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O mito, a faca e o fim do primeiro turno

O atentado a Bolsonaro divide as eleições em três disputas diferentes

Miguel Lago
10set2018_06h50

O deputado Jair Messias Bolsonaro, segundo candidato mais bem colocado nas pesquisas, está temporariamente fora da campanha de rua. As eleições presidenciais de 2018 são únicas, dado que os dois favoritos, responsáveis por 58% das intenções de voto (de acordo com a última pesquisa Datafolha que inclui Lula) estão, no momento, fora da disputa eleitoral. Um está preso, o outro, internado num hospital. Os espaços em que vemos os candidatos – debates, sabatinas, comícios – não contarão com a presença de nenhum dos dois. Mas, mais importante, o primeiro turno se fracionou em três disputas diferentes: a disputa de Lula com a Justiça Eleitoral, a disputa de Bolsonaro pela recuperação física e a disputa eleitoral clássica entre Marina Silva, Geraldo Alckmin e Ciro Gomes.

O que chama a atenção é a diferença de natureza temporal entre as três disputas. Uma se desenrola no tempo presente, seguindo as exigências do calendário eleitoral, moldada pelo confronto de ideias e propostas daqueles que almejam governar o país. As duas outras ocorrem na temporalidade ficcional do mito, ditando o compasso da história que cada uma quer contar.

Lula já teve sua chapa impugnada pelo TSE e, no entanto, insiste em retardar até o último instante possível a oficialização de seu candidato Fernando Haddad. Quanto mais o ex-presidente insiste em seu próprio nome, mais ele blinda a candidatura petista dos ataques e disputas normais em uma eleição. O candidato Fernando Haddad é apresentado na qualidade de porta-voz, o que, por sua vez, o protege das críticas que sofrerá quando for oficializada a sua candidatura. A estratégia de transferência de votos de um para outro requer uma narrativa controlada e fora do tempo presente. A de que na batalha entre Lula e os poderosos, estes o impedirão, através da Justiça, de concorrer efetivamente. O mito Lula precisa portanto ser encarnado pelo sucessor Fernando Haddad. Toda crítica dirigida aos petistas será rapidamente encaixada como do inimigo, dos poderosos e dos que perseguem o ex-presidente. A temporalidade desta candidatura é pautada pelos momentos de enfrentamento entre Lula e a Justiça Eleitoral. O PT está isolado, e portanto relativamente protegido do engalfinhamento daqueles que disputam a batalha eleitoral.

Bolsonaro foi obrigado a sair da campanha nas ruas por levar uma facada no meio de um comício na semana passada. O deputado que já era apelidado carinhosamente por seus fãs de “mito”, devido a seus rompantes delirantes e preconceituosos, viralizados nas redes sociais, foi de fato ungido como tal pela faca de Juiz de Fora. A partir de agora, Bolsonaro adentra uma nova temporalidade, a da recuperação médica. Todos os dias, a imprensa gerará mídia espontânea para o candidato da extrema direita sobre os passos, desafios e estágios de sua recuperação. Isso neutraliza a campanha de desconstrução de Bolsonaro feita por Geraldo Alckmin: qualquer um que criticar o ex-capitão nas próximas semanas será tachado de insensível. Bolsonaro também se salva de eventuais constrangimentos nas sabatinas, entrevistas e debates em que seu despreparo aparece escancarado. A novela que a extrema direita contará será a de que Bolsonaro sobreviveu a um atentado cometido por seus inimigos, assim como irá superar cada obstáculo físico na jornada rumo a sua recuperação. Essa estratégia permitirá a Bolsonaro consolidar seu patamar de 20% de intenções de voto, praticamente garantindo sua presença no segundo turno.

Os espaços de disputa eleitoral – isto é, debates, sabatinas, comícios, entrevistas – serão essencialmente ocupados por Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, que somados representam apenas 19% das intenções de voto num cenário com Lula como candidato. Na disputa eleitoral, o protagonista não é um mito, mas o país. Nela são debatidas propostas concretas, ideias, valores, programas são confrontados. Dado que Lula e Bolsonaro criaram histórias paralelas que giram em torno de si próprios, cabe aos três candidatos a discussão sobre os rumos do país. A tendência é que os três explicitem suas diferenças na corrida por uma vaga improvável no segundo turno.

 

Se antes da facada o cenário caminhava para uma disputa entre direita e esquerda no segundo turno, com Geraldo Alckmin e Bolsonaro disputando a vaga da direita, Marina e Ciro disputando o eleitorado de Lula com Haddad, agora temos um cenário em que tanto Haddad quanto Bolsonaro estão temporariamente fora da disputa, e ambos provavelmente no segundo turno. A luta entre a centro-direita e a centro-esquerda, para garantir que um dos três centristas vá para o segundo turno, parece irreversível.

Lula transformou a prisão em fortaleza impenetrável. Bolsonaro tem agora a oportunidade de fazer o mesmo com o hospital. O isolamento tem funcionado eleitoralmente para Lula: cresceu em intenções de votos, chegando a 39%. O isolamento pode funcionar para Bolsonaro também: fortalece sua militância e gera empatia num candidato que dissemina ódio. Estar preso e ter quase morrido são situações horríveis tanto para o Luiz Inácio e para o Jair, mas são a garantia de sobrevivência política extraordinária tanto para Lula quanto para Bolsonaro.

Situação esdrúxula em que a melhor maneira de figurar no pódio é nadando fora da raia. Quem entrar na disputa eleitoral ou quiser debater sobre o Brasil e sobre políticas públicas perderá. A facada que quase matou Jair deu pulso de vida a Bolsonaro e praticamente ceifou as ambições dos três candidatos que resolveram de fato disputar a eleição. 2018 não é sobre o país, é sobre mitos.

Miguel Lago

Miguel Lago

Miguel Lago é cientista político, cofundador da rede Meu Rio e diretor da ONG Nossas

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