colunistas

O Jovem Ahmed – débil e sem interesse

Filme dos irmãos Dardenne desperdiça ideia instigante

Eduardo Escorel
11mar2020_10h22

Escrito e dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, O Jovem Ahmed chegou a alguns cinemas no Brasil às vésperas do Carnaval, trazendo uma credencial de peso. No Festival de Cannes do ano passado, no qual Parasita recebeu a Palma de Ouro, e a produção franco-belga-senegalesa Atlantique ganhou o Grande Prêmio, o Prêmio de Direção foi dado aos irmãos Dardenne. Nem assim, porém, O Jovem Ahmed despertou maior interesse por aqui. Nas três primeiras semanas, exibido em nove salas, apenas 5.281 pessoas se animaram a assistir ao filme. Pelo visto, o público não estava à procura de um bom antídoto para o Carnaval. Caso contrário, a produção franco-belga sobre o jovem adolescente muçulmano (Idir Ben Addi) sob influência de um imã radical (Othmane Moumen) teria sido uma boa opção. 

Quando assisti a O Jovem Ahmed quinta-feira passada (5/3), havia três pessoas na sala além de mim, sendo que duas estavam bem mais interessadas uma na outra do que no filme. Como entender tamanho desinteresse, considerando, além do prêmio em Cannes, a relevância do tema e o prestígio dos diretores? 

Ao terminar a projeção de O Jovem Ahmed, eu estava decepcionado e surpreso. Decepcionado, entre outras razões, com o filme em si, especialmente com a sequência final que não vou descrever aqui. Surpreso, com o fato de diretores consagrados como os irmãos Dardenne recorrerem, para a trilha musical, ao primeiro movimento da sonata para piano nº 21 de Schubert, na gravação de Alfred Brendel. Lembrei de imediato do que o cineasta português Pedro Costa disse certa vez no Centro Cultural Banco do Brasil: “Não sei como um cineasta ousa hoje em dia filmar o mar, as montanhas, e pôr Mozart ao fundo.” No caso de O Jovem Ahmed, não se trata de mar, montanhas e Mozart, mas do efeito fácil, igualmente escandaloso, obtido ao associar o andamento molto moderato de Schubert à trajetória errática de Ahmed. 

Os irmãos Dardenne, hoje com 68 e 66 anos, produtores e diretores de mais de sessenta filmes, documentários e ficcionais, realizados desde 1986, são muito respeitados e chegam a ser considerados por alguns como os “diretores europeus mais influentes dos últimos vinte anos”. Premiados duas vezes com a Palma de Ouro no Festival de Cannes – com Rosetta, em 1999, e A Criança, seis anos depois –, receberam ainda o Prêmio de Roteiro, em 2008, por O Silêncio de Lorna, e o Grande Prêmio, em 2011, por O Garoto da BicicletaDo pai desenhista industrial, os irmãos receberam “educação regida por princípios da religião e moral católica, contra os quais se rebelaram na adolescência. ‘Esses princípios eram estritos demais para nossa geração’, escreveu Luc. ‘Mas nossa casa era aberta. Nossa mãe sempre fazia comida para uma boca suplementar e se um ambulante passasse na rua meu pai o convidava para entrar. Nossos pais tinham essa generosidade […].” Além dessa influência, a educação religiosa contra a qual se rebelaram dotou os irmãos de uma arraigada fé humanista. 



Cena de O Jovem Ahmed
Cena do filme O Jovem Ahmed – Divulgação

 

No caso de O Jovem Ahmed, a inspiração veio dos atentados terroristas de 2015 e 2016, cometidos em Bruxelas e Paris, que deixaram dezenas de mortos e centenas de feridos. Não se tratava de “mostrar o sangue, mas antes de chegar ao cerne do que levaria alguém a radicalizar a ponto de fazer uma coisa tão hedionda”, disse Luc em entrevista a The Playlist

Mas essa premissa instigante escorreu entre os dedos dos dois diretores e foi desperdiçada, não tendo chegado a ser, a rigor, tratada e desenvolvida no filme com a profundidade requerida. Daí o filme ter se tornado débil e perdido maior interesse.   

