questões da política

O pacto

Acordo de Bolsonaro com Centrão tem objetivo de fazer com que disputa de 2022 seja entre o presidente e Lula – e no máximo mais um candidato enfraquecido

Joaquim Falcão
05abr2021_17h17
Bolsonaro cumprimenta Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, observado por Rodrigo Pacheco (DEM-MG), presidente do Senado
Bolsonaro cumprimenta Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, observado por Rodrigo Pacheco (DEM-MG), presidente do Senado - FOTO: PEDRO LADEIRA/FOLHAPRESS

Temos assistido a uma inundação de fatos políticos e econômicos. Soltura de Lula, suspeição de Moro, arquivamento do inquérito de Aécio Neves, ameaças de Arthur Lira, mudança de ministros militares, queda de Ernesto Araújo, explosão do Pazuello, reauxílio emergencial, orçamento inviável e por aí vamos.

Fatos que, por sua vez, nos inundam de perguntas. Quem ganha? Bolsonaro foi enquadrado pelos militares ou não? Lira vai cumprir a ameaça do impeachment? Lula vai ser candidato mesmo com outros processos? Etc.

Interpretações e análises estão à solta.

Para entender essa inundação de fatos, o professor da Unicamp Marcos Nobre lembra bem que, em fevereiro, firmou-se grande pacto no Brasil: Centrão & Bolsonaro. Executivo com Legislativo. Adicionem ainda alguns membros do Supremo, Ministério Público, AGU e TCU. Pactuaram-se.

Para quê?

Para que a eleição de 2022 seja apenas Lula versus Bolsonaro. No máximo, um terceiro candidato, o mais enfraquecido possível. Daí em diante, ou nas vésperas, o pacto acaba. Você decide: vota num ou noutro. Vale tudo. Cada um por si.

Mas lembrem-se: são candidatos que partem na frente, pois já têm grande recall. Já concorreram. São presidentes. Fator importante na escolha do voto, conforme Nobre. Cada um armado com bem treinados exércitos de redes sociais.

Ministros militares declinaram de participar do pacto. Saíram. Não lhes cabe. Não lhes apraz tenentismos. Paulo Guedes bate na porta. Quer entrar. Mas não lhe abrem. Ricardo Salles na esquina, esperando o esquecimento.

A inundação de fatos não revela quem ganha ou perde. Porém, mais importante: revela como o pacto está sendo executado. Esse é o código para entender melhor o que se passa. E se passará.

Sua execução o desnuda. Já é muito.

Em todo pacto, às vezes, uns perdem, outros ganham. Oscilam-se. Cedem-se, irritam-se, recuam-se, ameaçam-se. Concordam-se. Tudo é útil para chegarem juntos à meta principal de 2022. 

Suspeitar Sergio Moro é tentativa de retirar o tema da corrupção da eleição futura. Retirar o clima Lava Jato. Desdenunciar ou absolver os filhos de Bolsonaro, segmentos do PT e vários dos congressistas. São táticas convergentes. Conseguirão?

Trata-se de paralisar ou extinguir processos judiciais e administrativos. Neutralizar, dentro de uma legalidade sem legitimidade, a eficiência e eficácia dos órgãos federais de controle. Se necessário.

O fato mais importante foi a nomeação do delegado da Polícia Federal Anderson Torres para o Ministério da Justiça. Junte-se também a próxima indicação para procurador-geral da República. E a escolha de novo ministro do Supremo. Quando o Centrão fala. Falará. Indicação de novos ministros do Superior Tribunal de Justiça. Possibilidades não faltarão.

A dura ameaça de impeachment pelo presidente da Câmara e a suave punição ao obsceno e racista gesto de Filipe Martins, diante das costas do presidente do Senado, passam a impressão de que o Congresso é forte. O que justifica o pacto.

O presidente deve ter lido Molière: “Todos os homens se parecem nas palavras. Somente pelas ações é que se descobre que são diferentes.” Palavras não desfazem o pacto.

Ceder Ernesto Araújo, contrariar Paulo Guedes e discutir emendas de parlamentares são fatos graves. Mas, para o pacto, são quase cenográficos. Faz parte. Um perde aqui, outro ali. Ambos ganham.

Três acidentes, entretanto, podem ocorrer. Além de Mourão, em cívico plantão, de prontidão.

Primeiro, pode ocorrer a captura da crescente insatisfação social por uma candidatura de união entre políticos de centro-direita e centro-esquerda. Os crescentes manifestos (as novas ruas) de banqueiros, estudantes, juristas, diplomatas, líderes comunitários, economistas, médicos foram parar nas mãos de um acordo tático entre Ciro, Mandetta, Leite, Huck, Doria, Amoêdo. Ou ainda Flávio Dino e Sergio Moro. Ou de candidato ao lado, mas ainda desconhecido.

Muitos grupos, da elite e dos sem renda, já estão como Diógenes da antiga Grécia. Com uma lanterna acesa dia e noite, à procura de um homem de bem. Honesto. No caso, homem ou mulher.

Segundo, o impacto eleitoral da pandemia pode perturbar o pacto. Gerando mortes, desemprego, fome popular. Estima-se meio milhão de brasileiros mortos. Classe média, pequenos e médios eleitores feridos. Grandes empresas com lucros preocupados. Mortos não falam, mas, nesse caso, podem se vingar.

As mídias sociais trarão de volta na campanha as importunas, atrasadas e desrespeitosas falas e ações do presidente.

Terceiro, o tempo também conta. Falta muito para 2022. São muitas as variáveis para o pacto controlar. Conseguirá? E sabemos: casualidades e acasos são quem definem, com mais probabilidade, o destino.

Inclusive o destino dos pactos. Aparentemente tão sólidos e bem executados. Mesmo assim tensos. Sempre partidos, como a cidade de Zuenir Ventura. Podem se desmanchar nas rampas do Planalto. Na subida ou na descida. 



Joaquim Falcão

Membro da Academia Brasileira de Letras e professor de direito constitucional.

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