colunistas

O ideológico e o fisiológico

Bolsonaro é o baixo clero com convicções políticas

Lucas de Abreu Maia
21dez2018_08h00

Donald Trump elegeu-se presidente dos Estados Unidos com a promessa de “drenar o pântano” da corrupção em Washington. Dois anos depois não é cedo demais para dizer que seu governo entrará para a história como o mais corrupto desde o de Richard Nixon, que renunciou à Presidência americana na esteira do escândalo de Watergate. Mesmo essa afirmação, talvez à primeira vista exagerada, pode ser, na verdade, um eufemismo.

Se Watergate foi um esquemão para garantir a reeleição de Nixon em 1972, a corrupção trumpiana é bem mais que isso. Há evidência suficiente de que houve corrupção eleitoral no pleito de 2016, desde conluio entre a campanha do republicano e o governo russo a fim de prejudicar a candidatura de Hillary Clinton até uso indevido de doações eleitorais para pagar uma atriz pornô com o objetivo de que ela mantivesse a boca fechada sobre um suposto caso com o agora presidente.

Só que o pântano é ainda mais lamacento.

Não se trata só de corrupção eleitoral. Surgem agora indícios de que a família Trump beneficiou-se da ligação com os russos para a construção de um empreendimento imobiliário em Moscou, já na campanha de 2016. As relações promíscuas, porém, não se limitam aos russos ou a atrizes pornô.

Ao que tudo indica, as ilegalidades encabeçadas por Trump ocorrem há décadas. Vão desde uma universidade fantasma nos anos 80, passando por uma suposta fundação sem fins lucrativos que arrecadou milhões mas nunca prestou nenhum serviço na década de 90, chegando, hoje, a negócios familiares com os sauditas em troca de uma política americana favorável à ditadura árabe.

A política trumpiana, no entanto, não é só roubalheira. Ela baseia-se, sobretudo, numa ideologia protofascista de idolatria ao líder, ódio a minorias raciais e defesa dos supostos interesses nacionais. O atípico, aqui, é que a ideologia não é só uma tática para esconder a roubalheira. Parece partir de convicções genuínas. Trump demonstra uma visão protecionista, por exemplo, desde a década de 80. O racismo do presidente americano, sobretudo contra mexicanos e asiáticos, data mais ou menos da mesma época.

É uma combinação entre ideologia e cleptocracia que surgiu na Rússia de Putin. De lá foi exportada para a Hungria e os Estados Unidos. Chega agora ao Brasil.

Bolsonaro também elegeu-se com a promessa de pôr um fim a corrupção. E, também no caso brasileiro, as desconfianças quanto ao futuro presidente vão além do caixa dois. Há indícios de enriquecimento incompatível com a renda, que datam de meados da década passada. Agora, eis que o filho dele aparentemente integrava um esquema de uso de funcionários como laranjas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Mas, novamente, não foi só a promessa do fim da corrupção que elegeu Bolsonaro. Ainda mais que no caso americano, a ideologia protofascista foi evidenciada na campanha presidencial brasileira. E, ainda mais do que Trump, Bolsonaro se identifica com ela há décadas.

A atuação legislativa do novo presidente sempre se fundamentou numa defesa canhestra do militarismo, do protecionismo e, claro, numa oposição radical aos direitos de minorias raciais e sexuais. A ideologia de Bolsonaro parece ter sido tirada, página a página, do livro de Trump.

O curioso é que essa ideologia parece dizer muito pouco sobre o papel do Estado na economia. Trump elegeu-se com uma agenda econômica bastante heterodoxa para os padrões americanos, prometendo aumentar os gastos públicos em infraestrutura e subir os impostos para os mais ricos. Até agora, contudo, governa como um convertido à ortodoxia liberal do Partido Republicano: cortando tributos de milionários e enfraquecendo regulações estatais.

Qual será a política econômica de Bolsonaro? Ninguém sabe. Ele começou a carreira como um fascista clássico, defendendo o estatismo. Na campanha de 2018, pareceu converter-se ao liberalismo, mas, desde que foi eleito, parece não mais consultar o Posto Ipiranga.

A inconsistência na política econômica não significa que não haja ideologia sincera. Significa apenas que a ideologia bolsonarista, assim como a trumpista, baseia-se num reacionarismo social e simplesmente não se deu ao trabalho de pensar sobre economia.

Claro que, como toda a comparação, essa também tem limitações. Enquanto o clã Trump acumula muitos bilhões de dólares, tudo indica que, embora também riquíssimo, o clã Bolsonaro seja algo menos abastado, com “apenas” alguns milhões de reais. Sabe-se que a fortuna dos Trump foi conquistada graças a estratagemas empresariais questionáveis e outras negociatas sob a chancela de uma herança acumulada há gerações. Simboliza à perfeição o capitalismo americano desregulamentado. Por outro lado, a riqueza dos Bolsonaros, amealhada com dinheiro público ora do Exército ora da sequência de mandatos eletivos, sintetiza a versão brasileira para o capitalismo, que só funciona quando está sob tutela estatal.

O tamanho e a origem da fortuna de ambos não é a única diferença. O contexto político também importa. No caso americano, nunca se viu corrupção tão desbragada quanto agora. Bolsonaro, por sua vez, vem de uma longa tradição de corrupção comezinha no baixo clero da política brasileira.

Talvez ninguém tenha representado melhor o baixo clero do Congresso que a figura de Severino Cavalcanti – que, não por acaso, é do mesmo partido a que pertencia Bolsonaro, o Progressistas. Um cara conservador nos costumes, mas que apoia qualquer governo. Toda convicção é flexível diante da possibilidade de abocanhar uma fatia maior do dinheiro público. A fisiologia vem antes da ideologia.

Bolsonaro não é esse sujeito. Sempre deixou claríssimo o que pensava acerca dos governos FHC, Lula e Dilma. Apoio no Congresso, só quando o projeto cabia dentro da ideologia dele. No entanto, nas outras práticas políticas – do número e uso dado aos assessores parlamentares ao emprego da verba indenizatória –, Bolsonaro tem origem clara no baixo clero. A ideologia mistura-se inseparavelmente à fisiologia.

Bolsonaro já indicou que, na Presidência dele, há lugar para ambas. Disse que pior que a corrupção é a ideologia – entenda-se, a ideologia do outro. Ou seja, tal como no governo Trump, a pauta ideológica não é incompatível à roubalheira.

Aparentemente dará certo. A maioria do eleitorado brasileiro preferiu ignorar as denúncias de mau uso do dinheiro de campanha, surgidas já antes do pleito. Sabe-se lá o que ainda há a se descobrir, mas até agora a reação do público às denúncias contra a família Bolsonaro foi um grandessíssimo e eloquente dar de ombros.

Feliz 2019.

Lucas de Abreu Maia (siga @lmaia no Twitter)

É jornalista e doutorando em ciência política na Universidade da Califórnia, San Diego. Foi repórter de O Estado de S. Paulo e Exame

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