questões musicais

O canto livre de Nara

Eliete Negreiros
11out2012_14h25

Quem tocava muito bem no violão as músicas da bossa nova que a Nara cantava era minha irmã Bete. Eu ficava olhando, ouvindo, impressionada com a facilidade com que minha mana fazia no violão todos aqueles acordes com nonas e décimas terceiras menores, com quinta menor, sétimas aumentadas... Uma encrenca. Mas soava tão bem: Ah! Insensatez, que você fez/ Coração mais sem cuidado... Aí eu me animava e também aprendia a tocar. A bossa nova foi nossa cartilha musical, e com ela João Gilberto, Tom Jobim e Nara Leão.

O jeito de cantar era cool, sem efeitos contrastantes, sem arroubos melodramáticos, afetação ou virtuosismo. O canto fluindo natural como a fala, canto falado, canto baixinho. Nara, a musa da bossa nova, que mais de uma vez rejeitou este título, mesmo quando cantava músicas de protesto tinha um jeito cool de cantar.

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Meditação,Tom Jobim, Newton Mendonça

Nara nasceu em 19 de janeiro de 1942, em Vitória e com um ano a família mudou-se para o Rio - a mãe, o pai, a irmã Danuza e ela. Com 12 anos começou a estudar violão.  Foi em seu mítico apartamento na Avenida Atlântica que ela reunia os amigos - Roberto Menescal, Carlos Lyra, Chico Feitosa, Ronaldo Bôscoli – para cantar e tocar violão. Vinicius, Tom Jobim e João Gilberto também estiveram lá, mas não eram frequentadores assíduos. No entanto, a bossa nova não nasceu aí. Ali foi seu quartel general. A nova música nasceu nas casas noturnas do Leme e de Copacabana onde já estava sendo tocada e cantada pelos então músicos da noite Tom Jobim, João Donato, Dolores Duran, Sylvinha Telles. Sobre a bossa nova, o poeta Manuel Bandeira observou que em consequência das transformações urbanísticas a “música de rua” estava morrendo e um novo tipo de música  popular surgindo no Rio de Janeiro: “Está nascendo uma música intimista, mais apropriada para os apartamentos.”

 

Nara começou a cantar bossa nova, mas o universo “do amor, do sorriso e da flor” era limitado demais para esta cantora que tinha olhos imensos e imensa vontade de se conhecer e de conhecer o mundo, que via o mundo ao seu redor cheio de contrastes, conflitos, desigualdade e que começou a ouvir outras vozes, vozes que vinham do morro, que contavam outras estórias, que cantavam as coisas do mundo, que falavam da vida e dos sentimentos de um povo que vivia à margem do progresso. Nara subiu o morro e redescobriu o Brasil. Qual não terá sido a surpresa do produtor Aloysio de Oliveira quando a musa da bossa-nova mostrou a ele o repertório que havia escolhido para gravar seu primeiro disco? Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Cartola, Elton Medeiros. É claro, havia também Edu Lobo, Baden, Vinícius, Carlos Lyra, os compositores considerados modernos, mas as canções escolhidas longe estavam da temática leve da bossa-nova. A musa se politizara. No LP Nara, gravado em janeiro de 1964, pelo selo Elenco , ela cantou Marcha da quarta-feira de cinzas, Diz que fui por aí, Feio não é bonito, Canção da terra, O sol nascerá, Luz Negra, Berimbau, Vou por aí, Maria Moita, Requiém por um amor, Consolação e Nanã. Cantou o sofrimento e a esperança e nascia um dos discos mais belos e verdadeiros da música popular brasileira.

