questões da desigualdade

A noite mais fria, na capital mais fria

As histórias de quem vive nas ruas geladas de Curitiba  - e por que muitos ainda recusam acolhimento nos abrigos públicos

Felippe Aníbal
30jul2021_17h30
De colete azul, funcionária da prefeitura aborda pessoa em situação de rua em Curitiba –
De colete azul, funcionária da prefeitura aborda pessoa em situação de rua em Curitiba – Fotos: Felippe Aníbal

Fazia 8,6ºC às 18h30 da última quarta-feira (28), quando uma das Kombis da Fundação de Ação Social (FAS) estacionou à lateral da movimentada Praça Tiradentes, considerada o marco zero de Curitiba. Nem bem desembarcou, a educadora social Elaine Murmel já avistou um homem que tentava se acomodar sob meia dúzia de mantas, sentado a um canto da calçada, alheio ao movimento. Assim que o abordou, a servidora o reconheceu: era Moacir Coral, de 51 anos, que vive em situação de rua. “E então, seu Moacir? Vamos para o abrigo? A temperatura vai cair muito. Vai para -1ºC”, convidou. Apesar de relatar que tinha sofrido duas convulsões ao longo do dia e de estar tiritando de frio, ele relutou. Disse que preferia ficar ao relento. Só aceitou o acolhimento depois que um colega das ruas interveio. “Você vai, seu Moacir, porque essa noite vai ser brabo. Pelo menos você toma um banho e dorme no quente”, argumentou. Depois de cinco minutos de conversa, o amigo ajudou Coral a subir na Kombi. Em seguida, entregou-lhe a Bíblia que tinha ficado no chão e lhe deu cinco reais. “Pelo menos eu fico tranquilo sabendo que ele não vai morrer de frio”, disse.

Coral foi uma das 148 pessoas levadas a abrigos da Prefeitura de Curitiba por equipes da FAS, por meio desse serviço de busca ativa, entre a noite de quarta e a madrugada de quinta-feira (29). No total, 1.105 passaram a madrugada em albergues ou casas de passagem do município – um recorde. Desde que o inverno começou, a procura por um teto para dormir aumentou cerca de 30%, segundo a FAS. A demanda fez jus ao termômetro. De quarta para quinta-feira, a capital que tem fama de ser a mais fria do país enfrentou temperatura de -0,8º (a menor desde julho de 2013), com sensação térmica de -6,5ºC, segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). A onda de frio que atingiu todos os estados da região Sul, além de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais e Rio de Janeiro, foi aguda em Curitiba, que não tem temperaturas médias tão baixas desde 2000. 

Sempre que a previsão é de temperaturas inferiores a 9ºC, a FAS reforça as ações de abordagem de pessoas em situação de rua, convidando-as a passar a noite em equipamentos da prefeitura. Só na região central, eram treze equipes fazendo esse serviço. Desde 15 de maio, já foram registrados mais de 56,4 mil acolhimentos e 6,5 mil abordagens. No ano passado, durante todo o inverno (de 15 de maio a 15 de setembro), foram 135 mil acolhimentos de pessoas em situação de rua e 15,8 mil abordagens pela FAS. Se Curitiba conseguiu, até agora, evitar a morte de pessoas em situação de rua, em São Paulo já foram registrados 16 óbitos, segundo o Movimento Estadual das Pessoas em Situação de Rua (MEPSR-SP). Nesta sexta-feira, a capital paulista atingiu sua temperatura mais baixa em 17 anos: 3,5ºC, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE). 

Assim que Coral se acomodou na Kombi, outros quatro homens já se preparavam para embarcar. Esses reconheceram as agentes e, espontaneamente, pediram acolhimento. “Eles veem os coletes azuis e já sabem que somos nós”, disse a assistente social Camila Wenderico. “Nunca lotamos uma viagem tão rápido. Eles sabem que vai fazer frio pra valer”, observou. Já no Centro POP Rebouças – o albergue em que passariam a noite –, os acolhidos receberiam alimentação, tomariam banho e dormiriam em um quarto coletivo. Enquanto aguardava o cadastramento, Coral conversava com as agentes da FAS. Alcoolista, ele perdeu as contas dos anos que passou nas ruas. Chegou a ficar sóbrio por um longo período quatro anos atrás, depois que o irmão dele morreu, mas teve uma recaída. Pela tela do celular, Elaine mostrou a Coral fotos que ele postou em sua conta no Facebook no tempo em que esteve afastado do álcool. Ele se emocionou ao ver as imagens, em que aparece ao lado da irmã, do filho e do neto. “Eu quero parar”, balbuciou. “O seu Moacir é um velho conhecido nosso. Já passou por diversos tratamentos, inclusive psiquiátrico, mas sempre teve recaídas”, lamentou Elaine. “Bem… pelo menos hoje ele está livre do frio”, acrescentou.

