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O arremesso final – O cinema sobreviverá? Qual? Como?

Antes de atender aos grandes exibidores, é preciso dar prioridade às necessidades da mão de obra do setor audiovisual

Eduardo Escorel
29abr2020_08h34

As curvas que indicam o número de mortos e de portadores confirmados do novo coronavírus no Brasil adquirem, cada dia mais, o aspecto de linhas verticais ascendentes. Sem sinal de inflexão para baixo à vista, os gráficos atestam o agravamento da pandemia que assola o país e a incerteza quanto ao prazo em que será possível reverter o aumento exponencial de vítimas da Covid-19. Ao mesmo tempo, discutem-se com insistência cada vez maior medidas para abrandar o isolamento social. Essa simultaneidade, de um lado, da tragédia humanitária em curso e, de outro, da insistência em propor a retomada da mobilidade pessoal e atividade econômica anteriores aos decretos de calamidade, é sintomática da anomalia atual da sociedade brasileira – resultante também da usina de crises a que se reduz a Presidência da República, tendo à frente o ex-capitão inepto, morador temporário do Palácio da Alvorada. 

Quem ignora o isolamento social, por necessidade ou convicção, põe em risco a vida alheia, além da própria, e parece acreditar que, passada a pandemia, tudo voltará a ser como antes. Ou seja, aparenta crer que retomaremos, sem grandes alterações, meios de vida, práticas e costumes que eram considerados normais. Desconsideram desse modo o impacto causado pela morte de mais de 214 mil pessoas no mundo, das quais mais de 5 mil ocorreram no Brasil – isso até esta terça-feira (28). 

Há vozes discordantes, porém, algumas temperadas com boa dose de incerteza. Um dos primeiros a prever o surgimento de um “novo normal” foi Slavoj Zizek, em 17 de março, citado aqui há um mês. Para ele, “a grande expectativa é que, depois do pico [da curva] que deve chegar rápido [previsão que provou estar errada], as coisas voltem ao normal… O problema é que, mesmo quando a vida voltar ao normal, não será o mesmo normal com o qual estávamos acostumados antes do surto…”. (íntegra disponível aqui)

Atila Iamarino, doutor em microbiologia, foi na mesma direção de Zizek, mas deixou claro não saber ao certo como será esse “novo normal”. No programa Roda Viva, da TV Cultura, em 30 de março, ele disse: “O mundo não vai voltar a ser o que era… É uma situação preocupante. Tem pessoas querendo voltar ao que tinham antes… De imediato, até tomarmos a vacina, teremos que tomar precauções. Nesse meio tempo, as pessoas vão mudar. Tem pais e mães convivendo mais com os filhos. Convivemos com um problema de alguém do interior da China. O mundo vai ser mais diferente mas espero que seja mais unido… Não tem como retomar o que existia antes. Precisamos nos adequar a uma nova economia e ao trabalho remoto. […]” 



Iamarino foi menos categórico na live “Distanciamento Social: Até Quando?”, transmitida em 17 de abril no seu canal do YouTube, em que entrevistou Monica De Bolle e já teve mais de 1,1 milhão de acessos: “A gente não sabe o que está acontecendo ou o que vai acontecer daqui para frente. Eu não sei se vai poder reabrir escola ou não; eu não sei quais são as consequências de a gente reabrir escolas; eu não sei como a gente vai fazer com grandes eventos; quando a gente vai poder voltar a um cinema lotado de gente de novo; talvez com máscara isso seja simples, talvez não seja. É um período incerto, acho que é a mesma coisa para a economia.” Ao que De Bolle retruca: “Exatamente a mesma coisa para a economia. Porque, por ser uma crise de saúde inédita para nós, as implicações econômicas são igualmente inéditas.” 

Além da indefinição quanto aos efeitos sobre a vida na Terra quando houver vacina contra Covid-19 e a pandemia tiver sido controlada, o que só deve ocorrer em dois anos, convém lembrar que o chamado “normal” anterior à calamidade não era plenamente satisfatório para todos, muito menos algo a que todos quisessem necessariamente voltar. 

