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“Ninguém poderia imaginar”

A piauí teve acesso a mais de 100 documentos mostrando a sociedade oculta entre grandes escritórios de advocacia brasileiros e algumas das maiores bancas estrangeiras

10jun2022_08h52

Numbers in Color, by Jasper Johns, 1959: “Baker McKenzie both supports and expects Trench Rossi Watanabe's compliance with the Bar Association and all other local law requirements”

Uma reportagem de Ana Clara Costa, publicada na edição de junho da piauí, revela os detalhes sigilosos da associação entre escritórios de advocacia brasileiros com estrangeiros, o que não é permitido por lei. O principal escritório é o Trench Rossi Watanabe, que mantém sociedade com o norte-americano Baker McKenzie, uma das maiores bancas do mundo. A piauí teve acesso a mais de cem documentos sobre a sociedade Baker-Trench.

 

 

 

* Os documentos mostram que, ao começar a ser investigado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Trench concebeu um plano para tirar de sua contabilidade todos os dados sobre empréstimos que havia recebido do Baker. “A ameaça de a OAB investigar nossos dados internos (tributários, contábeis, financeiros, de gestão etc.) é real e agora mais próxima do que qualquer um poderia imaginar”, diz um dos documentos. Outro trecho: “Nós temos vulnerabilidades reais, sendo que a maior delas são as evidências dos empréstimos do Baker McKenzie em nossos relatórios contábeis e tributários, assim como nos registros do Banco Central.”

 

 

* A piauí também apurou que o Baker operou pesado – com acusações até de truculência – para saber o papel concreto do Trench Rossi Watanabe no escândalo que atingiu a banca em 2017. Na ocasião, o escritório contratou um ex-procurador da República, Marcelo Miller, que seria acusado de fazer jogo duplo: como procurador, trabalharia no acordo de delação dos irmãos Batista, donos da JBS e enrolados na Lava Jato; como futuro empregado do Trench, trabalharia no acordo de leniência da J&F, a holding dos irmãos Batista. Equipes do Baker chegaram a interrogar advogados do Trench por dez horas em locais transformados em salas de interrogatório.

 

 

* Outro escritório vinculado a uma banca estrangeira é o Tauil & Chequer, que se associou à firma norte-americana Mayer Brown. Relatórios contábeis examinados pela OAB mostram que a banca estrangeira fez aportes financeiros até para expandir os escritórios do Tauil & Chequer no Brasil, o que também é vedado pela lei brasileira.

 

* Desde a criação do Estatuto do Advogado, em 1994, a OAB veda que nacionais se associem a estrangeiros. A parceria, para se dar nos termos da lei, deve limitar-se a acordos de cooperação. Mas, no meio jurídico, não é segredo que algumas parcerias vão além da mera cooperação – prática irregular que a OAB, devido às restrições de acesso a dados privados, tem dificuldades de fiscalizar. O que o meio jurídico não conhece são os detalhes privados desse tipo de sociedade, nem os cuidados adotados internamente para evitar que dados reveladores venham a público – como faz a reportagem da piauí deste mês.

 

 

Assinantes da revista podem ler aqui a íntegra da reportagem.

 

 

 

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