questões eleitorais

O Centrão cresce e aparece

Primeiro turno tem vitórias de partidos de centro-direita; esquerda leva Boulos, do PSOL, ao segundo turno com Covas em São Paulo

Camille Lichotti
16nov2020_00h52
Ilustração de Carvall

Depois da onda de extrema direita que varreu o país em 2018, impulsionada por Jair Bolsonaro, os partidos de centro-direita retomaram o protagonismo nas eleições municipais deste ano, seja porque estão reconduzindo seus prefeitos ao poder, seja pelos novos municípios conquistados. Das sete capitais brasileiras que já escolheram seus representantes, todas avalizaram legendas daquele espectro político, com destaque para as siglas do Centrão. Seis cidades reelegeram os atuais mandatários: Rafael Greca (DEM) em Curitiba, Gean Loureiro (DEM) em Florianópolis, Alexandre Kalil (PSD) em Belo Horizonte, Marquinhos Trad (PSD) em Campo Grande, Álvaro Dias (PSDB) em Natal e Cinthia Ribeiro (PSDB) em Palmas. Salvador, por sua vez, deu a vitória a Bruno Reis (DEM), hoje vice-prefeito.

Reeleito neste domingo com quase 63,5% dos votos, Kalil quebrou em 2016 a longa tradição da centro-esquerda em Belo Horizonte, onde PT e PSB se revezavam no comando da prefeitura desde 1993. Já o DEM expandiu a presença nas capitais depois do fracasso nas eleições anteriores, quando emplacou somente o prefeito de Salvador (os mandatários de Curitiba e Florianópolis só migraram para a sigla ao longo de suas gestões). O PT, por outro lado, ainda não conseguiu se recuperar totalmente do baque de 2016, ano do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na ocasião, o partido elegeu apenas um prefeito nas capitais, o de Rio Branco. Agora, a legenda tem chance em Recife, onde Marília Arraes enfrentará João Campos (PSB) no segundo turno, e em Vitória. Além disso, o partido amargou um péssimo resultado em São Paulo, onde Jilmar Tatto teve menos votos que Arthur do Val, o Mamãe Falei (Patriota). O grande destaque da esquerda na capital paulista foi o PSOL: Guilherme Boulos, desta vez com o apoio dos petistas, enfrentará Bruno Covas (PSDB) no próximo dia 29. Segundo a pesquisa mais recente do Ibope, o tucano deve vencer o psolista.

“Para mim, Guilherme Boulos foi o maior fenômeno destas eleições”, avalia Jairo Nicolau, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O PSOL, que em 2016 não conseguiu eleger nenhum prefeito nas capitais, vai disputar o segundo turno também em Belém, onde Edmilson Rodrigues enfrentará o Delegado Federal Eguchi (Patriota). A possibilidade de ganhar em duas cidades tão importantes e o bom desempenho apresentado em outros municípios marcam uma virada do partido na relação com o PT. O cacife dos psolistas certamente aumentará nas negociações eleitorais para 2022. Em Porto Alegre, o PCdoB vai disputar pela primeira vez o segundo turno: Manuela D’Ávila enfrentará Sebastião Melo (MDB).

No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) conseguiu uma diferença considerável em relação ao segundo colocado, mas não o suficiente para se eleger no primeiro turno. No dia 29, ele vai encarar Marcelo Crivella (Republicanos), atual prefeito e candidato do presidente Jair Bolsonaro. Nesse cenário, segundo a última pesquisa do Ibope, Paes ganharia com folga, já que Crivella tem a maior rejeição entre o eleitorado carioca – cerca de 60%. “Curiosamente, a pandemia acabou ajudando os prefeitos mal avaliados”, diz Maurício Moura, fundador do Ideia Big Data. Para ele, foi por isso que Crivella chegou ao segundo turno. Num contexto de crise sanitária, no qual não é possível fazer campanhas muito longas e mais intensas, os candidatos da situação ou os políticos já conhecidos tendem a levar vantagem. 




Jairo Nicolau se mostra cauteloso ao avaliar os impactos dos resultados deste ano sobre a eleição presidencial de 2022. “Mas uma coisa é certa”, afirma, “essas eleições marcam a volta da política profissional, e o presidente Jair Bolsonaro vai ter que se reinventar para buscar um novo nicho eleitoral.” O cientista político prevê também a necessidade de reorganização do sistema partidário, já que o fim das coligações nas eleições legislativas acabará por reduzir o número de partidos presentes nas Câmaras, o que afetará principalmente as legendas menores. 

Nas capitais que terão segundo turno, há pouco espaço para o novo. O MDB, partido que ganhou a maior parte das prefeituras brasileiras em 2016, está em seis das dezenove disputas. O PSDB concorre em três. Em Teresina, por exemplo, o segundo turno será disputado entre integrantes desses dois partidos. De maneira geral, o eleitorado das capitais deu preferência a nomes tradicionais, que têm alguma formação política.  

Um fenômeno identificado na eleição de 2018 se aprofundou em 2020: a grande presença de candidatos ligados a polícias, que agora chegaram a 6,7 mil em todo o país. Natal foi a capital com mais concorrentes desse tipo – dois coronéis e um delegado. Nenhum deles alcançou o segundo turno. Em Belém, no entanto, o Delegado Federal Eguchi teve êxito. O mesmo fenômeno se repetiu em Vitória, Fortaleza e Aracaju. Na capital do Espírito Santo, o Delegado Pazolini (Republicanos) vai enfrentar João Coser (PT) no segundo turno. O Capitão Wagner (PROS) disputará a vaga com José Sarto (PDT) em Fortaleza. E, em Aracaju, a Delegada Danielle (Cidadania) vai se defrontar com Edvaldo Nogueira (PDT). No pleito de 2016, nenhum candidato eleito nas capitais exibia uma patente militar ou um cargo policial. “Desde 2018, porém, os policiais não podem mais ser desconsiderados”, explica Renato Sérgio de Lima, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, enquanto outros grupos políticos não encontrarem um modo eficaz de combater a violência, os policiais se encarregarão de disseminar um discurso de ordem com forte apelo popular.

Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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