questões cinematográficas

O Paciente e O Banquete – frutos da tragédia

Vistos em conjunto, os dois filmes tornam-se reflexo do cenário político atual

Eduardo Escorel
20set2018_19h12

O   Paciente, de Sergio Rezende, e O Banquete, de Daniela Thomas, possuiriam algo em comum, além de terem estreado juntos na quinta-feira, 13 de setembro, e poderem ser assistidos na mesma sala 05 do Espaço Itaú – Botafogo, em sessões consecutivas?

Vistos assim, primeiro O Banquete e minutos depois O Paciente, traços formais similares dos dois foram realçados e se cogitou a hipótese de o desencanto de O Banquete ser um desdobramento possível da desesperança coletiva causada pela morte de Tancredo Neves e a posse na Presidência da República, em seu lugar, do vice José Sarney.

Rezende e Thomas restringem o tempo e o espaço de seus respectivos filmes. À parte o prólogo, no qual é feito breve retrospecto do que ocorreu após o golpe de 1964, até a eleição indireta para a Presidência da República, em 1985, O Paciente concentra seu foco nos 38 dias entre a véspera da posse e o cortejo fúnebre de Tancredo Neves. Além disso, restringe a maior parte da ação ao que se passa nos hospitais em que ele esteve internado nesse período.

O procedimento de O Banquete é similar, embora mais drástico – a ação se passa em algumas horas, na casa de Plínio (Caco Ciocler), um advogado bem posto na vida, e sua mulher Nora (Drica Moraes), quase sempre em torno da mesa de jantar, na comemoração do 10º aniversário de casamento de Mauro (Rodrigo Bolzan) e Bia (Mariana Lima), ele editor e dono de jornal, ela atriz, celebração da qual também participam Maria (Fabiana Gugli), crítica de teatro, e Lucky (Gustavo Machado), seu acompanhante.

O principal desafio que O Paciente e O Banquete tem a enfrentar decorre de serem narrativas com desfechos conhecidos de antemão ou ao menos, no caso do filme de Thomas, previsível a partir de suas primeira cenas.

A trapalhada médica relatada em O Paciente, responsável de acordo com o filme pela morte de Tancredo Neves, é bem conhecida. E os primeiros planos de O Banquete não deixam muita margem para dúvida em relação ao que se seguirá – uma mosca pousa e é comida pela planta carnívora do arranjo decorativo central da mesa de jantar; o copeiro limpa a taça com sua saliva; Nora chora diante da mesa; Plínio chega em casa trôpego, com a camisa para fora da calça, esquecido ou sem saber da celebração prestes a começar. Ele desarruma a cabeceira da mesa com sua pasta e seus papéis, e toma uma taça de vinho de um gole só. Passadas essas cenas, algum espectador poderá ter dificuldade em imaginar o que irá ocorrer?

Outro obstáculo que tanto O Paciente, quanto O Banquete, têm dificuldade em superar é a dramaturgia de ocasião dos seus roteiros, de origem teatral, trivializada pela ficção televisiva, na qual diálogos prevalecem sobre a ação – o pouco que acontece em cena chega a parecer irrelevante. Importa mesmo o que é dito. O recurso narrativo é legítimo, desde que não reduza os personagens a ventríloquos de palavras vazias. É preciso que os diálogos tenham qualidade cinematográfica, ou seja, que não se limitem a emitir conceitos e transmitir informações.

O Paciente nem sempre evita frases grandiosas ditas para a História que desumanizam o personagem principal, prejudicando por vezes o empenho de Othon Bastos em representar um Tancredo Neves convincente. Os diálogos de O Banquete, de seu lado, exageradamente triviais, acabam por se tornar tediosos, à medida que o linguajar, de modo recorrente, passa a ser cada vez mais chulo.

Eis, então, que temos neste momento um paciente nas telas que morreu na véspera de tomar posse na Presidência da República, e outro, internado no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Líder  das pesquisas de intenção de voto para o 1º turno da eleição presidencial do próximo dia 7 de outubro, o candidato convalescente poderá ser eleito presidente da República, segundo simulações recentes para o segundo turno.

Passamos em 33 anos, portanto, da expectativa de um presidente civil hábil, de longa experiência política, eleito pelo voto indireto, capaz de fazer a transição conservadora da ditadura para a democracia e reordenar o país, para a possibilidade de vermos eleito, pelo voto direto, um capitão da reserva, deputado federal no exercício do seu sétimo mandato, que capitaliza a rejeição generalizada aos políticos tradicionais, defendeu o fechamento do Congresso e o fuzilamento de adversários, considera que um torturador notório é um herói, prega a violência e não disfarça em cada frase seu próprio despreparo para ser presidente da República – ou seja, regredimos bastante de 1985 para cá.

O Paciente se mantém distante dessa querela, mas ao ser lançado em plena campanha presidencial é inevitável que o fracasso dos médicos narrado no filme se some ao dos políticos, responsáveis entre outros, cada qual por seu quinhão, pelo dilema crucial frente ao qual nos encontramos.

O Banquete, mais sofisticado do que O Paciente em termos de cenografia e figurino, sem falar da fotografia de Inti Briones, demonstra também maestria no modo de filmar, enquanto Rezende e o diretor de fotografia Nonato Estrela optaram por uma decupagem mais simples, com planos frontais, longos, explorando pouco a variedade de ângulos de que Thomas e Briones tiram partido.

A tênue esperança que nos resta é que os personagens de O Banquete venham a provar não serem representativos da elite brasileira. Caso contrário estará demonstrado que a responsabilidade por termos chegado às vésperas da eleição presidencial com o capitão paciente liderando as pesquisas não é apenas de médicos desastrados e políticos desmoralizados. Com a elite que o filme de Thomas apresenta, não poderíamos esperar nada melhor.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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