questões epidemiológicas

No rastro da Covid-19

Como duas cidades brasileiras aplicam a metodologia do contact tracing para reconstituir o percurso do vírus e reduzir o contágio

Luiza Ferraz
15jul2020_09h39
Ilustração de Paula Cardoso

Apesar de estar a mais de 400 km de distância do litoral paulista, em Jaboticabal os primeiros casos de Covid-19 chegaram pelo mar. Em meados de março, aproximadamente 120 moradores da cidade voltaram de uma viagem de cruzeiro pela costa brasileira no navio Costa Fascinosa. A embarcação, da companhia italiana Costa Cruzeiros, atracou no Porto de Santos depois de passar por Búzios, Salvador e Ilhabela. O navio chegou a enfrentar uma quarentena de catorze dias após confirmar o primeiro caso da doença. De acordo com a Vigilância Epidemiológica de Jaboticabal, os habitantes da cidade que haviam retornado de viagem começaram a apresentar sintomas no dia 16 de março. Naquele mês, todos os dezoito casos da doença no município eram de pessoas que participaram do cruzeiro.

Com 77 mil habitantes, a “capital do amendoim”, como Jaboticabal também é conhecida, contabilizava 150 casos confirmados do novo coronavírus até esta terça-feira (14) – dezenove a cada 10 mil habitantes. O município, que fica a mais de 350 km da capital paulista, pertence à Região Metropolitana de Ribeirão Preto.

Tão logo foram confirmados os dois primeiros casos de Covid-19, em 22 de março, a prefeitura anunciou a paralisação do transporte público e a quarentena na cidade. Naquele momento, outros onze pacientes ainda aguardavam resultados. Ao final daquela semana, em 27 de março, o Executivo municipal inaugurou, na quadra esportiva da escola municipal Coronel Vaz, no Centro da cidade, o Centro de Atendimento Covid (CAC), montado para atender pacientes com sintomas de Covid-19. O centro funciona 24 horas por dia. A equipe inclui enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos e médicos veterinários – deslocados para auxiliar no monitoramento e rastreamento de casos no centro de atendimento por serem residentes em saúde pública na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O paciente, ao chegar, passa por uma triagem e é encaminhado a um dos médicos disponíveis. Caso apresente sintomas, a pessoa retorna para casa e fica em avaliação durante catorze dias, sendo que a cada 48 horas algum funcionário do centro de atendimento entra em contato para fazer uma atualização do estado do paciente. A partir desse momento, é feito o rastreamento por telefone de todos os familiares mais próximos com quem ele teve contato. Os suspeitos são aconselhados a procurar o CAC e passar pelo mesmo processo. Caso o quadro seja agravado, ele é orientado a fazer uma nova avaliação presencial, onde é submetido ao teste rápido. Por ser um espaço provisório e de triagem, não há possibilidade de internação. Isso significa que, caso um paciente com sintomas graves de síndrome gripal dê entrada no centro de atendimento, ele será encaminhado à unidade de saúde mais próxima dentro do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) reservado para isso. Até terça-feira (14) 2.261 pessoas já tinham sido atendidas e 434 estavam em monitoramento com suspeita da doença.



“Geralmente, a transmissão é dentro da própria família, e costuma ser um ou dois casos no máximo”, disse à piauí a enfermeira responsável pelo Centro de Atendimento Covid de Jaboticabal, Irani Celia Marques. Segundo ela, em média 55 pessoas são atendidas diariamente por lá. Além de ficar à tarde no espaço médico montado na escola municipal, pela manhã também é a enfermeira encarregada pelo serviço do Samu. Os moradores também podem tirar dúvidas sobre sintomas e sobre a doença pelo Disque Covid. Caso exista suspeita de Covid-19, eles são orientados a procurar o CAC para fazer o atendimento inicial. Também foi inaugurado um Disque Denúncia, o Disk Aglomeração, para denúncias de comércio aberto irregularmente, festas e aglomerações.

Desde junho, em parceria com a Unesp, a prefeitura iniciou um estudo baseado na pesquisa feita pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, para mapear os casos do novo coronavírus em Jaboticabal. A cada três semanas, aos sábados e domingos, equipes vão até 250 casas sorteadas previamente e realizam a testagem de um dos integrantes – escolhido também aleatoriamente. Caso o teste dê positivo, todos os outros integrantes daquele núcleo familiar são testados. Até agora 496 domicílios foram visitados e 531 testes realizados. O estudo deve ser concluído no final deste mês.

