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O dia em que Godard surrupiou minha revista – a que ponto chegamos?

Diretor de Acossado chega aos 90 - e merece continuar sendo considerado o mais jovem realizador de filmes do mundo

Eduardo Escorel
10mar2021_09h08

Aos 90 anos, que completou em dezembro, Jean-Luc Godard foi homenageado com o Life Achievement Award (Prêmio pelo Conjunto da Obra), atribuído pelo 25º Festival Internacional de Cinema de Kerala, realizado de 10 de fevereiro a 5 de março. A propósito do prêmio, o crítico indiano C. S. Venkiteswaran conversou online com Godard e começou lembrando que ele foi descrito como “o mais jovem realizador de filmes do mundo” – paradoxo que fez o cineasta esboçar um sorriso e intervir, de charuto entre os dedos: “Hoje, dizer isso não é correto. Eu não sou o mais moço, mas o mais velho”, provocando risadas. “É considerado o mais moço em relação a seus filmes”, fez questão de insistir o crítico, levando Godard a ampliar seu sorriso.

“Você sempre foi um verdadeiro contemporâneo”, prossegue Venkiteswaran na gravação de 85 minutos disponível no YouTube em https://youtu.be/nwquFZlitTU. “Em outras palavras, eu diria que você sempre foi um contemporâneo autêntico, como, você sabe, o filósofo Giorgio Agamben declarou: ‘contemporâneo é a pessoa que identifica a escuridão de seu tempo como algo que lhe diz respeito; contemporâneo é aquele cujos olhos são atingidos pelo feixe da escuridão de seu próprio tempo.’ Então, deixe-me começar com a situação atual em que estamos com a pandemia.”

Godard tem dificuldade de entender o entrevistador, pede que as perguntas sejam traduzidas, mas responde em inglês, com voz trêmula e acento carregado: “Como não sabemos muito sobre o vírus, exceto alguns cientistas, isso quer dizer que não sabemos muito sobre o cinema. E eu ainda estou no começo. Se me refiro aos meus anos de mocidade, eu creio que quando comecei a fazer filmes já era meio velho, tinha por volta de 25 anos. Na época eu disse: ‘preciso fazer um filme antes de 25’, porque eu tinha ouvido que Orson Welles fez seu primeiro filme aos 25. Então, eu queria fazer antes dele. Mas, na época, eu não sabia quase nada e eu vim de minha mãe, cujo hobby era a boa literatura. E, agora, referindo-me ao vírus, eu acho que o vírus é uma doença, mas uma doença é parte da humanidade e precisamos aprender sobre a doença, especialmente, hoje em dia, como nos velhos tempos. Uma vez que o vírus é uma espécie de informação, isso é, uma espécie de informação sobre saúde, eu pensei, por intuição, que minha única tarefa, pode-se dizer, que é ao mesmo tempo uma tarefa e um hobby, que eu preciso me preocupar apenas com a doença do cinema. Eu creio que todos esses quatro ou cinco filmes que lhes mandei são todos sobre doença. A doença de uma família chamada [?], a doença do filme da União Soviética chamado Arsenal, de Dovjenko, não lembro do outro que lhes mandei. Então, meu interesse principal é o cinema. As pessoas, e os críticos, dizem que estou ocupado com política e revolução, mas eu estou mais e mais preocupado com cinema e a realidade. O que é a realidade? É a vontade de capturar a realidade, como Lumière fez nos seus primeiros filmes.” Frases meio desconexas como essas, com hesitações e pausas, compõem as respostas do nonagenário Godard.

Jean-Luc Godard – Foto: Divulgação

 

De minha parte, tenho lembrança vívida de quando assisti a Acossado (título original À Bout de Souffle, 1959), primeiro longa-metragem de Godard, no cinema Riviera, na Rua Raul Pompéia, em Copacabana, e fiquei deslumbrado. Nos anos seguintes, relutei em admitir que não gostara de alguns de seus filmes, mas admirei sem reservas outros de sua prolífica produção na década de 1960: Viver a Vida (1962), Os Carabineiros (1963), Alphaville (1965), O Demônio das Onze Horas (título original Pierrot Le Fou, 1965) e A Chinesa (1967), filmes que se tornaram referência obrigatória para mim. Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague francesa foram influências decisivas para que iniciasse meu aprendizado em 1962 e passasse a trabalhar profissionalmente em cinema a partir de 1965.

Passados alguns anos, O Leão de Sete Cabeças (Der Leone Have Sept Cabeças, 1970) estava sendo mixado em Roma, na sede da Ager Film, quando Gianni Barcelloni telefonou para Glauber Rocha dizendo que Godard estava chegando de Paris, trazendo o copião montado de As Lutas Ideológicas na Itália (Lotte in Italia, 1970). Sendo produtor dos dois filmes, Barcelloni pediu a Glauber para interromper a mixagem quando Godard chegasse, permitindo que assistissem a Lotte in Italia e ele pudesse viajar de volta para a França em seguida.

