma vez que a produção está irregular por falta de insumos. Cidades em dezoito estados suspenderam a aplicação da segunda dose por falta de vacina. Com a escassez de CoronaVac no Brasil, diversos postos têm aplicado a vacina de Oxford/Astrazeneca, que requer intervalo de três meses entre as doses. Não haveria mais tempo hábil para imunizar a delegação com essa vacina antes dos Jogos, que começam em 23 de julho.

 

Apesar de temer ser exposta ao vírus em Tóquio, Kumahara é contra a vacinação prioritária de atletas olímpicos. Ainda que essa seja sua única chance de receber o imunizante em um futuro próximo, ela tem receio de que a medida desampare pessoas com mais riscos de desenvolver o quadro grave da doença, já que a vacinação no Brasil caminha a passos lentos.

“Eu acho que o ser humano tem uma capacidade grande de fazer besteira e ser egoísta às vezes. Por isso, me preocupa que o fato de receber a vacina faça muitas pessoas relaxarem. Quero deixar bem claro que eu sou a favor da ciência e pessoalmente quero muito ser vacinada, mas a minha opinião é que vidas estão acima de um evento esportivo. Eu sei da importância disso pros atletas, mas a gente sabe que está faltando vacina e existem pessoas que correm risco maior, mesmo que essa nova fase do vírus tenha atingido também pessoas mais jovens. Defender que a gente fure essa fila seria ir contra os meus princípios, então, mesmo entendendo que é uma medida de segurança, minha opinião é essa”, argumentou.

 

Caroline Kumahara: “Defender que a gente fure essa fila da vacina seria ir contra os meus princípios” – Foto: Divulgação/ITTF

 

Os 541 atletas militares entraram na lista de prioridades do Plano Nacional de Imunização em março, quando todos os membros ativos das Forças Armadas foram incluídos. Desses todos, até agora 52 foram selecionados para competir na Olimpíada de Tóquio, que ocorrerá de 23 de julho a 8 de agosto. Os militares respondem por um quarto dos 208 atletas já selecionados até agora.

Entre eles está, por exemplo, o terceiro-sargento da Aeronáutica Gabriel Santos. Segundo release do Ministério da Defesa, ele inicialmente não conseguiu se classificar para a final da prova dos 100 metros nado livre, na quinta-feira (22). Em uma segunda prova, garantiu a vaga nesta competição e no revezamento 4×100 metros nado livre. “A caminho de sua segunda participação em Olimpíadas, o atleta agradeceu o apoio da Aeronáutica e declarou gostar dos momentos de pressão, pois lhe permitem alcançar melhores resultados”, disse com ufanismo a Defesa.

O informe técnico do Ministério da Saúde que comunicou a decisão de incluir membros das Forças Armadas na prioridade da imunização orientou a preferência por aqueles “mais expostos às ações de combate à Covid-19”. São os militares envolvidos no atendimento e/ou transporte de pacientes, em resgates e atendimento pré-hospitalar ou mesmo na aplicação de vacinas. “Os demais”, pontuou o Ministério da Saúde, “deverão ser vacinados de acordo com o andamento da campanha nacional.” Questionado pela piauí, o Ministério da Saúde não informou quantos atletas das Forças Armadas já foram beneficiados. Disse que “os membros vacinados são contabilizados pelos estados e municípios”.

 

Embora haja diferenças entre protocolos sanitários em cada país, a Covid obriga os atletas a mudarem os pequenos hábitos que fazem parte da cultura de cada esporte. No tênis de mesa não foi diferente. Os muitos apertos de mão após as partidas – entre atletas, deles com os árbitros e até com os técnicos adversários – foram substituídos por cumprimentos à distância, como acenos de cabeça ou toques de raquetes. Até o gesto de deixar a raquete na mesa entre um set e outro virou motivo de preocupação e foi proibido.

Kumahara morava no Brasil até novembro, quando se mudou para a Espanha para defender as cores do Tecnigen Linares na liga local e na Copa Europeia, que começa no mês que vem. Quando tem disponibilidade, joga algumas partidas da Liga Italiana pelo Norbello Tennistavolo. Pela Seleção, não participou de nenhum torneio desde que a pandemia começou, mas integrou a Missão Europa, uma viagem de pouco mais de um mês a Portugal promovida pelo COB, em agosto do ano passado, para que os atletas brasileiros pudessem treinar para os Jogos. Nessas competições e viagens, a mesatenista já se habituou aos protocolos de prevenção.

Na Espanha, o árbitro desinfeta a mesa entre as partidas e os competidores não trocam mais de lado ao fim dos sets. Na Itália, há uma caixinha com uma bacia para colocar a toalha usada para limpar o suor de seis em seis pontos. Quando começa o jogo, o árbitro desinfeta a bacia e oferece ao atleta; quando trocam de lado, levam suas bacias e caixas consigo. Para a Liga Italiana, os mesatenistas apresentam um teste, antígeno ou PCR, feito até dois dias antes do jogo. Nos treinos, a temperatura dos atletas é medida diariamente. Em Portugal, os atletas eram solicitados a trocar o tênis para entrar na sala de treino, sem muito rigor.

Entre um país e outro, Kumahara adotou o seu próprio protocolo. “Tenho me cuidado absurdamente. Todo mundo implica comigo por isso, mas eu não ligo, não. Continuo com as minhas ‘loucuras’, limpo tudo, estou sempre de máscara, não a tiro para nada. Apesar de saber que eles farão protocolos bem rígidos lá no Japão, terei contato com mais pessoas e isso acaba saindo um pouco do meu controle. E eu não gosto muito dessa situação, mas também não há muito o que eu possa fazer.”



Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

Hellen Guimarães (siga @HellenGuimaraes no Twitter)

Repórter da piauí. Trabalhou em O Globo, Extra, Época e Agência Lupa

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