questões têxteis

“Nem estava vendendo mesmo”

Camisetas pró-Bolsonaro tiveram venda suspensa pelas Americanas.com; dono da confecção diz que pouco se importa

Josette Goulart
29ago2018_19h54
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

O dono da pequena confecção que vendia camisetas com o rosto de Jair Bolsonaro nas Lojas Americanas, e que teve a mercadoria tirada do ar pela empresa sem aviso prévio nesta quarta-feira, foi pego de surpresa duas vezes ao longo do dia.

Primeiro, no início da tarde, quando as vendas explodiram, depois que a venda das camisetas foi divulgada nas redes sociais. Vendeu 50 peças – quando normalmente vendia no máximo duas ou três por dia desde que as colocou na plataforma das Americanas, no início de agosto.

A segunda surpresa veio quando as vendas foram suspensas abruptamente pela empresa, no fim da tarde. “Olha, tudo bem. Nem estava vendendo muito mesmo”, disse o dono da Camisetas Zurc, André Cruz, cuja loja fica em São Paulo. Ele afirmou que produz as roupas por conta própria, e que não tem nada ver com a campanha de Bolsonaro. Segundo Cruz, ele faz as peças desde 2016, e vendia pela internet. Decidiu cadastrar nas Americanas há 20 dias, para “diversificar as vendas”.

As Lojas Americanas, empresa que pertence a Jorge Paulo Lemann, o mais rico empresário do país e um dos mais ricos do mundo, retirou do ar às pressas as ofertas de venda de camisetas pró-Jair Bolsonaro e contra Lula, depois que o assunto começou a circular nas redes sociais. As camisetas que faziam apologia à campanha de Bolsonaro estavam em promoção, por 34,90 reais. A retirada foi feita imediatamente após a repercussão do caso em redes sociais e sites de notícias.

Procurada pela piauí, a assessoria de imprensa da Americanas informou que vendedores independentes estavam negociando os produtos sem autorização. Por meio de nota, a companhia informou que “não autoriza a comercialização de qualquer material de campanha política”.

O dono da confecção, por sua vez, afirma que não era propaganda política. Questionado sobre em quem vai votar, saiu-se com o chavão de que “o voto é secreto”. A assessoria de imprensa de Bolsonaro disse desconhecer quem são os vendedores.

 

O coordenador jurídico da campanha de Geraldo Alckmin, Ricardo Penteado, disse que estuda se tomará alguma medida, para saber se houve “intenção de burlar as regras da propaganda eleitoral”. Ele disse, no entanto, que “está claro que é propaganda irregular”. “Se uma empresa não pode nem doar para um candidato, como poderá fazer propaganda e ainda ganhar dinheiro com isso?”, disse Penteado, referindo-se à distribuição das Americanas.

Além das camisetas do Bolsonaro, opções com uma mão com quatro dedos com a inscrição “Lula ladrão” eram vendidas – e foram retiradas do ar pelas Americanas. Luiz Fernando Pereira, um dos advogados da campanha de Lula, no entanto, considera que a venda não é ilegal. “Se não é feita pelo partido, não tem razão para contestar as vendas”, disse. “Mas cabem processos contra quem usa as camisetas, por ofender Lula”. Na interpretação de um procurador eleitoral que atua em São Paulo – que não se identifica porque o caso é responsabilidade da Procuradoria-Geral Eleitoral, em Brasília – trata-se de uma questão de liberdade de expressão.

A Procuradoria-Geral informou à piauí que, sem conhecer o caso específico, não é possível informar “se é irregular ou fere a lei eleitoral”. Em nota, o órgão ressaltou que analisou este ano uma representação semelhante, contra a venda de camisetas pela internet que estampava fotos de um candidato. E o caso foi arquivado, pois “além de não haver elementos suficientes para a comprovação da materialidade do fato, não ficou configurada a participação do candidato na confecção das camisetas”, segundo a Procuradoria. O órgão entendeu ainda que um simpatizante mostrar apoio à candidatura, naquele caso, dizia respeito “à livre manifestação do pensamento”.  

Josette Goulart (siga @JosetteGoulart no Twitter)

Fundadora da Lagartixa Diária, o jornal das redes sociais. Trabalhou no Valor Econômico, O Estado de S. Paulo, entre outros

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