anais da corrupção

O amigo oculto de Temer

Dono de empreiteira é apontado nas investigações como operador do ex-presidente

Malu Gaspar
22mar2019_19h17
Intervenção de Paula Cardoso sobre foto da Folhapress e de material apreendido na operação
Intervenção de Paula Cardoso sobre foto da Folhapress e de material apreendido na operação

Em meio ao tumulto das prisões na Operação Descontaminação, passou despercebido um personagem que, para a Polícia Federal e o Ministério Público, tem potencial para trazer à tona vários segredos ainda recônditos do esquema de corrupção em que está envolvido o ex-presidente da República Michel Temer. Trata-se de Vanderlei de Natale, dono da empreiteira Construbase, descrito pelos procuradores do Rio de Janeiro como operador de Temer.

De Natale foi uma das oito pessoas presas ontem, em caráter preventivo (outras duas tiveram decretada a prisão temporária).  No pedido de prisão cautelar feito pelo MP, ele é acusado de lavar dinheiro usando a PDA Projetos e Direção Arquitetônica, empresa de fachada do coronel João Batista Lima Filho, ou coronel Lima, testa de ferro do ex-presidente Temer. A PDA não tem nenhum funcionário, e no entanto, emitiu notas fiscais de  serviços durante anos para empresas ligadas ao esquema. Só a Construbase repassou 17,7 milhões de reais à PDA entre 2010 e 2015. O advogado do empreiteiro, Fernando José da Costa, nega o crime. Ele afirma que o prestador de serviços era o próprio coronel e que a PDA apenas emitiu as notas. Costa diz que  vai apresentar provas de que os serviços foram prestados – mas não quis dizer quais serão elas. “Isso a defesa vai apresentar no momento oportuno.”

Nos e-mails reunidos pela investigação, De Natale é chamado de “vizinho”. Ele mora no mesmo bairro de Temer, em São Paulo, a aproximadamente quatro quadras da casa do ex-presidente. Na peça acusatória, os procuradores fluminenses dizem que De Natale intermediava os contatos do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear, com o coronel Lima. De Natale teria sido ainda quem montou a sociedade entre a Argeplan, empresa de Lima, e uma companhia finlandesa chamada AF Consult, com especialidade em obras para instalações nucleares. Só depois dessa associação a Argeplan pôde entrar no consórcio para atuar na construção de Angra 3 – e do qual, segundo o MP, recebeu 10,8 milhões de reais sem prestar nenhum serviço.  

Embora o papel de Natale na trama que levou à operação de ontem seja lateral, os investigadores acreditam que ele seja um personagem-chave no tabuleiro de Temer.  Self-made man que começou como office boy e acabou comprando a firma onde trabalhava, De Natale prosperou com obras de hospitais, edifícios administrativos, viadutos e pontes para o estado de São Paulo. São da Construbase os edifícios do Instituto do Coração, Instituto do Câncer, Instituto da Criança, o Arquivo Público de São Paulo e várias obras viárias na grande São Paulo.

De Natale é amigo de décadas tanto do coronel Lima como de Temer. Segundo o seu advogado, o empreiteiro e o presidente são amigos de longa data,  desde que passaram a fazer caminhada com um grupo de moradores da vizinhança. Nas eleições de 2014, o helicóptero de uma empresa de De Natale, a Juquis Agropecuária, transportou Temer em pelo menos uma viagem de campanha, entre São Paulo e a cidade de Tietê, no interior do estado. No material apreendido ontem pela PF, há um cartão de aniversário para o filho de Temer, Michelzinho, em que Natale e a mulher assinam como “tios Vanda e Vanderlei”. Em um dos depoimentos de sua delação, Lucio Funaro, operador de Eduardo Cunha, afirma ter ficado sabendo da proximidade entre Natale e Temer por volta de 2003,  quando o ex-deputado controlava politicamente a Cedae, estatal de saneamento do Rio de Janeiro. Na época, segundo Funaro, Temer pediu a Eduardo Cunha que conseguisse a liberação de faturas de pagamento por obras realizadas pela Construbase para a Cedae que estavam pendentes. A proximidade era notória entre os concorrentes, que costumavam referir-se a De Natale como “o amigo do Temer”.

