Igualdades

O 7×1 da Covid

Hellen Guimarães e Renata Buono
21jun2021_09h30

Em meio ao imbróglio sobre a realização da Copa América no Brasil, a realidade de um país que já perdeu mais de meio milhão de vidas para a Covid-19 se impôs. Entre os dias 1 e 8 de junho, logo após o anúncio da Conmebol e em meio à crise na Confederação Brasileira de Futebol, a expectativa por um pronunciamento contundente dos jogadores da Seleção, que demonstravam insatisfação nos bastidores, fez as buscas pelo torneio chegarem ao ponto máximo da escala do Google entre o fim do jogo Brasil x Equador e a entrevista do volante Casemiro. Ainda assim, a média de buscas por “sintomas covid” foi duas vezes maior que a por “Copa América” nos estados-sede no período. O crescimento na procura por essa expressão costuma preceder o aumento de novos casos diagnosticados por semana. O interesse por sintomas específicos, como “não sinto cheiro/gosto” e “falta de ar”, já se aproxima dos patamares de março, quando o Brasil registrou o pico de infecções por coronavírus. Na estreia da Copa América, o Brasil venceu uma Venezuela desfalcada por treze atletas contaminados. Até o momento, o Ministério da Saúde confirma 82 casos positivos entre jogadores, delegações e prestadores de serviços. Para completar, o relatório de mobilidade do Google mostra movimentação em mercados e farmácias bem mais intensa que a média anterior à pandemia, tal qual na semana do Natal. Isso indica uma redução significativa no isolamento que, àquela altura, resultou em recorde de novos casos. Confira no =igualdades.

Entre o dia 1 de junho, quando o presidente Jair Bolsonaro confirmou que o Brasil sediaria a Copa América, e o dia 8, data marcada pelos jogadores da Seleção para se pronunciarem oficialmente sobre sua insatisfação com o torneio, o campeonato foi uma das principais pautas do noticiário nacional. No dia 4, às 23 horas, entre o fim de Brasil x Equador e a entrevista do volante Casemiro, a busca por “Copa América” explodiu e atingiu os 100 pontos, patamar mais alto da escala do Google. Mesmo assim, nos três estados-sede, a média de buscas por “sintomas covid” foi duas vezes maior que a por “Copa América” no período. A exceção é o Distrito Federal, onde a diferença foi pequena (17 a 13), mas também desfavorável à Copa.

Dados verificados no dia 8 de junho às 13h.

Na madrugada do dia 7 de junho, a busca por “sintomas Covid” no Mato Grosso chegou a 90 pontos, 13 vezes maior que o interesse por Copa América registrado naquele momento, de 7 pontos. É a maior disparidade de procura entre os termos nos estados-sede naquela semana. Mesmo durante Brasil x Equador, quando a busca pelo torneio atingiu o ponto máximo da escala (100 pontos) nas quatro sedes, a diferença era bem menor: a busca pelo campeonato era cinco vezes maior que a por sintomas (100 para 18 pontos). Após a confirmação de que os atletas jogariam a Copa, ocorrida no fim da manhã daquela segunda-feira, as buscas por “Copa América” arrefeceram. Durante o jogo contra o Paraguai pelas Eliminatórias, no dia seguinte, a procura até aumentou, mas não passou dos 40 pontos na escala.

Dados verificados no dia 9 de junho às 14 horas.

Nos primeiros dez dias de junho, o Brasil foi o terceiro país do mundo que mais buscou por “falta de ar” no Google, atrás apenas de Líbia (80 pontos) e Indonésia (100 pontos). No acumulado do mês, as buscas pelos sintomas específicos já se aproximam dos patamares de março, quando o país bateu recorde de infecções por Covid-19. Àquela altura, o Brasil registrava 53 pontos na busca por “não sinto cheiro” e, agora, são 49. Na procura por “não sinto gosto”, eram 46 pontos em março e, agora, 39. Finalmente, o interesse por “falta de ar”, que registrou 72 pontos em março, já chega a 67 em junho.

O interesse por “falta de ar” no Mato Grosso do Sul é o mais alto já registrado no estado desde o início da pandemia e o maior do país em junho. As buscas bateram os 100 pontos, patamar máximo na escala do Google. O principal indicador da situação da pandemia, a média móvel de mortes, dobrou no estado: de 25 mortes em 16/05 para 50 em 09/06. No dia 10, o estado informou que tinha 43 municípios em risco extremo para Covid-19, incluindo a capital Campo Grande. A situação levou o governo a determinar medidas de restrição mais rígidas, autorizando o funcionamento apenas de serviços essenciais.

Em Sergipe, as buscas por “não sinto cheiro” e “não sinto gosto” já chegam aos 100 pontos em junho, o nível máximo da escala do Google. Isso faz do estado o líder de pesquisas por esses sintomas no Brasil. No dia 2, o estado registrou a segunda maior média móvel de casos desde o início da pandemia, inferior apenas à de julho de 2020. Naquele momento, as buscas por “não sinto gosto” também bateram os 100 pontos; um mês antes, a procura por “não sinto cheiro” estava no mesmo patamar. Isso indica que a curva de novos casos, em estabilidade por metade do mês, pode crescer nas próximas semanas.

Na virada de maio para junho, as buscas por “falta de ar” quase triplicaram em três estados. No Amapá, o aumento foi de 175%, com o interesse saindo de 12 para 33 pontos na escala. Em Roraima, o crescimento foi de 173%, de 26 para 71 pontos. No Rio Grande do Norte, o salto foi de 168%, de 34 para 91 pontos.

No fim de maio, vinte e dois estados e o Distrito Federal registraram aumentos recorde no número de visitantes em mercados e farmácias. A comparação leva em conta o movimento médio nesses estabelecimentos antes da Covid-19. Além de ter esses estabelecimentos mais cheios do que antes da Covid, dez estados registraram o maior aumento no fluxo de pessoas desde o início da pandemia. Em outros treze, o aumento só fica atrás do registrado na semana do Natal. Duas semanas depois, em 10 de janeiro, o país batia o recorde de novos casos diagnosticados por semana.

Hellen Guimarães (siga @HellenGuimaraes no Twitter)

Repórter da piauí. Trabalhou em O Globo, Extra, Época e Agência Lupa

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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