questões cinematográficas

O cinema brasileiro no Carnegie Hall (I)

Há quase cem anos, o então tenente Luiz Thomaz Reis exibiu Os Sertões (Wilderness) na famosa casa de concertos nova-iorquina

Eduardo Escorel
16nov2017_19h45
Na manhã seguinte à exibição de <i>Os Sertões</i>, o tenente Reis, retratado nesta foto, comprou todas as edições dos jornais. Para sua decepção, somente o <i>Herald</i> e o <i>Times</i> traziam pequenas notícias sobre o evento
Na manhã seguinte à exibição de Os Sertões, o tenente Reis, retratado nesta foto, comprou todas as edições dos jornais. Para sua decepção, somente o Herald e o Times traziam pequenas notícias sobre o evento

Inaugurado em 1891, o Carnegie Hall é um conjunto de três salas de concerto localizadas na 7ª Avenida, em Nova York. O maior auditório tem 2 804 lugares distribuídos em cinco níveis. Foi lá que se realizou há 55 anos, no dia 21 de novembro, o famoso show da bossa nova, considerado histórico apesar de ter sido duramente criticado na época. Além da desorganização, o tamanho inadequado do auditório, grande demais para um gênero musical intimista; o excesso de microfones no palco, alguns desligados; ruídos e reverberação excessivos, assim como um público barulhento, teriam pesado contra o sucesso do evento.

A New Yorker, por exemplo, foi implacável. No número de 1º de dezembro de 1962, Whitney Balliett (1926-2007), crítico de jazz e resenhista de livros da revista durante quase cinquenta anos, escreveu que “uma nova forma de música de hotel – bossa nova, do Brasil – apareceu e está sendo vinculada agressivamente ao jazz”. Com o título “Bossa Nova, Go Home”, o breve comentário de Balliett considera que “a primeira parte da noite teria sido interminável mesmo se tivesse sido possível gingar e pular [acompanhando os] brasileiros, todos bons músicos de hotel, incluindo violonistas (com e sem amplificação), cantores-violonistas, cantores e um par de pequenas bandas. […] Os cantores, que predominaram, pareciam Mel Tormé, Sarah Vaughan, Fred Astaire. As seções rítmicas sem firmeza e os solos ocasionais tinham, com uma exceção, qualidade de arranjos comerciais já publicados. A exceção era Oscar [Castro] Neves, um pianista e violonista, líder de um quarteto, cujos solos, tocados enquanto Neves pulava para cima e para baixo à moda da borracha brasileira, tinha linhas espaçosas de uma nota só muito originais”.

Para Balliett, a bossa nova só “se tornou música momentaneamente” quando, na segunda parte do concerto, “Bob Brookmeyer e uma big band de primeira classe, regida por um jovem arranjador da Costa Oeste chamado Gary McFarland, reuniram-se a Stan Getz depois de Getz, ‘esquecido de si mesmo’, ter ‘tocado duas baladas que não eram bossa nova, e depois Desafinado, o hino da bossa nova.”

Apesar da recepção, no mínimo controvertida, o show teria contribuído para fortalecer o prestígio no mercado americano de Antonio Carlos Jobim, que tocou Samba de Uma Nota Só, João Gilberto, que esperou que fosse feito silêncio absoluto para cantar Samba da Minha Terra, e Luiz Bonfá, que tocou Manhã de Carnaval. O repertório da bossa nova teria se tornado mais conhecido e passado a ser gravado por músicos americanos. E alguns dos que se apresentaram, como Oscar Castro-Neves e Sérgio Mendes, seguiram carreiras nos Estados Unidos.



Menos conhecida do que a apresentação da bossa nova no Carnegie Hall, em 1962, é a sessão que a precedeu em 44 anos, no mesmo local, patrocinada pela Sociedade Americana de Geografia. Na noite de 15 de maio de 1918, após conferência do ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt (1858-1919), foi exibido Os Sertões (Wilderness), do então tenente Luiz Thomaz Reis (1878-1940). A coletânea, conhecida no Brasil como De Santa Cruz, reunia, ao que se sabe, filmagens dos índios coroado, paresi e nambigwara, cenas da expedição científica Roosevelt (1913-14), uma caçada de onça no Pantanal, as Cataratas de Iguaçu, além de Rituais e Festas Bororo (1916), no todo ou em parte.

Ao ser registrado o direito autoral (copyright) na Biblioteca do Congresso, em Washington, foi considerado que Os Sertões era um “filme cinematográfico, não uma representação filmada e não reproduzido em cópias para serem negociadas” [a motion picture not a photoplay and not reproduced in copies for sale].

