questões latino-americanas

Na fronteira, a volta do imposto de guerra

Entre Colômbia e Venezuela, grupos armados se fortalecem e ameaçam moradores

Roberto Lameirinhas
27mar2019_18h08
ILUSTRAÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE ROBERTO LAMEIRINHAS

Eles estão vindo, estão entre nós de novo e em grande quantidade.” É assim que um pequeno comerciante de Villa del Rosario, um distrito de Cúcuta, na fronteira da Colômbia com a Venezuela, fala de um medo cotidiano. “Eles” são guerrilheiros e paramilitares que, por muito tempo, cobraram de estabelecimentos comerciais nas áreas dominadas por eles o pagamento de um valor semanal em troca de segurança – chamado de “vacuna” (vacina, em espanhol) ou “imposto de guerra”. Em Táchira, no lado venezuelano, a cobrança já é uma realidade.

Em meio à crise na Venezuela, o fechamento formal da fronteira oficial, em 23 de fevereiro, levou à abertura de passagens ilegais, pelas quais membros de grupos armados se misturam facilmente aos civis que passam de um lado para o outro. O terror e a extorsão dos grupos armados que por décadas infernizaram a população de Cúcuta, ponto nevrálgico do fluxo de imigrantes venezuelanos, podem estar voltando. E essa expectativa tira o sono de proprietários de estabelecimentos comerciais do local.

“Durante vários anos fomos obrigados a pagar ‘vacuna’ para os bandos. Pensávamos que esse tempo já tinha passado, mas parece que agora ele está voltando. Quando Maduro cair e o novo governo venezuelano voltar a persegui-los, eles fugirão em peso para cá. Estamos numa armadilha.”

Outro comerciante, Arlindo, que gerencia uma agência de transporte por ônibus de Cúcuta para outras partes da Colômbia, afirma ser capaz de identificar facilmente a presença de membros de grupos armados na cidade. Menos cauteloso do que os demais microempresários, Arlindo não se importa em se identificar com seu nome real ou posar para fotos. Diz que nunca pagou a “vacuna” porque, por algum motivo que não consegue precisar, nunca foi cobrado. “Mas agora já há informações de que a prática da ‘vacuna’ se tornou comum em Táchira. Lá, todos têm de pagar.”



“Agências de turismo” ou “agências de transporte” como a de Arlindo são, na verdade, pontos de encontro para onde convergem os migrantes de várias partes da Venezuela que buscam lugares em ônibus fretados para centros maiores da Colômbia, como Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla. Poucos ficam em Cúcuta.

 

Sexta principal cidade da Colômbia, com cerca de 850 mil habitantes em sua área metropolitana, e capital do Departamento (equivalente aos Estados brasileiros) Norte de Santander, Cúcuta está a pouco mais de 300 metros do nível do mar e pouco acima da Linha do Equador. São raros os dias do ano em que a temperatura não supera os 30ºC. E, embora a região da fronteira seja mais caótica, a cidade é quase toda pavimentada e tem uma infraestrutura razoável, onde elementos urbanos modernos se misturam a locais históricos. Cúcuta é a cidade natal de Francisco de Paula Santander, um dos heróis da luta de independência latino-americana liderada por Simón Bolívar, no início do século XIX.

Não falta tensão neste que é o trecho mais movimentado da fronteira entre Colômbia e Venezuela. A chegada, no fim de semana, de aviões russos ao aeroporto de Maiquetía, perto de Caracas, com mais de cem soldados e toneladas de equipamento ampliou as especulações sobre ações militares estrangeiras na região – que poderiam incluir, além dos Estados Unidos e Rússia, colombianos e brasileiros. O mais provável, porém, é que os soldados sob ordem de Vladimir Putin tenham sido enviados para reforçar a segurança pessoal de Maduro.

Mas no dia a dia dos moradores de Cúcuta, dos venezuelanos que tentam fugir da situação de miséria de seu país e das agências de assistência humanitária que os atendem, no entanto, os temores são muito mais realistas.

“Não é que não estejamos preocupados com a possibilidade de uma intervenção militar na região”, afirma o coordenador de uma dessas entidades internacionais que atuam por aqui. “Mas a questão é que as preocupações que já temos são muito maiores neste momento.”

A avaliação em Cúcuta é que, seja qual for o destino de Maduro, do chavismo ou do presidente autoproclamado da Venezuela, Juan Guaidó, a Colômbia vai sentir o principal efeito colateral externo da crise do chavismo, com o ressurgimento de atividades em grande escala dos grupos armados – um problema que parecia ter sido superado.

 

Desde o fechamento das três pontes internacionais que ligam Cúcuta com a Venezuela, com a tentativa de Guaidó de atravessar uma delas à frente de um comboio de ajuda humanitária, as autoridades registraram a abertura de pelo menos setenta passagens ilegais (as “trochas”) pelo leito quase seco do rio Táchira. Por esses caminhos, os membros dos grupos armados intensificaram o vaivém misturados à população civil.