 

Na cidade mineira de Araxá, o rastreamento de contatos segue a cartilha da Organização Mundial da Saúde (OMS): assim que um caso de coronavírus é confirmado, todas as pessoas com quem ele teve contato são localizadas e orientadas a fazer o teste e ficar em quarentena. Em casos suspeitos, a regra é fazer o monitoramento, que pode variar de sete a catorze dias. No sétimo dia, eles são submetidos a um teste rápido. Se o resultado vier positivo, a pessoa é direcionada para realizar o tratamento e os seus contatos são rastreados. Segundo a secretária municipal de Saúde, Diane Dutra, a iniciativa está em vigor desde março. O primeiro caso suspeito na cidade foi noticiado em 28 de fevereiro, mas foi descartado dali a alguns dias. A confirmação do primeiro positivo veio mais de um mês depois, em 9 de abril. Naquele momento, havia também um caso de morte investigada como sendo decorrente do novo coronavírus.

O trabalho de rastreamento de casos suspeitos é feito de porta em porta pelos agentes comunitários integrantes do programa Estratégias Saúde da Família (ESF). O programa tem um trabalho contínuo de cadastro de todos os moradores com suas respectivas necessidades de saúde. O objetivo é mapear as deficiências de cada local e prover a assistência necessária junto com a Secretaria Municipal de Saúde. De acordo com a pasta, cerca de 60% da população já é cadastrada no sistema. Em tempos de coronavírus, além das perguntas sobre o estado de saúde do morador e as questões daquele bairro, a presença de sintomas de Covid-19 também passou a ser abordada. Quando o relato é de apenas um sintoma, o agente realiza o agendamento do teste para aquela pessoa e orienta que ela fique em casa. Mas no caso de dois ou mais sintomas, ela é encaminhada a uma consulta médica onde fará um exame o mais rápido possível. Os moradores também podem tomar a iniciativa de procurar assistência médica e pedir o teste; a prefeitura disponibiliza oito linhas telefônicas para as quais as pessoas ligam e são cadastradas no sistema de monitoramento.

Com aproximadamente 106 mil habitantes, segundo o IBGE, a cidade turística, conhecida pelas suas águas termais e lama negra medicinal, começou o isolamento social em março, quando apenas o funcionamento de serviços considerados essenciais era permitido. A desinfecção das ruas e outros lugares públicos passou a ser uma atividade semanal. A flexibilização do comércio só teve início em junho, quando o prefeito Aracely de Paula publicou um decreto autorizando atividades esportivas, cultos religiosos, restaurantes e parques – cada um com restrições, como horários de funcionamento, distanciamento social, limite de pessoas e outras determinações. “Como os números estão favoráveis e o controle está razoavelmente tranquilo, vamos a cada semana ampliando e aguardando resultados para ver se podemos continuar”, explicou Dutra à piauí

A cidade, no Triângulo Sul mineiro, é referência de internação para outros sete municípios integrantes da microrregião de Araxá (Perdizes, Santa Juliana, Pedrinópolis, Tapira, Pratinha, Ibiá e Campos Altos). Dessa forma, todos os moradores que precisam de internação são encaminhados à Santa Casa de Misericórdia de Araxá, que nesta terça-feira (14) estava com 46% de lotação em leitos de UTIs e 12% em leitos de enfermaria, segundo dados da Secretaria de Saúde. 

No final de junho, a prefeitura começou a utilizar o teste RT-PCR, exame que detecta a presença do vírus causador da Covid-19, o Sars-CoV-2, na amostra analisada. Desde então, todas as pessoas que apresentam algum sintoma gripal são submetidas à testagem. Até terça-feira (14), eram 1.804 pessoas em monitoramento, 321 casos confirmados do novo coronavírus e seis mortes pela doença. Com um índice de isolamento que gira em torno de 38% a 40% e média de seis a sete novos casos por dia, somados à baixa ocupação de leitos, a cidade vem colhendo resultados da testagem abrangente e da política de rastreamento de contatos, diz a secretária de Saúde. “O que estamos vendo é que as pessoas que estão sendo orientadas estão cumprindo o isolamento, então tem sido possível cortar a disseminação do vírus”, afirma Dutra.

Luiza Ferraz (siga @lz_ferraz no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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