Considerando que seria “muito sem sabor fazer a projeção depois da conferência sem orquestra”, o tenente Reis obteve com dificuldade os 420 dólares necessários (equivalentes hoje a cerca de 6 860 dólares) e contratou a banda do 22º Regimento, regida pelo maestro George Briegel, formada por 35 músicos, considerado “um mínimo para a acústica do teatro”. Além da inclusão de “tímbales para dar os compassos da dança dos coroado”, ficou acertado que seriam executados “os hinos aliados e do Brasil”. Não tendo sido encontrado “em parte alguma” partituras do hino nacional brasileiro, foi programado o hino da República.

Na manhã do dia da sessão, o tenente Reis soube que os programas não haviam sido impressos. Providenciou a impressão de três mil exemplares e chegou ao Carnegie Hall à tarde ainda a tempo de serem distribuídos. Na plateia estavam os convidados da Sociedade Americana de Geografia e, por iniciativa do tenente Reis, “as mais importantes corporações cinematográficas, representadas por suas diretorias” (Metro, Paramount e Fox, entre outras).

Conforme o relatório do tenente Reis, às oito e meia em ponto, “quando o coronel Roosevelt deu entrada no palco acompanhado pelos membros da diretoria da Sociedade [Americana de Geografia], todos em traje casaca, o teatro não tinha mais um lugar disponível, os camarotes, onde os ocupantes mantinham o traje a rigor, também estavam repletos, e o segundo balcony, que chamamos galeria, aparecia ocupado. O conferencista foi recebido por uma estridente salva de palmas findo o que todos se sentaram dando cumprimento ao programa. Na cabine, onde eu me achava com o operador, tinha à mão um contato elétrico fazendo acender e apagar uma pequena lâmpada verde colocada na estante do maestro e que indicava para a sua e a minha inteligência, por número de sinais luminosos, não só a ordem do programa como a mudança das músicas durante a projeção do filme. Dei o sinal convencionado e a orquestra executou a sinfonia do Guarani, de Carlos Gomes, que foi silenciosamente apreciada por todos e a meu ver bem executada. Quando as últimas notas desta música, que para nós brasileiros é como um canto patriótico, terminaram, naquele final em que as notas muito graves e cheias fazem ressoar profundamente em todo o instrumental, a plateia como uma trovoada cobriu de aplausos os derradeiros ecos cuja impressão no nosso espírito a custo se ia desvanecendo. A bandeira brasileira, a nossa bandeira, com o seu belo losango de ouro no espaço verde sem igual dominava, suspensa entre três lampadários foscos acima da boca de cena, na separação do pano e sobre este. O efeito era magnífico. Existiam também bandeiras brasileiras e americanas como festões nos camarotes do nosso embaixador, do coronel Roosevelt e da Comissão Militar Brasileira que lá se achava. A festa era brasileira, conforme estava escrito nos programas, a ideia de sobrepor a nossa bandeira na cena tendo partido do coronel Roosevelt”.

Seguiu-se o discurso do embaixador brasileiro Domício da Gama, a execução do hino americano, a conferência do coronel Roosevelt e, após um intervalo de dez minutos, já às dez da noite, teve início a projeção: vistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, a expedição Roosevelt etc. “Mas onde toda a plateia ficou presa de um grande interesse”, escreve o tenente Reis, “foi durante a quinta e sexta partes, com os índios coroado, e o melhor da parte musical. A princípio as danças que a orquestra ia acompanhando num bacorôro que fazia honra aos próprios índios. Depois a pescaria com outro gênero de entoação e a seguir a cerimônia fúnebre, que era na música também muito fúnebre, mas por isso mesmo o tom fúnebre e barulhento dos instrumentos tornava o estranho funeral extremamente novo como assunto de interesse.”

Na manhã seguinte, o tenente Reis comprou todas as edições dos jornais, mas para sua decepção somente “o Herald e o Times traziam uma pequena notícia a respeito da conferência”. “Um dia depois, os jornais [também] nada traziam, de modo que conclui não terem eles interesse sobre o assunto”, o que foi considerado indicação de que “pelo lado da popularidade o filme deixava a desejar.”

Nem por isso o tenente Reis desistiu e três semanas depois, a 9 de junho, em versão cortada, da qual foram eliminados inclusive os índios nus, Wilderness estreou no Strand Theatre, na Broadway. “Logo no primeiro dia, teve casa cheia e assim sucedeu nos dias subsequentes, o povo concorrendo ao teatro pelo interesse do novo filme e mais pelo interesse de ver a Expedição Roosevelt, que há quatro anos fora o assunto mais falado”, registra o relato do tenente Reis. (cont.)

*

Nota: O relatório da viagem aos Estados Unidos, escrito pelo então tenente Luiz Thomaz Reis e apresentado, em dezembro de 1918, ao capitão Amílcar Armando Botelho de Magalhães, chefe do Escritório Central da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, está reproduzido nos anexos de Viagem ao Cinema Silencioso do Brasil, Samuel Paiva & Sheila Schvarzman (orgs.). Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

 

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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