Por essa razão, no âmbito da atividade cinematográfica, parecem precipitadas e mal direcionadas, no contexto atual, as medidas recentes da Agência Nacional de Cinema (Ancine) para socorrer, entre outros, grandes e médios exibidores proprietários de salas de cinema atualmente fechadas, além de cinquenta a sessenta empresas exibidoras de pequeno e médio porte; assim como aparenta ser extemporânea a Medida Provisória nº 952, publicada em 15 de abril, que prorroga para final de agosto o prazo de pagamento do Fistel – Fundo de Fiscalização das Telecomunicações, formado pela arrecadação da Taxa de Fiscalização de Instalação (TFI) e da Taxa de Fiscalização de Funcionamento (TFF), cobradas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) –, da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) e da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública (CFRP). 

Segundo informação de Fernando Lauterjung na newsletter da Tela Viva, em 23 de abril, o diretor-presidente da Ancine, Alex Braga, anunciou que a parceria formada entre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Ancine e o Ministério do Turismo colocou “o setor audiovisual no rol de setores prioritários no banco de desenvolvimento”. Sem desconhecer que os exibidores enfrentam dificuldades, não seria o caso, porém, de dar prioridade às necessidades pessoais imediatas da mão de obra técnica e artística, além das micro e pequenas empresas produtoras, em vez de atender primeiro aos donos e responsáveis por salas de exibição, deficitários crônicos antes mesmo de terem sido obrigados a interromper suas atividades? O que se impõem são medidas imediatas de caráter excepcional, mesmo tomadas com atraso, para atender necessidades prementes de profissionais autônomos e empresas que fazem filmes no Brasil e estão desempregados ou sem meios de produzir. Trata-se de dar atenção primeiro a quem trabalha em diversas especialidades e funções, atuando na base da indústria audiovisual. 

Muito antes da pandemia, os arautos do apocalipse anunciavam o predomínio dos serviços de streaming e o estado de agonia das salas de exibição. Agora, com o fechamento dos cinemas, teme-se que o desfecho fatal previsto venha de fato a ocorrer. Na entrevista ao Vulture, site da revista New York, em 21 de abril, Paul Schrader desabafa, depois de a filmagem de The Card Counter ter sido interrompida quando um extra, contratado por dia, foi diagnosticado positivo para o novo coronavírus no 15º dia de produção, faltando cinco para terminar. Faltava completar 20% do roteiro e Schrader, aos 73 anos, diz que “por ele, teria continuado a filmar para concluir o filme até com chuva infernal. Eu sou velho e asmático – qual seria maneira melhor de morrer do que trabalhando?” 

Para Schrader, “o que será mais interessante de ver será como os cinemas vão voltar se arrastando e ressuscitar. Existe alguma maneira de o circuito exibidor se reposicionar como uma força importante? Eu acho que a exibição em salas estava pendurada pelas unhas e alguém simplesmente as cortou. Cinemas especializados ressurgirão, da mesma maneira que surgiram boates de blues e salas de concertos sinfônicos. Mas nunca reassumirão o perfil que já tiveram.”  

Schrader supõe que o espetáculo adequado aos multiplex sobreviverá: “Mas acho que até pode estar em perigo agora. O que é mais à prova de falhas são filmes para crianças, porque todo pai quer ver seus filhos se divertindo com outras crianças. Então, se alguma coisa puder voltar, será o cinema infantil. Isso pressupõe que essas empresas, como a AMC [ maior cadeia de cinemas do mundo, que detém a principal fatia do mercado de salas dos EUA], possam sobreviver ao ônus de suas dívidas. Se elas ficarem inativas por oito meses, em qual momento simplesmente venderão seus imóveis? […] Sabemos que a Disneylândia voltará, mas não sabemos se os filmes voltarão. Presumo que você [dirigindo-se ao entrevistador] esteja assistindo a muitos filmes em casa.” 

* 

Para admiradores de Michael Jordan e do Chicago Bulls, está em exibição na Netflix, com novos episódios estreando a cada segunda-feira até 18 de maio, a minissérie The Last Dance (2020). São dez episódios, dirigidos por Jason Hehir, centrados nas partidas finais da temporada 1997-98.  

Cena do documentário The Last Dance

Novas preciosidades do acervo de cópias restauradas da Cinemateca Francesa continuam disponíveis diariamente em  https://www.cinematheque.fr/henri/. A destacar na programação da semana passada Jean Epstein, Young Oceans of Cinema (2011), Mor’vran. La Mer des corbeaux (1930), Sans retour possible (1983), Albatros, debout malgré la tempête (2010) e Retour d’Henri Langlois à Paris (1968), todos acessíveis junto com os demais títulos oferecidos desde 9 de abril.

 

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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