Assim que a Kombi se pôs novamente a caminho do centro, Elaine recebeu pelo celular um “protocolo” – ou seja, um pedido para atender a chamados feitos por cidadãos, a partir do telefone 156. Conforme o relato, alguém estava ao relento, nos arredores do antigo Paço Municipal. Ali, a equipe logo localizou um jovem que dormia enrolado apenas em um cobertor corta-febre. Enquanto caminhava até o veículo da prefeitura, usando chinelo de dedos e uma blusa com capuz, ele tremia ante o vento cortante. “Eu não gosto de ir para o acolhimento. Amanhece, já mandam a gente embora. Mas hoje não tem jeito”, disse, apresentando-se como Eliezio da Silva, de 21 anos. “Tenho família, mas eles já têm os problemas deles. Então, caí pra rua”, contou. 

A Kombi rodou mais 200 metros e parou novamente na Praça Tiradentes, para outro “protocolo”. O homem que se identificou como Raimundo Nonato, no entanto, recusou a oferta. Nascido em Sobral, Ceará, ele carregava um cobertor bem enrolado e usava uma blusa grossa com capuz. Disse que passaria a noite em uma obra, ali perto. Como ele, outras 67 pessoas foram abordadas pela FAS naquela noite, mas recusaram atendimento.

Não são os únicos a refutar o acolhimento. Apesar das ondas severas de frio, têm sobrado vagas nos equipamentos da prefeitura. Entre o frio e o abrigo, muita gente prefere continuar na rua. As operações da prefeitura, ao mesmo tempo em que acolhem, também podem gerar tensão e soar agressivas à população de rua. Quando uma pessoa aceita acolhimento, por exemplo, pode levar para o abrigo os seus cobertores (que ficam em guarda-volumes na instituição). As cobertas deixadas para trás são, posteriormente, recolhidas por equipes da prefeitura. Mas mesmo assim há casos em que pessoas em situação de rua tiveram pertences descartados, por não estarem perto quando os funcionários que recolhem os materiais abandonados passaram. 

Para quem está em situação de rua, o abrigo é um apoio, mas não resolve a situação mais grave, a falta de moradia, e não cria cria condições para superar a situação de rua, diz o coordenador do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), Leonildo José Monteiro Filho. “É enxugar gelo. Casa de passagem não é moradia. Não precisa dar casa, mas a pessoa precisa ter a chave na mão. Isso é habitação”, disse. Ele mesmo morou nas ruas por cinco anos – entre 2004 e 2009. Disse que, por causa das regras impostas, preferia dormir em terrenos baldios a ser acolhido em albergues. “Se você tem uma companheira, não pode ir com ela [para o acolhimento]. Se tem um cachorro, é difícil achar vaga. Se você tomou uma cerveja, não pode ir. Não resolve o problema”, defendeu. 

Em Curitiba, albergues e casas de passagem somam 2.047 vagas, mas, mesmo nas madrugadas de temperaturas mais baixas, cerca de mil lugares têm ficado ociosos a cada dia. A FAS estima, a partir de informações do Cadastro Único, que Curitiba tenha 1,9 mil pessoas vivendo nas ruas. “Temos mais vagas do que pessoas em situação de rua. Muitos deles fazem uso de álcool e de outras substâncias. Sentem-se seguros para ficar da forma que estão e não querem ser incomodados. A gente insiste. Tem a oferta do serviço. Cada pessoa que a gente consegue trazer para o acolhimento é uma vitória. A partir disso, as equipes tentam estreitar o vínculo e, quem sabe, ajudar na evolução para que deixem a situação de rua”, disse o presidente da FAS, Fabiano Vilaruel. 

Para o MNPR, no entanto, o número é bem maior. A entidade estima entre 5 mil e 6 mil o número de pessoas em situação de rua em Curitiba. Segundo a FAS, além dos albergues e casas de passagem, a capital dispõe de três hotéis sociais, voltados a pessoas que já têm certa autonomia e que estão em processo de deixar as ruas.

 

Às 20 horas, a Kombi da FAS voltou à Praça Tiradentes e, assim que estacionou, outros quatro homens pediram para ser levados para acolhimento. Entre eles, Edi Wagner Soares, de 42 anos. Negro, de um 1,90m de altura e cabeça rapada, ele vestia uma jaqueta comprada naquele mesmo dia – e que ainda estava com a etiqueta –, calça jeans e sapatênis. Falando com desenvoltura, dizia ter “duas faculdades” – engenharia mecânica e da computação – e que tinha sido piloto de testes da Volvo. Contou que em dezembro, em um intervalo de dez dias, ele perdeu a mulher e a filha de 10 anos para a Covid-19 e que, em depressão, passou a viver nas ruas. Nove dias atrás, Soares começou a trabalhar como motorista. Planejava sair logo das ruas. No trajeto até o albergue, colocou no celular alguns vídeos em que ele aparece falando de Deus e outros em que fala sobre sua condição nas ruas. “As pessoas veem quem tá na rua como um vagabundo, pilantra, animal. Não como ser humano. Quem tá na rua não tem quase nada, mas divide o pouco que tem. Vi muitas pessoas que merecem ser ajudadas. Talvez minha missão seja mostrar que quem tá na rua tem valor”, disse. “Ninguém quer tirar as pessoas das ruas. As pessoas vêm, dá uma marmita, uma sopa, mas pra filmar e colocar nas redes sociais, pra aparecer em cima de quem tá na pior”, observou. Soares também se queixou da truculência de funcionários de alguns albergues, o que, segundo ele, contribui para afastar a população em situação de rua dos serviços. “Eu já saí de um Centro Pop no meio da madrugada, porque os funcionários bateram em um senhor. Não aceito ficar num lugar assim”, disse.