De Natale também  tinha um relacionamento de décadas com o coronel Lima, com quem compartilhava não apenas repasses à PDA, mas também um grupo de WhatsApp das respectivas famílias, festas de casamento e viagens conjuntas para o Réveillon em Angra dos Reis e Miami. Em uma operação da  Polícia Federal realizada no ano passado, foi encontrada uma planilha de emissão de notas fiscais escondida em um compartimento secreto do closet de Lima, mostrando que a Construbase fazia repasses à PDA desde 2002 e era responsável por 60% dos valores recebidos pela firma de fachada.

Considerada uma construtora de porte médio, a Construbase tem atuação concentrada em São Paulo, mas também já atuou no Amazonas, no Pará e no Rio Grande do Norte. No governo federal, sua obra mais célebre foi a participação no consórcio Novo Cenpes, que reformou o centro de pesquisas da Petrobras. Um dos diretores da construtora, Genésio Schiavinato Júnior, foi preso em 2016, na fase da Lava Jato que investigou o pagamento de propina de 41,3 milhões de reais para a obtenção da obra, contratada por 850 milhões de reais e finalizada por 1 bilhão. Além da Construbase, o consórcio era formado pelas empreiteiras OAS, Carioca, Schahin, Construcap CCPS.

De Natale e os outros presos da Operação Descontaminação terão seus pedidos de habeas corpus julgados na próxima quarta-feira pelo Tribunal Regional Federal. O advogado Fernando José da Costa argumenta, em seu pedido, que os e-mails juntados pelo braço fluminense da Lava Jato no Rio não comprovam a tese de  que De Natale teve influência na formação do consórcio para a obra de Angra 3. À piauí, ele afirmou que se preparava para dar explicações sobre o caso à Justiça de São Paulo, quando foi surpreendido com a operação do Rio.

Malu Gaspar (siga @malugaspar no Twitter)

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

Leia também

Últimas Mais Lidas

Atiaia, a onça no caminho de Bolsonaro

Governo federal apoia reabertura de estrada que corta Parque do Iguaçu, declarado patrimônio da Humanidade e refúgio de onças-pintadas

Foro de Teresina #65: O sequestro do ônibus, o aparelhamento bolsonarista e a desigualdade brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Nunca fui santa

Às vésperas da canonização de Irmã Dulce, quase 80% dos santos reconhecidos pela Igreja Católica ainda são homens

Cabeças a prêmio – naufrágio do cinema

Por idiossincrasia de Bolsonaro, mas também por nossa incapacidade de reformular a Ancine, estamos por afundar

Os podcasts que eles ouvem

Quais os programas queridinhos dos participantes do evento

Fogo na Amazônia apaga o Sol no Sul

Fumaça de queimadas combinadas em Rondônia, Bolívia e Paraguai cobre o Sol no norte do Paraná, a mais de 2 mil km de distância

Maria Vai Com as Outras #1: Poder

A prefeita Márcia Lucena e a delegada Cristiana Bento contam como exercem o poder em profissões quase sempre ocupadas por homens

Foro de Teresina especial: aguarde

O programa, que contou com a participação da jornalista Maria Cristina Fernandes, foi gravado ao vivo durante o evento que reuniu os melhores podcasters do país

Mais textos
1

Fogo na Amazônia apaga o Sol no Sul

Fumaça de queimadas combinadas em Rondônia, Bolívia e Paraguai cobre o Sol no norte do Paraná, a mais de 2 mil km de distância

2

A vovó fashion

Uma influencer e seus looks ousados

4

Atiaia, a onça no caminho de Bolsonaro

Governo federal apoia reabertura de estrada que corta Parque do Iguaçu, declarado patrimônio da Humanidade e refúgio de onças-pintadas

6

Nunca fui santa

Às vésperas da canonização de Irmã Dulce, quase 80% dos santos reconhecidos pela Igreja Católica ainda são homens

7

O pit bull do papai

Os tormentos e as brigas de Carlos Bolsonaro, o filho mais próximo do presidente

8

A hora dos descontentes

Por medo da diversidade, o Leste Europeu deixou de ver o liberalismo como modelo

10

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos