questões cinematográficas

O cinema brasileiro no Carnegie Hall (II)

Como a Expedição Científica Roosevelt-Rondon levou Os Sertões a ser promovido pelo então presidente americano

Eduardo Escorel
23nov2017_17h55
O coronel Rondon, que aparece nesta cena de <i>Os Sertões</i> junto aos índios Paresi, acompanhou Theodore Roosevelt em sua expedição na Amazônia entre 1913 e 1914
O coronel Rondon, que aparece nesta cena de Os Sertões junto aos índios Paresi, acompanhou Theodore Roosevelt em sua expedição na Amazônia entre 1913 e 1914 FOTO: ACERVO DO MUSEU DO ÍNDIO_FUNAI

No final de janeiro de 1918, o tenente Luiz Thomaz Reis embarcou para os Estados Unidos. Sua missão era obter receita de “ao menos uns cinquenta mil dólares” (cerca de 800 mil dólares, hoje) com a exibição do filme da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, conforme ele escreveu em seu relatório da viagem.

Iniciadas em 1914, as filmagens da Comissão teriam rendido, no Brasil, “cerca de dez mil dólares” (em torno de 160 mil dólares, hoje). Desde 1912, Reis fora o responsável pela Seção de Fotografia e Cinematografia, vinculada ao Serviço de Proteção ao Índio e Localização do Trabalhador Nacional (SPILTN), fundado dois anos antes por iniciativa de Cândido Rondon, na época major do Exército.

Após declarar guerra aos países da Tríplice Aliança, em junho de 1917, no terceiro ano do conflito mundial, mesmo sem enviar tropas, segundo Reis “o Brasil estava orientando suas energias no sentido de cooperar ativamente com os aliados e justamente empregar todos os recursos que pudesse dispor para a eficácia desta cooperação, ficando assim reduzidos os recursos de que o trabalho de pacificação, tal qual fora projetado pelo coronel Rondon, necessitava para o seu êxito”,

A ideia de obter receitas através da exibição do filme nos Estados Unidos foi, então, apresentada a Rondon. Seria uma forma de assegurar a manutenção do “imenso trabalho” de agrupar as diferentes tribos indígenas do norte de Mato Grosso “em núcleos regulares onde estes fossem se adaptando aos usos e costumes da gente civilizada, pelo ensino da agricultura e das pequenas indústrias”.

Reis viajou levando uma carta de Rondon dirigida a Theodore Roosevelt. Envolver o ex-presidente americano na promoção do filme foi considerado essencial para o êxito do lançamento. Chegara a hora de pedir a Roosevelt que retribuísse o apoio dado à expedição que ele realizou na Amazônia entre dezembro de 1913 e maio de 1914. Acompanhada por Rondon, fotografada e filmada por Reis e contando com apoio logístico do governo brasileiro, a viagem ficou conhecida como Expedição Científica Roosevelt-Rondon.

Partindo de Cáceres, em Mato Grosso, a expedição percorreu os 1 500 quilômetros do rio da Dúvida, do qual até então só se conheciam as nascentes. Além do levantamento fluvial e geográfico, onças-pintadas foram caçadas e espécimes da flora e fauna coletados para o Museu Americano de História Natural.

Tendo enfrentado juntos as duras condições da longa jornada, o pedido de apoio à exibição de Os Sertões nos Estados Unidos parecia autorizado em função do elo formado entre Roosevelt e Rondon. Ambos haviam sobrevivido a uma expedição na qual, de um lado, o rio da Dúvida foi renomeado rio Roosevelt, e de outro, um expedicionário foi assassinado, acidentes provocaram mortes e ocorreram enfrentamentos de índios hostis. Isso, além do calor e frio intensos, tempestades tropicais, acampamentos inundados, nuvens de mosquitos e outros insetos, naufrágios de canoas, perda de suprimentos e instrumentos de orientação, casos de febre amarela e malária etc.

Apesar de pretender que o lançamento de Os Sertões fosse promovido por Roosevelt, nenhum contato foi feito com ele antes de Reis partir para Nova York. Tampouco foi considerado se era ou não conveniente tentar exibir o filme nos Estados Unidos no momento em que a Primeira Guerra ocupava, de modo geral, o centro das atenções.

Primeiro, o filme foi retido na alfândega em Nova York, só sendo liberado algumas semanas depois, no início de março, por um despachante contratado, mediante o pagamento de 506,50 dólares (conforme o relatório) ou 256,50 dólares (segundo a relação de despesas do próprio Reis). Em valores atuais, a despesa foi entre 4 500 e 9 mil dólares. Nesse período, Reis teve um ataque de malária que o reteve oito dias no hotel, temendo mais o rigor do inverno, porém, ao qual atribuiu seu estado febril. Mais grave do que esses percalços foi descobrir que Roosevelt estava hospitalizado, submetendo-se a uma operação no ouvido, e impedido de receber visitas. Em cartas trocadas entre Reis e Roosevelt a partir do início de março, a possibilidade de um encontro só ficou prevista para trinta dias depois, no início de abril.

Reis ficou estupefato quando viu Roosevelt aparecer, em 6 de abril, vindo em direção à antessala do Harvard Club de Nova York onde ele estava à espera do ex-presidente: “Trajava costume de fraque preto, colete de fantasia, mal escondendo uma grande e vistosa gravata cujo feitio e variedade de cores eu só vi na América, vinha a passos apressados, ereto, espadaúdo, o semblante reluzindo viva alegria, as faces rubras de sangue renovado por uma oportunidade de movimento e atividade. Os olhos, sempre cintilantes de espírito, firmes, se viam através das lentes que usava e que qualquer que os tenha visto uma só vez jamais esquecerá a sua agudeza e penetração.”

Após passar o braço por baixo do braço direito de Reis, Roosevelt o abraçou, obrigando Reis a fazer o mesmo. Disse, em seguida, “que estava imensamente alegre” de ver o tenente ali, “e que era para ele muito prazer saber notícias do coronel Rondon”. Reis manifestou seu “grande pesar em saber dos ferimentos que o filho de Roosevelt, Archie, recebera em combate”, ao que Roosevelt respondeu que “tinha todos os filhos na guerra e que esta era a única coisa que seriamente poderia tratar durante a sua atividade neste momento e que soubera da participação do Brasil, de quem muito se podia esperar”.

Antes de entregar a carta de Rondon que trazia, Reis explicou a Roosevelt a carência de recursos que havia para o trabalho de pacificação das “tribos indígenas”, desde que o Brasil passara a cooperar com os aliados. E expôs a ideia de obter receitas adicionais com a exibição do filme da Comissão nos Estados Unidos. Para tanto, contavam com o endosso de Roosevelt à iniciativa, feita em “benefício daqueles infelizes que vivem fora da comunhão social sem consciência disso”.

Lida a carta de Rondon, Roosevelt disse que ficaria feliz em poder ser útil ao coronel Rondon, mas que a ocasião não era oportuna por causa da guerra e que se pudessem esperar “talvez fosse melhor”. Ao entender, porém, que sua colaboração se restringiria apenas a comparecer a uma “solene função”, para a qual seriam convidados “os elementos oficiais e da imprensa”, e a colaborar nessa ocasião para interessar “os empresários de casas de exibição”, Roosevelt cedeu, assumindo o compromisso de se esforçar “para cumprir” o que Rondon pedia na carta. “Tudo que se pede de mim para o coronel Rondon eu farei sem demora, de bom grado com grande prazer.” (cont.)

*

Nota: A fonte do relato acima é o relatório da viagem aos Estados Unidos, escrito pelo então tenente Luiz Thomaz Reis e apresentado, em dezembro de 1918, ao capitão Amílcar Armando Botelho de Magalhães, chefe do Escritório Central da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, reproduzido nos anexos de Viagem ao Cinema Silencioso do Brasil, Samuel Paiva & Sheila Schvarzman (orgs.). Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

*
Leia a primeira parte do texto, publicado na semana anterior no site da piauí

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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