anais das redes

Na rede, 71 candidatos a governador não dão um Bolsonaro

Eleição presidencial mobiliza quatro vezes mais as mídias sociais do que todas as principais campanhas aos governos estaduais somadas

Yasmin Santos
18jul2018_00h33
ILUSTRAÇÃO_PAULA CARDOSO

Se o eleitor não se interessa pela disputa nacional, muito menos pela local. Segundo a mais recente pesquisa Ibope, 59% dos eleitores não sabem dizer espontaneamente o nome de seu candidato a presidente. Mesmo assim, desde o início do ano, os quinze principais presidenciáveis somam 84 milhões de interações no Facebook. Já os 71 principais pré-candidatos a governador em todas as unidades da Federação não somam nem 20 milhões de compartilhamentos, curtidas e comentários. Ou seja, as interações relacionadas à corrida ao Planalto superam em mais de quatro vezes as da disputa regional. Fora de pauta, o jeito é chamar atenção com pronunciamentos a favor ou contra Lula – ou, no caso de um passado bem-aventurado a bordo de suas chuteiras, com posts sobre futebol.

O total de interações do segundo principal presidenciável na rede social, Jair  Bolsonaro, já é suficiente para deixar os 71 pré-candidatos a governador para trás. Sozinho, o deputado federal do PSL acumula cerca de 25,3 milhões de reações no mesmo período analisado, de acordo com dados obtidos por meio da ferramenta CrowdTangle. Em número de seguidores, os quinze concorrentes ao Planalto também se sobressaem aos 71 aspirantes a governador: têm 3 milhões a mais.

Os pré-candidatos aos governos estaduais perdem em engajamento, quantidade de seguidores e em volume de posts. Os quinze presidenciáveis chegaram, juntos, à média de 69 postagens por dia desde o início do ano, enquanto o conjunto dos 71 principais pré-candidatos aos Executivos regionais chega a 135 diariamente. Ou seja, dois posts por candidato no caso das disputas estaduais contra mais do que o dobro disso entre os presidenciáveis.

 

Nos últimos quatro meses, as postagens que estão na primeira e na terceira colocações em número de interações, entre curtidas, comentários e compartilhamentos, vieram do candidato a governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do DEM. São duas partes de um mesmo pronunciamento do senador sobre a entrevista  da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, à emissora de tevê árabe, Al Jazira, ambas postadas no dia 18 de abril. Fazendo alusão à campanha presidencial, o senador encerra a mensagem de vídeo no Facebook afirmando que o partido “não só foi derrotado nas barras da Justiça, como também será nas urnas em 2018”. Os dois posts totalizam 114 774 interações na rede social.



Em meio ao prende e solta do ex-presidente Lula, o segundo maior post em volume de interações entre os pré-candidatos a governador veio de João Doria, do PSDB, ex-prefeito de São Paulo. Em vídeo, ele denuncia a relação do desembargador Rogério Favreto, responsável por assinar o habeas corpus de Lula, com o PT – uma manifestação que se relaciona mais com a disputa presidencial do que com a estadual. O post teve 56 112 interações. Doria também obteve muitas interações – 27 339 – com uma foto em que aparece segurando um pastel mordido, marcada com as hashtags #AmelhorParteDoDia e #AmoPastel.

 

Sucesso com as chuteiras nos pés, é nelas que Romário, do Podemos, se apoia nas redes sociais. Entre os pré-candidatos a governador, tem a quinta publicação de maior destaque – a que compara o atual camisa 11 da Seleção brasileira, Philippe Coutinho, a si próprio na Seleção de 1994. Na foto, um registro dos dois jogadores durante a comemoração de um gol. Dias antes, Coutinho havia marcado o primeiro gol da Seleção na Copa. O senador pelo Rio de Janeiro arremata com a legenda: “Isso é BRASIL porra. Simples assim…”  O post rendeu 25 mil interações à página de Romário.

Nos últimos seis meses, a comparação só é superada pelo vídeo da entrevista de Romário ao programa Esporte Espetacular, da Rede Globo. O post de 27 de março relembra os feitos do baixinho na Copa de 1994. Teve 49 mil interações. Sua vida política aparece apenas em oitavo lugar, em um post no qual anuncia o lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Rio. Provocou apenas 7,6 mil interações. O centroavante goleou o senador.

Doria alcançou o seu pico de interações nos últimos seis meses no dia 5 de abril, após o anúncio do mandado de prisão de Lula. Mais uma vez com hashtags, o ex-prefeito de São Paulo defende #LulaNaCadeia e anuncia que a hora do ex-presidente finalmente chegou. Foram 114 mil interações. O segundo maior movimento veio em 24 de janeiro, após decisão do TRF-4. Com #AceleraBR na legenda da foto, o post traz uma contraposição entre a bandeira do Brasil e uma mancha vermelha. Ao centro, o placar 3 a 0. Entre curtidas, comentários e compartilhamentos, a imagem lhe rendeu 84 mil interações.

O auge de Caiado também foi às custas de Lula. Com imagens de manifestações ao redor do país pela prisão do ex-presidente, o pré-candidato a governador do estado de Goiás conseguiu 41 mil interações. Em 25 de janeiro, o link de uma reportagem de O Estado de S. Paulo anunciando que a “cúpula do PF começa a preparar a prisão de Lula” chegou ao segundo lugar no ranking dos últimos seis meses, totalizando 21 mil interações. Até quando perdem, os presidenciáveis ganham.

Yasmin Santos (siga @yasminsmp no Twitter)

Repórter da piauí e produtora da rádio piauí

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