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Luz negra, Nelson Cavaquinho, Hirai Barros

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O sol nascerá, Cartola, Elton Medeiros

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Berimbau, Baden Powell, Vinicius de Moraes

E outros discos vieram. Da maior importância: Opinião de Nara (1964), O canto livre de Nara (1965), Nara pede passagem (1966), Manhã de Liberdade ( 1966), Vento de maio (1967), para citar alguns. Criticada por seu engajamento político, Nara disse: “Não conheço qualquer proibição contra uma moça de Copacabana cantar samba de morro. Entendo essa música, gosto dela e não tenho culpa de ser da zona sul.” Nara não iria se prender ao rótulo de cantora de protesto, como não havia se prendido ao de musa da bossa nova. O canto de Nara era livre.  A respeito da polêmica que sua liberdade artística causava, ela disse: “O fato é que não quero me limitar a nenhum gênero de música, bossa nova ou bossa velha. Quero cantar o que esteja de acordo com a minha maneira de pensar e de sentir. Posso mudar de novo, quem sabe? Há um mundo a descobrir”.

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Opinião- Zé Kéti

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Carcará, João do Vale, José Cândido

Na contracapa do disco Opinião de Nara, ela escreveu: “Este disco nasceu de uma descoberta importante para mim: a de que a canção popular pode dar às pessoas algo mais que a distração e o deleite. A canção popular pode ajudá-las a compreender melhor o mundo onde vivem e a se identificarem num nível mais alto de compreensão.” Os compositores como Zé Kéti, João do Vale e Sérgio Ricardo, diz ela, “revelam que além do amor e da saudade, pode o samba cantar a solidariedade, a vontade de uma vida nova, a paz e a liberdade.”

Conta Nara: “Encontrei um rapaz, Chico Buarque de Holanda, que é um compositor maravilhosamente afinado com meu temperamento e minhas idéias. Gosto do modo como ele trata a melodia”. Aí nascia a grande amizade e parceria artística com Chico.

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Chico e Nara - A banda, Chico Buarque

Nara gravou o poema de João Cabral musicado por Chico Buarque.

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Funeral de um lavrador, em 1966, no LP Manhã de Liberdade

Não sendo tropicalista, Nara acolheu o movimento e participou da antológica gravação do Tropicália ou Panis et Circensis, (1968) cantando Lindonéia, de Caetano Veloso.

No teatro, atuou e cantou ao lado de Zé Kéti e João do Vale em Opinião, de Oduvaldo Viana Filho. Em Liberdade, liberdade, de Flávio Rangel e Millor Fernandes, cantou trechos de canções ao lado de Paulo Autran, Teresa Raquel e Oduvaldo Viana Filho.

Nara também namorou com o cinema. Não só namorou, mas casou com ele: namorou com Rui Guerra e se casou com Cacá Diegues. Em seus discos, gravou Corisco, que Sérgio Ricardo compôs para o filme de Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do Sol, atuou e cantou, juntamente com Maria Bethânia e Chico Buarque, em Quando o carnaval chegar, de Cacá Diegues e gravou a canção Joana Francesa, música tema composta por Chico Buarque para o filme de Cacá Diegues

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Deus e o diabo na terra do sol - trailer

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Quando o carnaval chegar, filme de Cacá Diegues, 1972,

Cantores do rádio, de Lamartine Babo, João de Barro, Alberto Ribeiro com Nara, Maria Bethânia e Chico Buarque

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Formosa, de Nássara, J. Rui com Nara e Maria Bethânia.

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Joana Francesa, 1973, com Jeanne Moureau

Em 1971, Nara faz as pazes com a bossa nova e grava em Paris um disco com todas  aquelas esperadas canções, Dez anos depois.

Sobre ela, escreveu Chico Buarque: “Com sua voz aguda e frágil, a pequenininha Nara carregou nas costas um barquinho, um violão, um carcará, uma rosa, um trem, uma tuba e um circo inteiro. É natural que conheça enfim o peso das coisas que diz”. E o poeta Ferreira Gullar: Sua voz quando ela canta / me lembra um pássaro, mas / Não um pássaro cantando: / lembra um pássaro voando. O canto livre de Nara.

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Canto Livre, Bené Nunes, Dulce Nunes

Eliete Negreiros

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