A professora Dayanna Louise: “Quando você se coloca publicamente como um corpo trans ou travesti, a sociedade te apresenta três sentenças: o cárcere, a prostituição e o cemitério” CRÉDITO: VICTOR MORIYAMA_2025
O gigante sutil da educação
A trajetória da professora Dayanna Louise e do ensino no Brasil desde a redemocratização
Dayanna Louise é uma professora de 40 anos, nascida em Carpina, no interior de Pernambuco, e que vive atualmente no Recife. Mulher trans, doutoranda em educação pela Universidade Federal de Sergipe e chefe da Unidade de Educação para as Relações de Gênero e Sexualidades da Secretaria de Educação de Pernambuco, ela é também ativista dos direitos LGBTQIAPN+ e da educação pública.
Na piauí deste mês, Louise conta ao escritor e sociólogo José Henrique Bortoluci sobre a descoberta e aceitação de sua identidade sexual, em paralelo com o percurso escolar que realizou até a universidade. “Nos anos 1990, era muito comum a gente entender que a escola é um espaço que prepara o aluno para ser alguém na vida”, diz Louise. “Mas a escola não permitia que eu fosse quem eu era. Como ela estaria me preparando para a vida? Mas hoje vejo que a escola também é um espaço de disputa. Tinha momentos em que, para mim, era muito melhor estar na escola do que no espaço familiar. E foi lá que comecei a reconhecer gente que também era dissidente como eu, a formar pequenas comunidades.”
O primeiro curso superior que fez foi história. Depois, serviço social. “Fui cursar história porque eu gostava de contestar as coisas, era curiosa. Ingressei na licenciatura em história sem querer ser professora. Para mim, era inconcebível um corpo como o meu ocupar aquele lugar de professora, pelos níveis de violência que eu poderia sofrer.” Louise começou a dar aula em um curso pré-vestibular comunitário numa igreja batista, onde teve uma resposta muito positiva dos alunos. “Passei a entender que era um lugar possível para mim”, ela diz, no novo texto do sociólogo para o dossiê “Geração Democracia”, em que ele reflete sobre a experiência social e política das pessoas que cresceram no período da redemocratização do Brasil.
O novo texto do dossiê, além do depoimento de Dayanne Louise, trata ao mesmo tempo da educação no país desde o fim da ditadura militar. Ele escreve:
“A educação é um gigante sutil, geológico. Move placas tectônicas que conectam toda a sociedade, e ao mesmo tempo também é afetada por movimentos externos a ela. A cada manhã, milhões de crianças e adolescentes saem de suas casas para passar várias horas de seus dias em salas de aula – universos que variam conforme a classe social dos alunos e cujo impacto em suas vidas é sempre enorme: vai do edificante (novas habilidades, novos sonhos, amigos e amores), ao brutal (as violências renovadas, o desinteresse, o bullying, a falta de sentido).”
Quando o primeiro presidente civil foi eleito, em 1985, o Brasil vivia uma situação de profunda crise educacional – uma crise tanto estrutural, de escassez contínua de investimentos públicos, como de falta de uma concepção de ensino que estruturasse o sistema educacional. Cerca de 20% da população era analfabeta e a defasagem e a repetência eram a regra do sistema. O projeto de educação da ditadura havia posto em prática fórmulas empoeiradas. No ensino superior, a perseguição a professores e dirigentes estudantis desorganizara as universidades, com consequências que são sentidas até hoje.
Hoje, na visão do sociólogo, três forças atuam em qualquer sala de aula do país: o desejo de que a escola faça sentido, o desejo de controle ideológico sobre os conteúdos ensinados e o desprezo pela instituição escolar. Elas convivem com outras forças, escreve ele, “num momento em que temos dificuldade de encontrar sentidos coletivos e projetos que organizem de alguma forma esse universo de salas de aula, professores, alunos, coordenadores, diretores, reitores, esse mar de gente, de ideias e de lugares que amarramos nessa palavra tão inflada de sentidos, de bloqueios e de sonhos que chamamos de educação.”
Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.
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