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O Facebook gestou o MBL

As redes sociais legitimaram barbaridades e agora tentam reparar o estrago

Miguel Lago
30jul2018_08h50

Na última semana, o Facebook removeu 196 páginas e 87 perfis que a seu ver eram usados de forma calculada e utilizavam identidades distorcidas para espalhar informações falsas. Dias antes, o Brasil havia acordado com a notícia de que Dr. Bumbum, que usava e abusava das redes sociais para propagandear suas atividades médicas, estava foragido desde a morte de uma de suas pacientes, causada por uma cirurgia malsucedida. Foram duas semanas nada fáceis para personas e avatares das redes sociais. Parecia que o mundo analógico tinha resolvido coibir seus delitos e fraudes. Membros do MBL, em resposta ao desmantelamento de sua rede de mentiras, fizeram um protesto na frente da sede do Facebook com cartazes que diziam coisas como: “Devolve meu perfil.” A luta pelo direito ao “perfil” demonstra que já não existe mais separação entre vida online e offline: vivemos num espaço híbrido.

Os primeiros anos da internet pareciam promissores pelo potencial da rede de criar pontes diretas entre as pessoas e facilitar a ação coletiva, diminuindo assim nosso grau de dependência de intermediários. Organizações como o Parlamento, a grande imprensa, os partidos políticos, os bancos e os sindicatos funcionam como intermediárias – elas existem para viabilizar a ação coletiva no mundo. Para que pudessem exercer sua função de canalizadoras, essas organizações criaram padrões de verificabilidade objetiva, certificadores de qualidade técnica. No entanto, muitas vezes, elas tendem a priorizar seus interesses internos, em vez de sua missão no mundo.

O intermediário não é um véu: ele produz distorções. A internet criou alternativas a essas organizações: ação política por meio do engajamento em causas, financiamento de projetos por crowdfunding, distribuição de informação por veículos de mídia independente. Como tem potencial para corrigir as distorções que nossas organizações caducas geram, a internet logo foi vista como uma evolução, um aperfeiçoamento, um ganho de eficiência. E, em muitos sentidos, ainda é. Só que, em vez de “desintermediar”, a internet acabou criando uma multidão de novos intermediários, muitas vezes desprovidos da qualificação técnica que é valorizada pelos intermediários clássicos.

 

Um processo parecido aconteceu há mais de 400 anos, no âmbito da religião – a grande intermediária entre o imanente e o transcendente. Foi a Reforma Protestante, que buscou aproximar o fiel de Deus. No século XVI, a Igreja Católica já não cumpria bem esse papel, pois estava mais preocupada em atender seus interesses internos. O que se observou, contudo, após a Reforma, não foi de fato uma desintermediação da relação do homem com Deus, e sim a criação de pequenos rebanhos conduzidos por uma multidão de novas denominações.

Nenhuma delas aboliu a autoridade eclesial: em vez disso, multiplicaram e banalizaram a mesma. Hoje, para se tornar padre, um católico precisa passar sete anos em um seminário. Para se fazer pastor, dependendo da denominação, basta ter uma garagem, um microfone e boas cordas vocais. A Reforma produziu, no longo prazo, a multiplicação das igrejas, algumas com lideranças desprovidas de qualquer qualificação teológica. O mesmo aconteceu na internet: em vez do fim da intermediação, ocorreu a multiplicação de novos intermediários. E os novos intermediários são as personas e avatares das redes sociais, como o Dr. Bumbum.

