minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

flip 2025

Por dentro da Esquina piauí + Netflix

Ana Maria Gonçalves, Valter Hugo Mãe e outros nomes passaram pelos três dias de conversas na nossa casa em Paraty

| 31 jul 2025_12h05
A+ A- A

A Esquina piauí + Netflix abriu as portas na 23ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) entre quinta-feira (31 de julho) e sábado (2 de agosto), com a presença de convidados como  o escritor português Valter Hugo Mãe e a mais nova imortal da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves, com curadoria do editor de literatura da piauí, Alejandro Chacoff.

Abaixo, veja como foi a cobertura em tempo real da casa.


 

Na primeira mesa, na quinta-feira (31), a repórter da piauí Angélica Santa Cruz recebeu a médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes no Conversa com a Fonte. Arantes é autora de oito livros, entre eles o best-seller A morte é um dia que vale a pena viver, e falou sobre a experiência no cuidado com pacientes terminais. Seu trabalho foi tema de uma reportagem de Santa Cruz na piauí.

Quintana e Santa Cruz na mesa inaugural da Esquina piauí + Netflix

 

À tarde, no mesmo dia, o editor Luigi Mazza conversou com os repórteres Gilberto Porcidonio e Tiago Coelho sobre o jornalismo cultural da piauí, na mesa O pop levado a sério.

Luigi Mazza, Gilberto Porcidonio e Tiago Coelho

 

Porcidonio comentou uma reportagem sua sobre a última turnê da banda Sepultura, ao lado da qual caiu na estrada, de Buenos Aires a Belo Horizonte. O jornalista falou do cuidado para lidar com uma banda sobre a qual já conhecia tantas histórias. “Me lembrou um jargão da antropologia: tornar estranho o que é comum e comum o que é estranho. Não faria uma matéria para mim, mas para quem nunca ouviu Sepultura na vida e nem sabe o que é heavy metal.”

Coelho mostrou trechos inéditos de áudio de entrevistas com o cantor João Gomes, que foi tema de um perfil na piauí em agosto de 2024. “O perfil é uma chance de você olhar um artista por um outro ângulo. Depois que o João Gomes mostrou estar triste no perfil, quando você o via cantando animado no Luciano Huck você sabia que tinha um lado que ele não mostrava”, disse. “Na piauí, o que leva a um bom perfil é o desejo de saber, por exemplo, por que aquele garoto está cabisbaixo. Não fico preocupado com tendência de rede social. Eu me interesso é em saber mais sobre aquele personagem e contar aquela história.”

Fechando a quinta-feira (31), Armando Antenore, editor da piauí, recebeu no palco a escritora Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor. A escritora mineira se tornou recentemente a primeira mulher negra eleita para a ABL. Sua editora, Livia Vianna, da Record, também participou do bate-papo.

O editor Armando Antenore, a escritora Ana Maria Gonçalves e a editora Livia Vianna

 

Gonçalves falou sobre o pioneirismo na ABL. Sou a primeira, mas vou agir para que não seja a última. E contou que, antes de lançar a candidatura, falou com a escritora Conceição Evaristo, um nome sempre lembrado para a academia. Antes de tomar qualquer decisão eu consultei a Conceição. É uma candidatura coletiva – simbolicamente, estamos entrando juntas. Mas falar da representatividade já não basta. Não dá mais para ser a única representando uma multiplicidade de pessoas. Não estou lá para representar. Quero estar lá para produzir mais presenças.

Uma hora antes do início, já se formava a longa fila da foto acima para a mesa com Ana Maria Gonçalves. A escritora leu, ao final da conversa, um trecho inédito de seu novo projeto literário – um relato pessoal a respeito do envelhecimento e da menopausa. O trecho pode ser lido aqui.