Seja para evitar confrontos com grupos numerosos de civis, seja pela corrupção pura e simples, forças de segurança da Venezuela e da Colômbia passaram a fazer vista grossa à travessia pelas “trochas”. A fila de pessoas atravessando o rio por trilhas abertas a menos de 50 metros dos postos de fronteira formais pode ser vista por qualquer um.

Até seu fechamento, cerca de 70 mil venezuelanos entravam e saíam da Colômbia diariamente pela Ponte Internacional Simón Bolívar – a mais movimentada das passagens fronteiriças legais. Nem todos são imigrantes. Grande parte dessa massa humana atravessa a ponte para comprar remédios, alimentos e outros produtos que desapareceram das prateleiras venezuelanas. Entre 5% e 10% buscam fixar residência do lado colombiano. Outra parcela, não se sabe ao certo quanto, é a que se dedica às atividades ilegais relacionadas ao contrabando, à extorsão de dinheiro de comerciante e ao narcotráfico.

Os acordos de paz firmados pelo governo colombiano com a guerrilha marxista Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em 2016, e com os paramilitares de ultradireita das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) resultaram no declínio abissal das mortes causadas pelo conflito armado a partir do início dos anos 60. O Centro Nacional Colombiano de Memória Histórica estima em 260 mil o número total de mortos e em 70 mil o de desaparecidos diretamente ligados à guerra civil – incluindo guerrilheiros, civis e agentes das forças de segurança do Estado. Em 2002, quando fracassou uma das mais promissoras tentativas de paz com as Farc, o número de mortos na guerra civil foi de 19 640. De lá até a paz de 2016, houve em média 3 000 mortes por ano. Em 2017, elas foram 78.

No entanto, pelo menos dois grupos guerrilheiros significativos – o guevarista Exército de Libertação Nacional (ELN) e o maoísta Exército Popular de Libertação (EPL) – ainda não firmaram pactos de desmobilização com o governo colombiano e, segundo fontes policiais e de inteligência, têm na área de Táchira um refúgio seguro. A eles se somam combatentes das Farc que cometeram crimes que os excluem da anistia prevista no acordo de paz e milicianos de ultradireita que seguiram sua trajetória criminosa no lado venezuelano da fronteira.

Pouco antes da manifestação pela entrada da ajuda humanitária em Cúcuta – e também na fronteira do Brasil com a Venezuela, em Pacaraima (RR) –, testemunhas relataram que supostos enviados das guerrilhas percorreram as áreas de comércio mais movimentadas de Táchira ordenando o fechamento dos estabelecimento e determinando um toque de recolher informal na cidade venezuelana. A intenção dos manifestantes da oposição a Maduro, naquele dia, era atravessar em triunfo a Ponte Simón Bolívar, com Guaidó à frente do comboio de caminhões. Após a travessia da ponte, os caminhões passariam pela avenida Venezuela, principal artéria viária de Táchira. Nesse caso, o cortejo poderia ser recebido a tiros com o fechamento da fronteira, isso acabou não ocorrendo.

Além das guerrilhas e dos “paras”, nos dois últimos anos, de acordo com fontes policiais colombianas, Táchira está vendo o crescimento de uma nova organização armada: La Línea. O novo grupo atua fortemente na produção e contrabando de cocaína e – diferentemente das ações espalhafatosas dos cartéis que dominaram as atividade da região décadas atrás – prima tanto pela discrição quanto pela crueldade. Diferentemente dos grupos combatentes, seus líderes não são conhecidos. Eles têm ampla capacidade de corromper autoridades, não portam armas ostensivamente e atuam de forma descentralizada para evitar prejuízos aos seus negócios.

A inspiração de La Línea vem do México, onde o grupo se aliou às “maras” – gangues juvenis ultraviolentas – e está ocupando importantes espaços dos cartéis de Juárez e de Tijuana, na atividade de contrabandear drogas para os Estados Unidos. Na Venezuela, as “maras” são fortemente associadas aos coletivos juvenis chavistas infiltrados, principalmente, nas áreas mais pobres do país.

Diferentemente do que ocorria no auge da guerra civil colombiana, os grupos armados que estão agora na Venezuela não se enfrentam entre si. “O santuário (refúgio) para as quadrilhas em Táchira não é novo”, afirma, sob condição de anonimato, um policial colombiano na fronteira. “A diferença é que lá (do lado venezuelano) eles fizeram um pacto de não-agressão e parecem mais alinhados com as forças estatais. Os grandes ataques e banhos de sangue, eles reservam para o nosso território.”

Roberto Lameirinhas

Roberto Lameirinhas é jornalista especializado em temas internacionais e reportagens de guerra.

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