Denis Furtado, o doutor em questão, é um homem branco de meia-idade com registro médico mambembe. Sem poder trabalhar em algum hospital ou instituição privada de respeito, atendia seus pacientes em clínicas improvisadas. Furtado seria apenas um profissional medíocre, que operava na semiclandestinidade, não fosse o extraordinário poder da internet. As redes sociais o transformaram em Dr. Bumbum, que se vangloriava de ter feito
5 000 procedimentos de bioplastia. Seguido nas redes por milhares de pessoas, Dr. Bumbum construiu sua autoridade com elementos performáticos: transmissão de cirurgias em tempo real, jaleco com seu nome e seu “título”, currículo com diplomas falsos, de instituições que nem sequer existem.
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Dr. Bumbum entendeu a essência da rede social: falar sem dizer, mostrar sem revelar. Não bastasse isso, o sujeito ainda compartilhava sua vida, suas opiniões sobre o mundo. Fazia um reality show de si próprio, instaurando, portanto, uma confiança olho no olho, ao trazer seu seguidor para dentro de sua intimidade. Na era das redes sociais, esses sinais foram suficientes para que algumas pessoas decidissem pagar dezenas de milhares de reais por um tratamento com ele. Ou seja, basta parecer ser. Para que estudar e se tornar cirurgião, se posso parecer ser? Para que ter diploma ou registro médico?

Mas Dr. Bumbum é apenas a face mais grotesca e emblemática do modo como as redes sociais banalizam a capacidade, a competência e o conhecimento. No debate sobre segurança pública, a principal referência dos que defendem a liberalização geral do porte de armas no país é o militante Bene Barbosa. Homem branco, de meia-idade, graduado em direito na Universidade Paulista (Unip), Bene, ao que consta, não tem sequer mestrado na área, tampouco experiência em implementação de políticas de segurança pública. No mundo analógico, ele seria apenas um militante, amante de armas, com todo direito de expressar sua opinião. Mas, na internet, virou “especialista”, virou “Dr. Bene”. De acordo com seus seguidores, ele “desmascara” e “humilha” “esquerdistas”.

Só que os ditos esquerdistas, nesse caso, muitas vezes são especialistas de fato em segurança pública e possuem, estes sim, doutorados nas melhores universidades do mundo, como Harvard, Columbia ou Oxford. Até para o Papa sobrou uma lição de teologia de Bene, dada pelo Twitter, em abril deste ano. Nas redes sociais, pouco importa o tempo que alguém passou estudando um determinado tema e os validadores de qualidade e excelência conferidos internacionalmente. Para que estudar e ser aprovado numa boa universidade? Para tornar-se especialista, basta a pose.

 

Na semana passada, quando foram repreendidos por veicular mentiras, suposições e boatos, os “doutores online” vociferaram contra a “censura”. De Olavo de Carvalho a Flávio Rocha, passando por Rodrigo Constantino e Kim Kataguiri, todos disputando audiência com os vídeos em que Dr. Bumbum jura ser inocente. O Facebook não está ferindo a liberdade de expressão de nenhum deles. É um princípio básico o de que toda argumentação deva ser bem fundamentada. A liberdade de se expressar não pode ser usada como desculpa para professar mentiras impunemente.

O Facebook faz bem em começar a combater ativamente a praga das fake news e investigar a origem de boatos e mentiras. No entanto, a desinformação é incentivada por seu próprio modelo de negócios, pois a plataforma precisa ter o máximo de informação sobre seus usuários para, assim, vender propaganda segmentada. Ora, para conhecer a fundo alguém, é importante estimulá-lo a dar sua opinião e explicitar suas preferências sobre o máximo de assuntos possíveis: da última corrida de Fórmula Indy ao primeiro debate presidencial de 1989.

Ao estimular o comentário não refletido, superficial, o Facebook se torna uma feira de opiniões. A fundamentação do que é dito pouco importa, o que valida é a quantidade de “likes” recebidos. Logo, quanto mais polêmico e superficial, melhor. Hordas de seguidores se reúnem em torno de pessoas que dizem mentiras e barbaridades. O Facebook transformou a internet – que era o espaço perfeito para dinamizar a ação coletiva através da desintermediação – em arena de opinião desinformada e plataforma de promoção de intermediários picaretas. O Facebook gestou o MBL.

Miguel Lago

Miguel Lago

Miguel Lago é cientista político, cofundador da rede Meu Rio e diretor da ONG Nossas

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