O curador Alejandro Chacoff (de camisa azul) e o editor Armando Antenore recebem a autora Ana Maria Gonçalves e a editora Livia Vianna na entrada da Esquina piauí+Netflix

 

A sexta-feira (1º) começou com uma conversa entre o diretor de redação da piauí, André Petry, com os repórteres Allan de Abreu, Ana Clara Costa e João Batista Jr. sobre furos de reportagem. O furo é frequentemente associado à rapidez da notícia – à maneira pela qual um veículo de imprensa consegue divulgar uma informação de interesse público antes de todos os outros. Mas para uma revista mensal, especializada em reportagens longas, o conceito se complexifica. O que é um furo da piauí? De que forma ele é distinto de um furo dado por um jornal diário ou uma revista semanal?

André Petry, Allan de Abreu, João Batista Jr. e Ana Clara Costa

 

Há três tipos de furo: o furo de quem chega antes, o furo que é dado quando todos os jornalistas estão olhando o mesmo assunto e o furo de quem chega depois. Este último é contraintuitivo, mas é o que a piauí mais faz, disse Petry. Por baixo de cada história mal contada há um furo escondido.

Um exemplo disso é o escândalo sexual que levou à demissão do ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida, em setembro de 2024. Ana Clara Costa contou que, à época, vinha preparando uma reportagem sobre a situação das mulheres no governo Lula. No curso da apuração, percebeu que a melhor maneira de fazer isso era reconstituir exatamente o que aconteceu entre Almeida e a ministra Anielle Franco, que o acusou de assédio sexual. O resultado foi a reportagem Estilhaços na sala, que não apenas esclareceu o caso em um nível de detalhes inédito como demonstrou a inação do governo durante todo o processo.

Allan de Abreu comentou como foi o processo de apuração da reportagem Coisas extravagantes”, publicada em abril deste ano, que revelou os desmandos de Ednaldo Rodrigues à frente da CBF. As pessoas sabiam que havia algo errado na gestão do futebol brasileiro. Nós fomos atrás da causa dos problemas.

Tem matérias que são feitas sem documento de inquérito ou da polícia, na unha mesmo. Por isso a apuração demora tanto pra descobrir algo não revelado, disse João Batista Jr., ao comentar suas reportagens sobre o mundo das bets que tiveram grande repercussão (O bonde do tigrinho A república do tigrinho).

Na mesa seguinte, a repórter da piauí Consuelo Dieguez recebeu a escritora Sílvia Gomez, autora da peça Lady Tempestade, e a escritora chilena Alia Trabucco Zerán, que publicou A subtração, e, mais recentemente, As homicidas. As três conversaram sobre como retratar as diferentes formas de violência política e institucional pelo olhar de protagonistas mulheres.

Consuelo Dieguez, Sílvia Gomez e Alia Trabucco Zerán

 

Estrelada por Andréa Beltrão, Lady Tempestade trata do diário da advogada pernambucana Mércia Albuquerque, que defendeu ao menos quinhentos presos políticos durante a ditadura militar no Brasil. “No momento em que você lê o diário, você não tem como esquecer ou fingir que não leu”, disse Gomez. Segundo ela, a pesquisa e os ensaios que resultaram na peça levaram cerca de um ano. “A gente batia a cabeça na parede, tentando adaptar o diário à dramaturgia. Até que chegamos à ideia de fazer um diário do diário.” Na peça, uma mulher chamada A. recebe o diário de Mércia e passa a se sentir assombrada por ele. “Essa personagem traz para o presente uma indagação: aquilo que aconteceu no passado continua acontecendo hoje?”, continuou Gomez.

Alia Zerán falou sobre o processo de apuração e escrita de As homicidas, livro que conta a história de quatro crimes cometidos por mulheres. Os quatro se tornaram célebres no Chile no século XX, ganhando contornos sensacionalistas na imprensa pelo simples fato de que as criminosas eram mulheres. Para Zerán, essas histórias demonstram como a Justiça, a opinião pública e a cultura de modo geral são permeados pela misoginia. A imprensa, peças de teatro, músicas, todo mundo falava dessas mulheres assassinas. Queriam, principalmente, botá-las de volta no lugar de mulher, daquilo que se espera de uma mulher. A violência praticada por elas não era tão interessante, para mim, quanto a violência aplicada para que elas voltassem aos seus lugares”, disse a autora.