Os Dardenne optaram por um personagem principal –  Ahmed  – de 13 anos, acreditando que nessa idade “ainda há uma chance de redenção e de mudar a doutrinação”. Nesse quesito, embora partam do mundo real, a dupla de irmãos belgas, valendo-se da liberdade que a ficção lhes concede, deixa o realismo social de lado e desenvolve a história como uma fábula na qual há lugar para arrependimento, perdão e, possivelmente, salvação. 

Isso, apesar de o roteiro ter sido escrito a partir de entrevistas com policiais, imãs, professores, juízes e jornalistas. “Não se tratava apenas de enfrentar a verdadeira situação de um radical, mas de mostrar também toda oração, todo argumento sendo proposto na tela com a luz mais realista possível. Não era apenas sobre Ahmed, mas também a respeito das pessoas ao seu redor, e para que suas ações a fim de salvar esse garoto não parecessem inventadas ou fora de contato com o que realmente aconteceria na vida real”, declarou Jean-Pierre. 

O modo de os Dardenne filmarem em O Jovem Ahmed é coerente com esse propósito documental, embora o filme como um todo não preserve essa característica. O mesmo uso intensivo de câmera na mão e planos próximos de filmes anteriores não é suficiente neste caso, porém, para evitar a impressão de estarmos no reino da fantasia. 

Os Dardenne falam da dificuldade de lidar com um personagem no qual a “doutrinação é tão profunda e aterrorizante” que ele não poderia escapar de “seus dilemas ou circunstâncias dramáticas encontrando uma pessoa que muda sua visão da vida” (como ocorre em filmes anteriores da dupla). Estava fora de questão acrescentar artifícios de roteiro para salvar Ahmed”, segundo Jean-Pierre. 

E, no entanto, apesar dessa louvável declaração de intenções, é exatamente isso que ocorre na ambígua sequência final, provocada dessa vez por um acidente fortuito. 

A.O. Scott foi certeiro ao escrever em sua crítica no jornal The New York Times (20/2) que “falta algo crucial [a O Jovem Ahmed] – talvez uma visão mais profunda do personagem ou das contradições que o envolvem. Este filme parece mais inconsistente e esquemático do que as obras-primas dos Dardenne […]”, ficando por conta do crítico americano considerar que os irmãos tenham feito obras-primas. 

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

Mais textos de Eduardo Escorel

26 de junho, sexta-feira de más notícias

Aniversário de Gil foi único momento de celebração neste tempo em que a tristeza é senhora

Fábulas políticas – invencionices e hipocrisias

De quantas vítimas precisaremos para que medidas legais e efetivas sejam tomadas para destituir o presidente?

Euforia e pânico – Ancine em questão

Reação da agência sobre falta de recursos para cobrir compromissos é, além de obscura, patética

Indiferença e expectativa: dilemas do tempo presente

Defesa da Cinemateca Brasileira exige destemor à altura do desastre anunciado no audiovisual

Oxigênio e sobrevivência

Prioridades na Cinemateca Brasileira e na vida

Esgares e sorrisos

Cinemateca Brasileira em questão

Valores permanentes, circunstâncias efêmeras

Cinema, apesar de tudo, mas em que condições?

Silêncio e ação – Cinema em tempo de pandemia

Diante de tantas mortes, alarido do ex-capitão é falta de compostura

Aeroporto Central e o tsunami

Aeroporto Central, de Karim Aïnouz, vinha percorrendo trajetória bem-sucedida até ser atingido pelo tsunami que, até 5 de maio, matou mais de 7,9 mil pessoas no Brasil, e causou acima de 256 mil vítimas no mundo.

O arremesso final – O cinema sobreviverá? Qual? Como?

Antes de atender aos grandes exibidores, é preciso dar prioridade às necessidades da mão de obra do setor audiovisual

Mais textos