Naquela manhã de janeiro de 1970, quando saí da pensione San Carlo al Corso, entrei em uma livraria na Via del Corso e comprei a Ombre Rosse. Folheei a revista de cinema, da qual nunca ouvira falar, no ônibus, a caminho da Ager Film, estúdio onde havia montado O Leão de Sete Cabeças nos dois meses anteriores. O trajeto era breve e não creio ter chegado a ler mais do que algumas frases isoladas, trechos curtos de artigos, e de ter olhado as fotografias – suficiente, porém, para identificar que se tratava de uma publicação de linha chinesa.

Conforme previsto, Godard chegou no final da manhã, interrompemos nosso trabalho e cedi para ele meu lugar, ao lado do console onde o técnico Andrea Talloni comandava a mixagem de O Leão de Sete Cabeças. Tivemos então o privilégio devidamente apreciado de assistir em primeira mão a Lotte in Italia junto com Godard. Do filme, um dos que integram a produção do Grupo Dziga Vertov, assinado por Godard e Jean-Pierre Gorin, guardei uma lembrança vaga. Apenas uma frase ficou retida na memória: “L’amour dans l’après-midi est un privilège bourgeois” (O amor à tarde é um privilégio burguês).

Após a projeção, Godard foi embora e nos preparamos para retomar a mixagem. Voltei ao meu lugar ao lado do console de mixagem e não encontrei a Ombre Rosse que havia deixado à minha frente. Custei a entender o que havia acontecido. Procurei no chão, e nada. Perguntei ao Talloni, mas ele não tinha visto a revista. Embora relutante, acabei me convencendo do óbvio: Godard tinha surrupiado minha Ombre Rosse que, àquela altura, devia estar lendo, satisfeito, no voo de volta para Paris.

Decepcionado com o cineasta que tanto admirava, passadas mais de cinco décadas, a insignificância do episódio salta aos olhos, mas penso que devo ser a única pessoa no mundo de quem Godard roubou uma revista! Já é alguma coisa.

Depois de uma hora de conversa durante o festival de Kerala, Godard tenta mostrar “a maneira como está fazendo cinema”, usando seu iPhone. “Eu tenho alguns amigos, cerca de dez, talvez menos, não tenho certeza. E… todo, não todo dia, mas a cada dois ou três dias, eu mando para eles uma imagem de uma fotografia que eu fiz, quer seja da natureza ou de um desenho ou uma pintura. E a mando sem elaborá-la. Mando esperando com muita frequência, sempre esperando, mas em silêncio, sem pedir a eles, pedindo em silêncio que eles me respondam do mesmo modo. Não com fotos lindas, interessantes ou fotografias inteligentes. Muito obrigado. Ou me dando um outro exemplo. Apenas mando uma imagem…”. A última imagem que Godard mostra na tela de seu iPhone é o desenho de um pescador: “…estou escavando na imagem… E o que a água me ensinou é meu filme erradamente intitulado Adeus à Linguagem (2014). Mandei todas as palavras que o rio estava me contando. Isso é tudo. Ok?”

Godard parece frágil, mas merece continuar sendo considerado o mais jovem realizador de filmes do mundo.

 *

Passamos, no Brasil, de 265 mil mortes e já tivemos mais de 11 milhões de casos diagnosticados de Covid-19. A média móvel de óbitos está em alta de 42% (dados de 7 de março às 20 horas). Quantos ainda terão que morrer até que seja decretada a falência do desgoverno federal? Você sabe quem é um criminoso ignorante. Seus ministros e os demais integrantes do governo, inclusive os militares que assumiram cargos públicos e por extensão as Forças Armadas em conjunto, são coniventes com os desmandos perpetrados que há muito tempo passaram do limite tolerável e imposto por respeito à democracia. Com um ano de atraso, têm havido algumas manifestações de indignação na mídia e entre políticos que votaram em branco em 2018, além de panelaços ocasionais em algumas capitais. É pouco, muito pouco, diante da enormidade da violência a que estamos sendo submetidos. Se é preciso serenidade e respeito às leis, impõe-se ao mesmo tempo dar um basta ao desgoverno da República – chega!

*

Dia 14 de março, domingo, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia, Juca Badaró e este colunista conversam com Jo Serfaty, diretora de Um Filme de Verão (2019), no programa #DomingoAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena (o programa passa a ser transmitido ao vivo aos domingos). O filme de Serfaty participou da Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2019, onde recebeu o prêmio Helena Ignez pela montagem assinada por Cristina Amaral. Foi exibido também na competição internacional do Doclisboa ’19, em outubro do mesmo ano, além de ter participado de vinte outros festivais. “O filme foi feito como uma tentativa de descobrir o que fica quando a gente tira” de uma favela como Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, “esse filtro da criminalidade”, declarou Serfaty. “O cinema precisa deixar um pouco de lado essa exploração da pobreza, da violência, de forma não subjetiva. Não existe uma coisa homogênea no jovem da periferia (O Globo, 15/01/21). O acesso à conversa com Jo Serfaty, no domingo, 14 de março, pode ser feito através do link https://youtu.be/utCUWSUffgM.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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