Às 22 horas, a uma temperatura de 5,6ºC e sensação térmica de 1ºC, não se via ninguém circulando na Praça General Osório, também no Centro. O silêncio só foi quebrado por tosses altas e contínuas que levaram os agentes da FAS até Tarcísio Castro Krulikoski, de 39 anos, que estava sentado sob uma marquise, do outro lado da rua. Com quadro de hepatite C e cirrose hepática, cuspia sangue. Pediu para ser levado a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), com a condição de que houvesse onde deixar seus dois cães: Neguinho e Lilica – que tem parte de uma das patas traseiras amputada. “Só vou se puder ir com eles. Prefiro morrer no frio a deixar meus cachorros”, disse. Com todos a bordo, a equipe os levou a uma das três unidades que dispõem de canis – são dezoito vagas, no total. Com Neguinho e Lilica instalados, Krulikoski deu entrada na UPA do Boqueirão. “Assim que eu tiver alta, eu volto pra buscar eles”, ressaltou. “Nasci em Apucarana [interior do Paraná], tô na rua há mais de 20 anos. Não fico em albergue. Não gosto de ninguém mandando em mim. Saí [de casa] por briga de herança. Tenho três filhos. Eles nem sabem se tô vivo”, contou. “Se não fosse isso, de tá cuspindo sangue, eu ia ficar na rua mesmo”, frisou.

Enquanto Krulikoski era encaminhado a atendimento, as agentes da FAS foram chamadas por socorristas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que tinham acabado de resgatar um idoso com princípio de hipotermia, no Centro. Sentado no corredor da UPA, ele já tinha sido estabilizado e aquecido, mas respirava com dificuldade e se queixava do frio. Ainda assim, não queria ir para uma casa de passagem. “Eu passei um susto. Eu tava congelando e pensei que fosse morrer, filho. Nem sei quem chamou o Samu. Eu tive sorte. Era pra tá morto agora”, disse Luiz Carlos Cavalheiro, de 70 anos, com voz arfante. No entanto, de cara ele foi reconhecido por Eliane e Camila, que o convenceram a dormir em um dos abrigos da prefeitura. Quando lhe perguntei porque tinha evitado o acolhimento, ele respondeu de forma lacônica: “Deus sabe, filho.” Em seguida, subiu com dificuldade na Kombi. “Será que amanhã vocês não me arranjam uma bengalinha? Tá difícil de andar”, pediu.

Monteiro Filho, do Movimento Nacional da População de Rua – Foto: Felippe Aníbal

 

Às 23h30, com temperatura de 3ºC e sensação térmica de 0ºC, Elaine, Camila e o motorista Elias dos Santos deram o expediente por encerrado, tendo encaminhado dezoito pessoas para acolhimento. Para quem permaneceu na rua, naquela noite Curitiba estreou um outro espaço: uma espécie de central de apoio, instalada atrás da Praça Tiradentes – em um prédio cedido pela prefeitura e onde até às 19 horas funciona o programa Mesa Solidária, em que a sociedade civil fornece refeições a pessoas em condição de vulnerabilidade. “A ideia é que aqui funcione como um quartel-general, onde quem não quis r ir para o albergue possa vir, tomar um café, fazer um lanche, usar o banheiro, se esquentar…”, disse Monteiro Filho. O local passa a madrugada aberto, até às 7 horas da manhã. Além disso, as pessoas em situação de rua também podem ir para um albergue inaugurado na quarta, que funciona em outro espaço da prefeitura, mas que é mantido por entidades da sociedade civil. “Quem não quer ficar nos equipamentos da FAS, por qualquer questão, tem essa possibilidade agora”, resumiu o coordenador do MNPR. “Eu já senti isso na pele e sei o quanto o frio dói. Nós estamos há mais de uma semana nos preparando para esse pico negativo, articulando esforços com igrejas e entidades, para que ninguém perca a vida”, afirmou.

Na madrugada, a temperatura continuou caindo, fazendo com que a capital paranaense amanhecesse abaixo de zero grau. A operação especial, com buscas ativas a pessoas em situação de rua se estende pelo menos até sábado (31), quando essa onda de frio deve permanecer com intensidade pelo Paraná.

Felippe Aníbal (siga @felippeanibal no Twitter)

Repórter freelancer em Curitiba.

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