pandemia na quebrada

“Não é só um teste”

Moradora da periferia de São Paulo comemora programa de testagem, mas lembra abandono da região; centro de atendimento a idosos está fechado há cinco anos

Luana Almeida
20jul2020_17h12
Testagem no Viveiro Escola, espaço de agricultura orgânica no bairro União de Vila Nova, Zona Leste de São Paulo – Foto: Fabbinho/Substancial
Testagem no Viveiro Escola, espaço de agricultura orgânica no bairro União de Vila Nova, Zona Leste de São Paulo – Foto: Fabbinho/Substancial

a semana passada, quase cinco meses depois da confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, começou um programa de testagem em regiões de vulnerabilidade social na periferia de São Paulo. Realizado pelo governo do estado em parceria com o Instituto Butantan e a prefeitura da capital, o projeto vai monitorar casos da doença e identificar a incidência do novo coronavírus nessas áreas. O bairro escolhido para dar início ao projeto-piloto foi a União de Vila Nova, no distrito da Vila Jacuí, Zona Leste de São Paulo. A escolha não foi ao acaso: até o dia 9 de julho – última atualização da prefeitura – a periferia Leste da capital concentrava mais de 38% das mortes confirmadas e suspeitas por Covid-19. As condições de vida dos moradores tornam o combate à epidemia ainda mais difícil. Luana Almeida, moradora da Vila Jacuí, conta como foi a testagem e o que ela significa para a região. Mais que um diagnóstico, iniciativas como essa servem fortalecer o senso de cidadania entre os moradores da região.

Em depoimento a Camille Lichotti

*

Na terça-feira (14) passaram pessoas no bairro entregando fichas. Usavam máscara e aquela proteção de acrílico no rosto. Eu estava sentada na porta da casa da minha mãe conversando com alguns vizinhos, e essas pessoas perguntaram se a gente morava ali. Falaram que estavam fazendo um convite pro exame da Covid ali no bairro. Eu já tinha recebido no WhatsApp mensagens de líderes comunitários pedindo pra divulgar a ação, que era muito importante – estava tendo um esforço mesmo. Recebi áudios dizendo que os testes estavam sendo disponibilizados gratuitamente, que era bom ter uma aderência do bairro, que a gente fizesse o teste etc. Peguei uma ficha pra mim e uma pro meu pai, minha mãe já tinha feito o dela na semana passada, no hospital em que ela trabalha. A minha sogra pegou também, todo mundo pegou. Marquei de fazer o meu na quarta-feira (15). Alguns espaços foram cedidos aqui na Vila para esses testes: a Casa da Memória de União de Vila Nova, que é como um centro cultural com uma exposição contando a história do bairro, o centro social Marista, o Viveiro Escola, que é um espaço de agricultura orgânica, e um Centro de Referência do Idoso em frente à casa da minha mãe. Esse centro de referência foi construído há mais ou menos uns cinco anos e nunca aconteceu nada lá, é um prédio novo que está largado. Junto com o teste de coronavírus tava rolando vacina da gripe para os idosos na entrada, então foi incrível ver essa ação acontecendo dentro desse espaço que estava abandonado.



 

Eu fui fazer o meu teste no Marista. Tinha horário marcado, tinha que levar documento, responder um questionário sobre saúde, etc. Quando eu cheguei, já falei de cara que eu tive [Covid-19], que já me recuperei. A gente coletou o sangue para fazer o teste e recebi um protocolo pra buscar o resultado dois dias depois. Pode ser que dê positivo, que mostre que eu já tive, mas vou pegar de qualquer jeito. Considerando que a Zona Leste está no pico de Covid-19, essa ação é justamente para detectar esses casos e fazer um monitoramento. Isso foi a primeira fase, depois ainda sai o resultado e, se der positivo, a pessoa tem que fazer o RT-PCR pra ter um acompanhamento. Para mim foi muito incrível ver meus vizinhos lá, homens da quebrada, que geralmente têm todo um tabu com exames, né? Deu uma pontinha de esperança porque aquilo não é só um teste, sabe? Significava mais, significava ver o Luizão do ferro-velho lá tendo acesso a isso. Ele é chefe de família e trabalha com reciclagem, o que deixa ele mais vulnerável à contaminação, por exemplo. 

 

Chegou até a passar na televisão, e eu fiquei emocionada. Parece que o bairro foi notado, sabe? Parece que chegou para a periferia, apesar de não ter sido pensada para todas as pessoas do bairro, porque ao todo foram só 3.500 testes. Mas consigo ver uma conquista aí. O que vai sair nesses resultados vai ser muito assustador, levando em conta que somos a região mais afetada, mas ter essa atenção já é uma conquista do bairro. Até pela fama que a região tinha, de só ter baile e forró bons. Agora o bairro tá crescendo, com pessoas preocupadas em trazer essas iniciativas. Eu acredito que sem as lideranças comunitárias essas conquistas não chegariam. Pelo WhatsApp, recebi um áudio da Walkyria Marques, uma das lideranças que estiveram à frente dessa ação, e ela me disse que estava até chorando de emoção. Apesar do trabalho insano e arriscado, ela contou que foi muito compensador poder ajudar essas pessoas. A Walkyria já trabalhava havia anos aqui na região e lutou muito para que esse piloto fosse feito aqui em Vila Nova, ela sabia que éramos uma comunidade especial. Então sou muito grata, mesmo sabendo o porquê desses testes terem vindo para cá. 

 

Meu resultado deu negativo, mas na sexta (17), a Walkyria me mandou uma mensagem dizendo que 30% dos testes deram positivo. E os números aqui continuam subindo cada vez mais. Tenho uma amiga que trabalhou nessa ação de testagem, e ela ficou super preocupada, com medo de se infectar. Isso tudo é muito complicado aqui na quebrada. No começo de julho saiu uma decisão de multa para quem saísse sem máscara. Quando eu vi isso pensei: mas quem é que multa? Porque na quebrada, a autoridade é a polícia. Pensávamos que a polícia iria acompanhar e aplicar multa. Ledo engano, né? Não tem um dia que não tenha viatura na Vila e eu não soube de ninguém que foi multado – e não está todo mundo de máscara. Considerando que a periferia tem mais casos, o quanto é lucrativo para eles essa situação? A verdade é que lucram com a nossa morte. E como [ou por que] vão querer nos poupar? Se essa consciência de prevenção não vier da gente para a gente, não vai ser o governo que vai se preocupar com o nosso isolamento ou a falta dele. Precisamos criar essa consciência porque não vai ser o governo quem vai se preocupar com a gente.

Luana Almeida

Tem 24 anos, é produtora cultural e ligada a projetos musicais independentes da periferia de São Paulo.

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