À noite, na sexta-feira, o editor de literatura da piauí Alejandro Chacoff recebeu o escritor português Valter Hugo Mãe para conversar sobre a adaptação cinematográfica de seu livro O filho de mil homens. Também participaram da conversa o diretor do filme, Daniel Rezende, a líder de filmes da Netflix Brasil, Higia Ikeda, e, numa participação especial e imprevista, o ator Rodrigo Santoro, que interpreta o protagonista da história, Crisóstomo.

“Foi o melhor papel da vida dele”, brincou Mãe, que já assistiu ao filme. A obra, produzida pela Netflix, tem previsão de lançamento para este ano. “Estou em uma fase em que não choro, a vida foi uma porcaria nos últimos anos, mas quando vi o filme não fiz outra coisa a não ser chorar”, disse o escritor. Santoro se emocionou ao falar de seu personagem. “Não consigo nem classificar o Crisóstomo [em comparação com outros papéis].”

Alejandro Chacoff, Valter Hugo Mãe, Daniel Rezende, Rodrigo Santoro e Higia Ikeda

 

Rezende explicou que, ao fazer a adaptação, tentou ser radicalmente fiel ao livro de Mãe. “Mas conforme fomos transformando as palavras em gestos, imagens — quanto mais distante do livro, mais próximo ele ficou. O filme tem o seu DNA.” Ele diz ter se esforçado para traduzir de maneira sóbria a espiritualidade do romance. “Trabalhamos muito a sutileza e as sensações. O olhar, o cheiro. O toque.” Ikeda disse esperar que o filme alcance não só o público brasileiro ou português. “É o meu maior desejo [que uma produção lusófona ganhe espaço no mercado internacional].”

 

No sábado (2) pela manhã, os colaboradores da piauí Roberto Kaz, Afonso Cappellaro e Renato Terra conversaram com Mari Faria, diretora do podcast Foro de Teresina, na mesa intitulada The piauí Herald: a política no humor, o humor na política. Os dois primeiros são os redatores atuais da seção humorística na revista e no site da piauí. Terra já foi responsável pelos textos e hoje escreve o Diário do Geraldo.

Mariana Faria, Roberto Kaz, Afonso Cappellaro e Renato Terra

 

Kaz contou as origens do Herald, uma ideia do fundador da piauí, João Moreira Salles, inspirada em outros veículos que popularizaram o jornalismo satírico. A seção foi criada pouco depois da revista, fundada em 2006. “Quando o Herald nasceu, era um período muito otimista do Brasil. Tinha mais espaço para piadas aleatórias, nonsense, absurdas. Hoje em dia sinto que a gente tem mais responsabilidade em fazer humor”, disse Kaz. “Vejo o Herald como uma coluna de política.”

“O humor tem a função no jornalismo de ampliar o conhecimento e expor o ridículo”, disse Terra. Não apenas a conjuntura política mudou, mas também a velocidade do humor. “Hoje em dia você pensa em uma piada, mas ela já foi publicada dez vezes na rede. Temos uma máxima que é: nunca aceite a primeira piada”, disse Capellaro. “Mudou muito o humor que fazemos. Em 2010, fazíamos piada com o Alexandre Frota e ele por si só era a piada. No governo Bolsonaro, a coisa foi pra esculhambação”, disse Terra.

Antes do início da mesa, Kaz entregou aos colegas o álbum de figurinhas do Central da Cop 30, um site do Observatório do Clima com informações sobre a conferência em linguagem de futebol.

À tarde, na mesa Encontro com o autor, Pedro Pacífico, conhecido como Bookster nos vídeos de recomendação literária que publica na internet, conversou com Valter Hugo Mãe. Foi a segunda visita do escritor português à Esquina piauí+Netflix. Ele teve uma agenda intensa na Flip, sempre com sessões disputadas e filas que começaram a ser formadas com horas de antecedência.

“Como vou explicar essa multidão querendo ver esses autores, disputando entrada, tristes por que não entram? Sinto até que os escritores não são assediados, mas os leitores também se assediam. A Flip é importante para a natalidade no Brasil”, brincou.

Eles falaram sobre ofício da escrita e a adaptação cinematográfica de O filho de mil homens. Bookster, a certa altura da conversa, fez uma entrevista ping-pong sobre os gostos culturais de Mãe:

Livro de cabeceira:Os miseráveis, de Victor Hugo”
Com quais autores tomaria um café (vivos ou mortos): “Oscar Wilde e Leon Tolstói (mas nas duas horas antes de ele morrer, como se soubesse que fosse morrer)”
Livro que gostaria de ter escrito:Um defeito de cor” (Ana Maria Gonçalves)
Está lendo:Tomara que você seja deportado” (Jamil Chade)
Música: “Rubel, assim como Zé Ibarra, é um dos que está levantando essa geração musical além do reggaeton, do funk favela.”

Bookster e Valter Hugo Mãe

 

Entre os convidados da Esquina piauí + Netflix no sábado também esteve a documentarista Petra Costa. Em uma mesa com a produtora Alessandra Orofino e o escritor José Henrique Bortoluci, ela explicou a confecção de seu novo filme, Apocalipse nos trópicos. O documentário narra o crescimento da influência política do cristianismo evangélico e sua relação com a extrema direita. “Eu sempre tento mergulhar naquilo que me assombra. No meu primeiro filme [Elena], mais pessoal, o fantasma era a morte de minha irmã. O Democracia em Vertigem era o simulacro de uma democracia em ruínas”, disse Costa. O novo filme, segundo ela, lida com o temor de que uma autocracia se instale no Brasil.

José Henrique Bortoluci, Petra Costa e Alessandra Orofino

 

“Logo no início da nossa investigação, dei de cara com a minha ignorância. Meus pais só me ensinaram a sentir desprezo pela religião”, disse a cineasta. “O que nos impressionou muito é a miopia com que a sociedade brasileira ainda enxerga o fundamentalismo evangélico. Nos Estados Unidos, onde esse movimento nasceu, existem ao menos cinquenta livros sobre como o fundamentalismo se uniu aos republicanos num projeto de poder. Todos esses livros conectam o 6 de janeiro americano ao casamento perverso da religião com a política. A gente está olhando pouco para isso no Brasil, o que nos instigou durante a produção do filme. De onde vem essa teologia, que é tão discutida e abraçada por tantas lideranças evangélicas?”

Orofino acredita que o documentário pode ajudar a esclarecer um assunto que, segundo ela, é frequentemente marginalizado. “A maneira como a nossa elite intelectual se relacionou com o crescimento das igrejas evangélicas nos últimos trinta anos foi muitas vezes condescendente. E uma das piores formas de condescendência é não reconhecer a força do adversário.”

A mesa de encerramento ficou por conta do sociólogo Tulio Custódio, que conversou com o editor-executivo da piauí Alcino Leite Neto sobre a vida e o pensamento de Abdias Nascimento – ativista do movimento negro, senador, dramaturgo, artista plástico e um dos principais intelectuais do século XX no Brasil. Custódio é o organizador de Abdias, intérprete do Brasil, livro lançado pela Todavia que reúne textos sobre raça e cultura brasileira publicados de 1940 a 1990.

Alcino Leite Neto e Túlio Custódio

 

“Com o título do meu livro, eu quis jogar luz não só sobre a contribuição do Abdias em textos, mas também sobre a forma como ele tensionou e esticou essa noção de interpretação de país, abarcando as artes plásticas, o teatro, o cinema”, disse Custódio. “O Abdias tinha o entendimento de que falar sobre racismo no Brasil não é só falar da discriminação explítica, de fatores externos. É falar também de subjetividade. Do negro se entender como sujeito e povo.”

Exemplo desse pensamento posto em prática é o Teatro Experimental do Negro (TEN), criado e dirigido por Abdias em 1944. Custódio relembrou o fato de que Abdias obteve de Getúlio Vargas, pessoalmente, a permissão para a estreia do TEN no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. “Esse era um projeto total e multifacetado de fazer parte das questões brasileiras e tentar superá-las através do combate à discriminação racial”, disse o sociólogo. Ao final da conversa, ele autografou alguns exemplares de seu livro.

Assine nossa newsletter

Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí